O processo de impeachment começou. Irá adiante? Será exitoso? Como se comportará a população? Haverá conflitos? Estamos apreensivos. O Brasil está fissurado, fraturado e padece enfermo à espera da cura. Não podemos, porém, deixar de albergar esperanças a respeito desse processo que é, sem dúvida alguma, legítimo e que corrobora o que temos repetido insistentemente em nossos textos: não há democracia sem leis, sem o seu cumprimento. Sem jurisdição não há chance de progresso porque o texto constitucional que rege uma nação é o elemento mais importante e justamente aquilo que possibilitará a indução de novo progresso que, por sua vez, consubstanciar-se-á em novas leis mais em acordo com a realidade à qual se busca orientar. Não podemos, pois, deixar que uma ideologia populista, destoante do que se dá em termos de desenvolvimento ético nas mais importantes nações continue a vigorar pela América Latina como se fôssemos incapazes de alcançar a maturidade política. Quando falamos maturidade política, queremos dizer tradição aliada à ousadia interpretativa dos fatos, qualificação dos dirigentes, política feita com seriedade e limpidez e não com tráfico de influência que corrompe desde o mais humilde trabalhador ao mais importante empresário.
O acerto de contas que se fará no Brasil é entre a classe média e a elite. Só que essa elite é a classe política: aquela tenazmente corrupta, reiteradamente criminosa e indecentemente falsa. A classe média somos nós: de estudantes a empresários, de donas de casas a profissionais liberais, de babás a patroas. Somos nós, trabalhadores que buscamos dignamente nossa subsistência e que merecemos respeito, respeito esse que nos tem sido negado pela classe dirigente que esfrega em nossa cara todos os dias mentiras inescrupulosas na intenção de adquirir alguma sobrevida no poder.
Perguntarão vocês: “Se o acerto de contas é entre a classe média e a classe política, que se dirá do pobre?” Fala-se que o povo pobre foi o mais favorecido com o governo da última década. Nós dizemos, ao contrário, que o pobre levantou por si mesmo, alimentando-se quando o bem bateu à sua porta sob a forma da caridade genuína de algum coração humano que foi ter com ele. A mão direita que fez o que a mão esquerda não sabe: foi essa a que o elevou, estendendo-se genuinamente em circunstâncias as mais adversas que não conseguiremos alcançar. Programas sociais são bem vindos e serão sempre. Lugares comuns que tentam qualificar isso como uma atitude absolutamente inovadora e revolucionária são apenas clichês e propagandas. O Estado que não se impusesse a tarefa de mitigar, de algum modo, a penúria de seus cidadãos nem mereceria continuar existindo. Não é contra isso, nunca foi contra isso que lutamos. Essa é só mais uma mentira na boca dessa gente torpe.
O que combatíamos e o que combatemos é o populismo, a sagração de uma personalidade aquém das mais limitadas expectativas a uma posição de herói nacional por ter cultivado a máscara de pai dos pobres enquanto abusava do poder de modo escandaloso, indecoroso, indecente, imoral; o que combatemos são políticas públicas ineficientes, incapazes de dinamizar a economia de um país e assegurar, com isso, a oportunidade de estudo e trabalho para as novas gerações; o que combatemos ainda é a cegueira moral e ideológica que busca justiça social solapando os critérios basilares da justiça comum, transgredindo as normas éticas mais fundamentais em nome de um suposto ideal que, no fundo, nem mesmo lhe toca o coração, mas apenas a inteligência, que se vê refletida e abrigada em um quadro intelectual já definido por uma ideologia pretensamente revolucionária – mas que, na verdade, equivale a um regresso totalmente incompatível com a realidade cada vez mais complexa com a qual precisamos lidar.
A sociedade mundial com seus problemas de proporções gigantescas – como é o caso do fundamentalismo religioso – precisa, com urgência, que se elejam para os mais altos cargos pessoas aptas, capazes, argutas, sóbrias e moralmente equilibradas. Chega, portanto, dessa fantasia de acreditar na utopia de um mundo perfeito quando o mal está batendo ensurdecedoramente à nossa porta na sua face mais cruel. O autointitulado Estado Islâmico é a questão mais crucial que se apresenta hoje à política mundial e o Brasil – com a sua dimensão territorial, com a sua valorosa história de receptividade de povos diversos – pode representar uma peça importante nesse xadrez da política internacional. Para que possamos, pois, contribuir, de algum modo, para a construção de um “mundo melhor” (como diriam os utopistas), precisamos imediatamente deixar de sermos utópicos, porque melhorar o mundo não é fazê-lo perfeito à golpe de martelo e foice, mas se pôr a trabalhar na construção do que precisa ser construído, na solidificação do que precisa ser solidificado e na destruição do que precisa ser destruído.
Como saber distinguir o que precisa ser feito? Firmando os pés no terreno que já foi pisado, entrando em contato com tradições culturais e políticas mais sólidas, mais antigas que as nossas, buscando os valores morais que nortearam a nossa caminhada até aqui e desistindo para sempre dessa reiterada e mil vezes fracassada tentativa de construção socialista, seja lá por que vias se queira empreendê-la. Não chegamos até aqui na história da humanidade para nos curvarmos a coletivismos. Sabemos que o progresso necessário é o progresso advindo da potência de criação individual. O indivíduo sufocado em sua liberdade é o indivíduo necessário ao socialismo; o indivíduo livre, forte, apto, é o único que pode fazer com que uma forma de organização sócio-política seja capaz de aproveitar em favor do homem todo o potencial tecnológico já alcançado.
O capitalismo, enquanto sistema econômico, é interessante e, talvez, insuperável. O que se nos apresenta como tarefa é administrar da melhor maneira possível suas qualidades, mitigando alguns de seus defeitos. Que o Brasil, portanto, saiba posicionar-se como aquilo que efetivamente é: um país produtivo inserido na economia de livre mercado; um país rico e com todo potencial para gerenciar sua própria riqueza; um país, enfim, sensato e que está despertando do sono populista do qual adormecera por longos anos.
O Brasil despertou do sono populista
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