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“Os sábios dizem… que céu, terra, Deuses e homens
São mantidos juntos pela ordem, pela sabedoria e
Pela retidão: e é por esta razão que eles chamam
Tudo isso de ‘cosmo’…”.
Platão, Górgias, 507e508a.
Uma sociedade insular, isolada de contatos e choques culturais por séculos, teria condições de desenvolver uma filosofia, isto é, uma análise para além de sua própria cosmovisão? Ou uma ciência avançada, um desenvolvimento de novas e superiores técnicas de plantio, guerra, construção, comunicação? Sim, em termos de potencialidades.
Povos insulares e separados detêm desenvolvimentos diferentes e, em alguns aspectos, inferiores ou superiores uns aos outros. O povo da Ilha de Páscoa foi capaz de erguer e transportar monumentos enormes, mesmo estando isolados de qualquer outro contato por séculos; porém, suas construções cessaram em um determinado momento histórico. Já algumas outras sociedades, tão isoladas quanto, além de terem mantido seus hábitos sociais por mais tempo – não sofrendo um “abalo”, como os habitantes de Páscoa tiveram, causando uma parada total em suas construções[1] –, jamais em toda sua história (em seu período solitário) puderam construir o mesmo que o povo de Páscoa. Mas a potência de melhorar, modificar, e também, definhar e estagnar existe não apenas em coletivos humanos, mas também no próprio indivíduo, pois é uma característica do Homem, transcendendo as culturas.
Contudo, todos os homens são diferentes, com suas particularidades e semelhanças, e o mesmo se aplica em qualquer sociedade e cultura. Os elementos-chave para o desenvolvimento de qualquer tipo de composição cultural variam de acordo com o mundo: é sabido que a fauna existente no Crescente Fértil possibilitou, de maneira mais rápida que no resto do planeta, uma domesticação mais fácil, proveitosa e controlada de animais[2], assim como os rios possibilitaram uma necessidade maior de criar barcos para navegá-los, e os desertos criaram a necessidade maior de agrupamentos humanos em áreas menos inóspitas. Portanto o fator geográfico, hidrográfico e o da fauna influenciaram o desenvolvimento da Civilização Suméria, por exemplo; entretanto as influências não terminam na biologia e condições do globo.
O homem consegue influenciar a sociedade a sua volta, mas o oposto também ocorre, criando, desta maneira, um “mecanismo” interno em toda e qualquer cultura, onde a mentalidade e o imaginário se auto influenciam a todo o momento, causando diversas e, em sua totalidade, insondáveis consequências e variáveis para os Estudos do Homem, isto é, para as Humanidades.
Por mais que a quantidade de variantes causais possíveis seja absurda, certas constantes não podem deixar de ser notadas. Para a construção do raciocínio humano, bases firmes devem ser postas – um exemplo dessas “bases firmes” pode ser encontrado na obra de Aristóteles, o Pai da Lógica, quando afirmou que a intuição e indução, antes de o pensamento lógico surgir na humanidade, são responsáveis pelo “progresso” nas áreas intelectuais. As bases indutivas e intuitivas que a humanidade deteve serviram para construir, segundo o próprio Estagirita, o conhecimento humano[3], incluindo a própria filosofia aristotélica e, por fim, a Lógica – para a possibilidade de um “edifício” surgir. Afirmar que o caos impera nos estudos humanos e considerar a inexatidão absoluta como o único fator constante é ser contraditório e irracional. A necessidade de elementos-chave para causar algum tipo de modificação particular em uma cultura, por si só, é uma Constante Universal no Homem.
Preferir o caos como explicação total, como foi demonstrado, está fora de questão. Permanecendo com as Constantes explicativas e lúcidas, pode-se inevitavelmente chegar até um tipo de progressão no estudo das Humanidades, embora tal progressão não seja, de forma alguma, simples de ser feita; portanto, admitindo as potências e causas das modificações que resultam no progresso, ou regresso, de certos aspectos culturais, chega-se a seguinte indagação: quais são as que criam uma progressão, ou regressão, na cultura? A resposta, além de não ser facilmente atingida, está apenas parcialmente solucionada.
