Primeiro de abril de 2016.
O Brasil vivia, até pouco tempo atrás, um dos melhores momentos de sua história.
Tudo estava ótimo. Graças à mágica do governo, milhões de pessoas saíram da pobreza; surgiu até uma inédita classe média que ganha menos que um salário mínimo e ainda anda de avião! Isso havia demorado muito para acontecer; só veio depois de 500 anos dominados pela obscurantista direita, que chegou por aqui com Pedro Álvares Cabral e implantou o capitalismo neoliberal assassino que dizimou os índios e seu modo comunista paradisíaco de vida, instalando a mais absoluta miséria. Os tucanos – cujo nome, Partido da Social Democracia Brasileira, não quer dizer nada a respeito de sua orientação ideológica -, comandados por aquele-que-não-deve-ser-nomeado (que identificamos apenas pela abreviação FHC), enfureceram o povo e deram ensejo à revolta socialista de Tiradentes – a versão de que foi uma luta por diminuição de impostos era balela espalhada pelos reacionários -, à Guerra de Canudos travada pelo valente povo nordestino em nome dos ideais da esquerda – Antônio Conselheiro nem era monarquista -, e a todos os grandes conflitos da história nacional. Dizem as lendas que FHC também foi responsável pela extinção dos dinossauros, mas isso ainda carece de comprovação. O fato é que, há 52 anos, os udenistas tucanos aplicaram um golpe de Estado financiado pelos ianques para derrubar o governo do santo João Goulart, que tentou fazer alguma coisa de bom para o povo e foi impedido covardemente por uma quartelada.
Heróis como Lamarca e Marighella, que queriam restaurar a democracia no Brasil, conseguiram seu intento, mas o país ainda tinha dias tristes pela frente; o falsário Tancredo Neves, que não teve importância alguma e ainda serviu às elites reacionárias que aprovaram a Constituição neoliberal de 1988 em vez do projeto revolucionário sindicalista do PT, morreu antes de assumir, substituído por José Sarney, a quem Collor sucedeu – dois presidentes de extrema direita. Através de alguma coisa qualquer (a palavra impeachment está proibida), o maligno Collor foi expulso da presidência, mas logo os tucanos retomaram seu poder. Depois desse triste domínio do tucanismo, o povo chegou, com muito atraso, ao seu lugar de direito. O grande líder Lula, para felicidade suprema das classes trabalhadoras, dos artistas apadrinhados, dos grandes intelectuais Gilberto Gil e Chico Buarque, inventou, a partir de 2003, um novo país, com justiça social e inclusão, um país que se orgulha de ser o que é!
Finalmente o Brasil se tornou uma potência. O PT estabilizou a economia, resistiu à crise internacional de 2008, gerou empregos e posicionou o país, em sua magistral e responsável política externa, ao lado das maiores potências democráticas mundiais, como Venezuela, Bolívia e Irã. A educação prosperou e os estudantes saíram preparados como nunca, fazendo inveja aos gringos. A dívida pública praticamente desapareceu – só restaram uns trilhõezinhos aí e mais nada. Na saúde, os hospitais e o maravilhoso SUS nunca estiveram tão bem equipados, tudo vai melhor do que nunca, exceto por algumas “marolinhas”, como diria o grande líder Lula, como esses tais de zika vírus, chikun-sei-lá-o-quê e H1N1. O governo pensou no povo, e não nos empresários parceiros e nos banqueiros do capital financeiro, inimigos da pátria – basta ver como eles ficaram mais pobres durante os 13 anos da Estrela Vermelha. A Copa do Mundo foi um sucesso – deixou um monte de elefantes brancos espalhados pelo país e a seleção ainda tomou de 7 a 1, mas isso obviamente foi uma armação da direita para gerar intrigas e abalar o ânimo do povo. Os programas sociais foram aplicados com sucesso, sem necessidade de contrapartidas e prazos de término; o dinheiro para tudo vem do final do arco-íris e podemos gastar à vontade, ao contrário do que apregoam esses viciados em economia, esses pupilos toscos de um tal de Von Mises cujo nome nem sabemos soletrar direito.
Apesar de vivermos nesse paraíso, surgiram diversos ícones fascistas, braços da extrema direita tucana, que resolveram atrapalhar tudo. As tentativas vieram desde o começo; primeiro, um mentiroso chamado Roberto Jefferson inventou uma farsa chamada mensalão para atingir o governo. A extrema direita tinha a faca e o queijo na mão para dar um golpe no grande líder Lula; mas na época não tiveram peito. Após sinistras transações, puseram em prática suas armadilhas. Os braços conservadores do PMDB e do PP (que nunca foram aliados do PT, nós que somos burros) assaltaram a Petrobrás e promoveram uma farra com o dinheiro público para sujar injustamente a imagem de Lula e da diva Dilma Rousseff, escolhida pelo ex-presidente para sucedê-lo por sua monumental competência e sua retórica admirável. Capitaneados pelo terrível Eduardo Cunha, discípulo neoliberal de Mussolini, Sérgio Moro, um ditador de toga, Aécio Neves, um valente líder conservador que disfarça tão bem que disse que “não adianta me empurrarem para a direita, que não vou”, e o líder supremo do mal, Jair Bolsonaro, eles conseguiram conduzir as instituições, à revelia do povo, rumo a um golpe que destruiria todos esses anos de sonhos e esmagaria o futuro dos brasileiros, fazendo-os retornar aos outros 500 anos de trevas em que nada se fez no Brasil. Chegaram ao cúmulo de usar o Datafolha para mascarar números de manifestações; quando o Datafolha abordava uma manifestação golpista, transformava meia dúzia em 500 mil. Quando falavam do governo, eles e a Rede Globo viam 5 mil onde havia milhões! No fim, infelizmente, o golpe se consumou e a direita levou Michel Temer ao poder sem nenhum voto.
Achou esse texto ridículo? Eu também. No entanto, há hoje muitas pessoas – não predominantes na população, mas mais numerosas do que eu gostaria – que acreditam em babaquices como essa, ou em partes dela. Achariam essa história muito crível. A degradação abissal das nossas capacidades cognitivas pela manipulação da pedagogia e a repetição constante de mentiras no melhor estilo de Joseph Goebbels nos trouxeram até aqui. Imagine no futuro? Imagine quando livros forem escritos sobre estes dias? É por isso que precisamos nos preocupar hoje com a batalha das NARRATIVAS. Precisamos documentar fartamente o que está acontecendo. Precisamos deixar todo tipo de registro que pudermos – e hoje temos mais recursos à disposição para isso.
Se vacilarmos mais uma vez, seremos engambelados facilmente por aspirantes a tiranos que venderão maravilhas no futuro, como venderam ontem, como vendem hoje. Um dia, seus castelos de cartas sempre caem, e mais e mais pessoas entendem que narrativas como a que construí acima são patéticas, simplistas e estupidamente maniqueístas. Mas as gerações passam, e novos idiotas desinformados aparecem para ouvir mentiras de novos lunáticos, que revivem as histórias antigas e as adaptam às suas conveniências.
Não cometamos esse erro de novo. Saibamos exatamente, e deixemos que nossos descendentes saibam exatamente, por que Dilma Rousseff caiu – e ela cairá. Por que o PT se deteriorou. Porque o sonho se tornou pesadelo. Por que o país não foi fundado em 2003.
Ou então, seremos um eterno e enorme primeiro de abril.

