Os primeiros dados enfim foram lançados e as etapas do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff tiveram início. A partir de agora, o país entra em compasso de espera pelas dez sessões de que a governante dispõe para se defender; o momento de pôr um fim ao período petista nunca esteve tão próximo. O primeiro passo foi a formação da Comissão Especial que produz o relatório, antes de a votação ir a Plenário; ela foi eleita por 433 votos contra 1 (um parlamentar petista cearense, José Airton Cirilo).
Em um cenário em que o governo ataca sem qualquer pudor republicano o Poder Judiciário e manifestações de rua vexatórias ocorreram na sexta-feira (18/03) em apoio ao mandato de Dilma – o que supostamente seria condição sine qua non para a manutenção da democracia no país -, o desenho da chapa escolhida é alvissareiro, porque prevaleceram nomes favoráveis à deposição constitucional. Reportagem do UOL estimou que, no atual momento, haveria 31 votos favoráveis ao processo e 28 contrários, compondo os parlamentares que já parecem emitir um posicionamento definido. O presidente da Comissão, Rogério Rosso (PSD), tem procurado transparecer isenção, mas o vice-presidente é o aguerrido oposicionista Carlos Sampaio, uma das raras exceções entre os tucanos. O relator é Jovair Arantes, do PTB.
Alguns nomes que compõem a comissão estão sempre em evidência nas principais disputas políticas e ideológicas que chamam a atenção nacionalmente: a comunista Jandira Feghali, o peemedebista governista Leonardo Picciani, o ex-presidente petista da OAB Wadih Damous, o psolista-mor Chico Alencar e o falastrão Silvio Costa (agora no PTdoB), de um lado; do outro, Mendonça Filho (DEM-PE) – que se destacou na batalha contra a aprovação da mudança no caso da Lei de Diretrizes Orçamentárias-, o filho sem luz própria de César Maia, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tucanos como Bruno Covas e Nilson Leitão, e, do PSC, ninguém menos que Eduardo Bolsonaro e Marcos Feliciano. Promete ser uma discussão muito emocionante – não tanto pela elegância ou pela oratória encantadora de nossos homens públicos, de vez que não podemos esperar muitos gestos de grandeza dessa nossa classe política. Nosso destaque interessante vai para a presença, pelo PP, de Paulo Maluf, “procurado” pela Interpol; aliás, muito válido lembrar que os governistas e esquerdistas em geral nos acusam de estar nas mesmas fileiras que Eduardo Cunha, mas não se constrangem em marchar ao lado de Collor e Maluf. Sim, Maluf é contra o impeachment. Pois é…
O interessante é que, quando o clima esquenta e o fim do PT é uma realidade concreta, as figuras oportunistas, que se mantiveram, quer no silêncio mais sepulcral, quer na conivência mal disfarçada, quando o povo brasileiro clamava desesperadamente por uma oposição genuína, resolveram mostrar mais testosterona do que jamais tiveram – e, a bem da verdade, continuam a não ter. Se não estamos no time que acha que se pode descuidar de seguir enfrentando o lulopetismo enquanto ele não terminou oficialmente – isso seria subestimá-lo -, por outro lado, estamos de acordo em que uma esquerda de postura mais, por assim dizer, “higiênica”, esquerda esta que sempre enfrentou o PT com contenções injustificáveis e pusilanimidade por, no fundo, sentir alguma identificação com seu nefasto “simbolismo popular”, estará agora querendo assumir a pose de protagonista do golpe derradeiro, quando nada fez de relevante para merecê-lo.