Sabe-se que a filosofia surge na Grécia, mas mais especificamente em uma Pólis oriental grega: Mileto; Tales foi o primeiro filósofo, e ao fazer sua análise naturalista, criou uma base necessária para o constructo de sua teoria: o “conceito” de tese.
O primeiro filósofo milesiano concebeu que tudo era formado por água, mas para além do centro de sua proposta, Tales foi o primeiro humano a propor uma tese baseada na observação e na problematização de uma questão existente: do quê as coisas eram feitas? Nada no mundo sequer se assemelhava a tal espécie de pensamento na época. Os contemporâneos de Tales explicavam o mundo de acordo com uma tradição oral (ou escrita, mas com bem menos intensidade) pautados em uma criação mitológica. Embora a filosofia – ouso dizer: até hoje – não se separe da religião[4], uma grande fenda foi criada pela cultura grega.
Peguemos a filosofa na Grécia, em sua origem, em comparação com o que existia no mundo em seu período. Tales viveu entre os séculos VII e VI antes de Cristo, e na época a cultura grega mantinha intercâmbios com a religião orfista, fora sua própria tradição mitológica com o grande nome de Homero em voga. Acreditava-se que a ordem do mundo era mantida por deuses[5], e nada que os homens fizessem teria força contra a vontade divina. Mais ao oriente, o mais singular dos povos existentes da Terra (neste período) estava na antiga região de Canaã: os da Semente de Abraão habitavam o que restou de dois reinos invadidos pelos assírios, onde ao norte encontrava-se o reino Israel, mais aberto ao paganismo e com um grande sincretismo religioso, mas ao sul o reino de Judá, profundamente influenciado por sua tradição, se mantinha fiel ao Deus de Abraão; porém o povo do Patriarca Israel detinha a única religião monoteísta no globo, muito fechada e agarrada em seu passado, e mesmo em Judá havia o problema com a infiltração do paganismo fenício em suas terras. Os deuses pagãos da Mesopotâmia, Ásia Menor, Trácia, Grécia, Fenícia, da Península Arábica, do Egito, Núbia e etc., não chegavam aos pés do conceito do Deus dos israelitas[6], porém todos compartilhavam a ideia de total vontade e ação de divindades para ordenamento do mundo e como causa para os acontecimentos naturais.
O orfismo pregava que todos, ao morrer, se tornariam deuses[7] após um período de purgação em vida. Os gregos mais “tradicionalistas” em seus cultos acreditavam que rios[8], lagos ou oceanos, por exemplo, poderiam ser deuses ou estar sob a interação direta de um, assim explicando os eventos e formações naturais como atos de consciência divina, e o mesmo, em certos pontos, poder-se-ia se aplicar no restante do paganismo no mundo, e até mesmo para com Deus, uma vez que a Vontade Dele imperava e regia o mundo[9], de acordo com a crença dos israelitas. Embora em tais religiões existisse o fenômeno da reflexão, o que inclui a possibilidade de reformulação de fundamentos, mudanças em alguns aspectos do entendimento da crença e do mundo e, por fim, uma discussão sobre aspectos internos da religião, o fato de existirem mudanças causadas por reflexões não é um sinônimo de uma teorização embasada na observação com o fim de ter uma explicação/demonstração – no caso específico: na formação do todo – de “fenômenos”, formulando, desta maneira, uma tese acerca de um tema.
A própria religião é um elemento-chave para a formação da filosofia, pois o religioso demanda um sentido de ordem cosmológica necessária para o início da percepção do próprio cosmo. Como o imaginário humano interfere em si mesmo, a religião grega foi um dos fatores que possibilitou um surgimento da cultura filosófica, mas a economia, geografia e política também o fizeram. Tales era um comerciante, astrólogo, matemático e engenheiro em Mileto, onde havia um contato cultural bem mais elevado por ser uma cidade muito ativa no comércio[10] com o Ocidente e Oriente, logo, havia muito mais contato e reflexões a respeito do cosmo que em uma cidade rural, ou uma urbe com menos diversidade.
Mas por que na Grécia? Os gregos eram diferentes. Sua cultura expansionista proporcionava a criação de colônias sem a centralização de uma metrópole; sua civilização era amante da música, comércio e do aprendizado desde cedo. Outras culturas pelo globo também compartilhavam de tais valores, como no Egito, na Fenícia, ou até mesmo antes, como nas cidades sumérias e nas sociedades palacianas da Creta Minoica. No fim, as particularidades de cada período e local são uma densa e escura névoa para a História. Os motivos pelos quais a filosofia nasceu na Grécia – e em particular, Mileto, para depois se espalhar por toda a cultura grega[11] – ainda são um mistério, mas a regra do elemento-chave, mesmo que este seja misterioso, ainda se mantém: a sociedade grega/milesiana detinha os melhores elementos possíveis na época (além do próprio Tales e suas distinções individuais) para o nascimento da filosofia[12].
Seja na formulação básica para o filosofar, ou para o surgimento de agrupamentos humanos, os arranjos culturais, físicos e pessoais são necessários para qualquer construção (social ou não) na humanidade; decerto alguns fatores não são absolutos para certas características humanas. Características urbanas não são criadas apenas por conta de desertos rodeando áreas fluviais, uma vez que assentamentos e cidades foram construídos, até mesmo, em selvas densas, ambientes frios ou montanhosos; decerto, no caso das características sedentárias humanas, não é apenas o fator geográfico o determinante em todos os coletivos humanos, porém, ele pode ser uma das constantes determinantes.
A humanidade é por demasiado diversa, e tal diversidade, natural do homem, permite que suas composições sociais[13] se expressem de maneira singular, porém, em muitos casos, igual em certos aspectos – tanto a diversidade quanto a igualdade cultural só são possíveis graças aos elementos-chave presentes nos ambientes, sociedades e na natureza humana, mas a natureza do Homem, que em uma primeira vista, parece paradoxal (uma vez que nela se incluem a igualdade e a diversidade entre as culturas e os indivíduos), se mantém agarrada em Constantes que proporcionam, ao mesmo tempo, a possibilidade das diferenças e igualdades. Humanos têm potências diversas, porém todos detém a característica de possuírem potências. Os ilhéus de Pascoa puderam variar em suas tecnologias para a construção e transportes de grandes massas de pedra, por exemplo; contudo, mesmo tendo a natureza humana, o que dá a potência de construírem diversos avanços em suas sociedades, a falta de certas constantes culturais impede, em certos sentidos, de irem para várias áreas de progresso diferentes. O motivo é simples: potência não é ato.
São necessárias, pela própria natureza humana, mais pré-condições para se formularem certas culturas. Embora a filosofia, ou a engenharia, sejam possíveis para o intelecto humano, apenas em certas condições específicas tais ciências poderiam ser elaboradas. Sem os elementos-chave não há como se criar progresso[14] ou sequer mudanças dentro da sociedade.
Mas o progresso existe? Uma vez que as mudanças sociais sejam evidentes e incontestáveis, ultimamente, principalmente pelo viés esquerdista[15] tem-se contestado bastante o conceito de progresso, e se o progresso realmente existe. A contradição de qualquer sujeito que tenha um viés marxista e, ao mesmo tempo, seja cético ou descrente para a possibilidade de progressos culturais é no mínimo titânica. Marx acreditava que a luta de classes era o Motor da História, e com o passar dos anos a pretensa luta entre as classes criaria uma utopia global. Acreditar, de alguma forma, em um “futuro melhor” é crer em progresso, em melhorias e ter, como consequência, a ideia de bem e mal dentro de um contexto social – no caso mais atrelado ao marxismo, o contexto social deixa de ser determinado, isto é, atrelado a particulares culturais e se torna universal.
Indo para além da questão marxista, mesmo aqueles que não creditam nada no reducionismo[16] marxista apresentam uma incoerência enorme em suas próprias ideias. A falta de lucidez em teses acadêmicas (principalmente nas áreas da sociologia e antropologia) muitas vezes extrapola a incoerência do marxismo cultural. Não são poucos os antropólogos que desdenham da análise marxista, mas em prol de seus estudos, abominam toda e qualquer ideia de progresso e melhoria cultural. Para os mais radicais só existe o diferente e aquilo que, por necessidade ou função social, é criado.