Comecemos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ícone maior do tucanismo. Social democrata refinado e intelectualizado, muito já dissemos sobre seu governo, que teve méritos, e não engrossamos o coro dos que os negam em virtude dos deméritos – que também marcaram presença. Em suas últimas declarações, ao contrário do que pode parecer, esses deméritos se sobressaíram. Se o tempo inteiro dizia que Lula era um “símbolo popular” e que era quase uma pena torturante vê-lo maculado pelos seus malfeitos, que se deveria ter cautelas ao pensar em prendê-lo (?), se mantinha imperdoável hesitação perante a possibilidade de depor o governo derretido em corrupção e imoralidade, agora, FHC já fala abertamente que não há outra alternativa. Antes tarde do que nunca, ele reconhece que “o que as ruas gritaram foi isso” e que “agora o caminho é o impeachment”, por mais que seja “doloroso”.
Não está correto? Está. Então qual a crítica? É que, logo depois, as emoções utópicas e sonhadoras do sociólogo de esquerda falam mais alto e FHC pranteia a feiura explícita do “símbolo popular”: “Eu conheço o Lula há décadas, vi o Lula em São Bernardo (do Campo). Você se lembra que quando o Lula ganhou na eleição do candidato do meu partido e fiz tudo para que houvesse uma transição dentro das instituições, foi com emoção que passei a faixa pra ele e vice-versa. São momentos densos historicamente. Você ver o Lula enterrar a própria história? Isso me dá tristeza. Eu não comemoro esse fato, me dá tristeza, bem ou mal o Lula teve um papel no Brasil”. FHC é incapaz de perceber que Lula não enterrou a própria história; ele a está apenas coroando com o fim que ela sempre mereceu, em sendo uma história de agitação irracional, estupidez, contradições desavergonhadas e, no dizer excepcional de Lima Duarte, de “glamourização da ignorância”.
Muito pior do que FHC – que, bem ou mal, não deve mais ambicionar o poder pessoal -, diante do desgaste que o próprio PSDB sofre, quer aos olhos do eleitorado liberal ou conservador que se cansou de ver neles a única opção para barrar o petismo, quer aos olhos da esquerda órfã do PT que continua a lhe devotar alergia, é a insossa messiânica Marina Silva, do jovem partido Rede, que aparece em pesquisa do nada crível Datafolha na liderança de intenções de votos em uma eventual eleição. Múmia adormecida durante a maior parte do tempo, Marina aparece agora para dizer que “o TSE precisa ter sentido de urgência”; obviamente, ela prefere que a chapa seja cassada, tal como o tucano Aécio Neves (citado em delações e que também corre risco de ser investigado pela Lava Jato), cenário em que aproveitaria o rescaldo das últimas eleições para tentar se tornar presidente. Marina diz que “neste momento da crise política, temos dois polos: um tentando estabilizar a crise no polo do PT, tentando trazer de volta o PMDB; e outro tentando estabilizar a crise no polo PMDB-PSDB. Eu acho que é preciso um terceiro polo, que é o da sociedade. O Brasil não pode ficar cindido na velha polarização”.
O “elfo da floresta” retorna das cinzas para voltar a pregar sua “ruptura com os polos”, e, obviamente, em sua visão, o “polo da sociedade” seria bem representado por ela própria. Precisamos entender de uma vez por todas que a polarização PT e PSDB não é uma polarização entre “esquerda e direita”; é um fracionamento político-cultural submetido aos simbolismos e organizações estruturais da esquerda que saiu triunfante da anistia e dominou progressivamente o Brasil depois do ocaso do regime militar, com todo seu império de politicamente correto e divisionismo. O PT no poder foi um ponto extremo desse cenário, mas todo ele é um problema, em sua hegemonia, e precisa desde já ser contestado. Um filhote do PT como Marina Silva, cria do mesmo estado de coisas hegemônico que ela se propõe a combater, será capaz de rompê-lo? Terá essa candidata a salvadora da pátria condições de efetivamente tomar as medidas que se fazem necessárias?
FHC tem razão ao reconhecer que a hora é do impeachment; Marina Silva tem razão ao reconhecer que nem PT nem PSDB são caminhos para a grandeza nacional, não obstante o último seja menos destrutivo. O primeiro, porém, já teve sua vez na história; a segunda… Bem, cada um que reflita se deve merecer a sua ou se não será mais do mesmo.