Se uma aldeia indígena detém canoas para o transporte fluvial, mas uma cidade contemporânea possui os mais seguros, rápidos e equipados barcos, não existe cabimento para taxar a cultura da aldeia de primitiva, pois para a sociedade indígena em questão a necessidade de um barco maior, mais rápido e mais capacitado em armazenamento não existe. Antropólogos analisam sociedades de acordo com o contexto interno de cada uma.
Por mais que seja muito mais proveitoso, racional e pertinente estudar uma cultura sem uma comparação necessária com civilizações distantes e muito diferentes, tal fato não necessariamente limita todas as análises proveitosas a essa regra. De fato, se tal regra se aplica arbitrária e universalmente, é porque vai além do prisma da própria tribo e se aplica a toda e qualquer cultura, mas tal análise impede o ato essencial para qualquer estudo sério: a comparação. Limitar totalmente uma comparação de diferenças culturais e relativizar apenas para a cultura escolhida, desprezando todos os outros prismas possíveis, é limitar um lúcido e benéfico entendimento de culturas, mas também do próprio homem. As consequências lógicas do relativismo cultural exacerbado são delirantes.
(CONTINUA…)
[1] O motivo exato (ou os motivos) para a parada total da construção dos Moais é desconhecido.
[2] Caprinos, ovinos, bovinos e suínos possuem um lugar especial na domesticação de animais. O gado de corte pode ser um bem muito mais útil em um local onde sua existência natural era facilitada pela abundância, como era no Crescente Fértil, possibilitando o crescimento econômico que, a grosso modo, tirou os homens do local do neolítico para a “Idade do Cobre” – vale lembrar que apenas sociedades com um determinado grau de dinamismo econômico e social conseguiram desenvolver a metalurgia para tal.
[3] Para ser mais exato com Aristóteles, as “Verdades Primeiras”.
[4] Se existir um belo crivo para determinar o que é filosofia e o que é religião, as diferenças são notáveis. A filosofia não nasceu com o mesmo “propósito” da religião, mas ambas conseguem abarcar a cosmovisão de uma cultura, pois afetam o imaginário humano em quase todos os aspectos; religião não pode ser encarada como filosofia por conta da falta do fator problemático e da observação do mundo, buscando nexos causais ou estruturais para além de uma tradição mitológica existente. Mesmo que o religioso e o filosófico se intercalem, dialoguem e até mesmo se confundam (vale lembrar as seitas pitagóricas, da influencia do orfismo, e do caráter místico dos próprios milesianos), não são da mesma faculdade.
[5] Em todo o paganismo, até mesmo além da Grécia, um deus era bem próximo de um humano. Deuses se apaixonavam, odiavam, sentiam dor e poderiam até mesmo ser aprisionados, por exemplo; comportavam-se como uma espécie de “super-homens”.
[6] Veyne, Paul. O Império Romano, (in) Ariès, Philippe; Duby, Georges (orgs). A História da Vida Privada. Veyne, Paul (org). Do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 189. – Apesar de Veyne estar falando do paganismo greco-romano, tal afirmação é válida para todo o paganismo, onde os deuses não possuem o caráter absoluto do Deus de Abraão. Vale a pena citar o trecho: “(…) só existe o nome em comum entre o que o paganismo entendia por ‘deus’ e o que entendem os judeus, os cristãos e os muçulmanos. O deus dessas três religiões do Livro é um ser gigantesco infinitamente superior ao mundo – o qual, aliás, ele criou –; não existe senão como ator de um drama cósmico em que a humanidade põe em jogo sua salvação. Os deuses do paganismo vivem sua vida, e sua existência não se reduz a um papel metafísico, pois fazem parte do mundo”.
[7] “Alegra-te, tu que sofreste a paixão: antes não havias ainda sofrido isto. De homem te tornaste deus”. Lâmina órfica encontrada em Turi, 4.
[8] Aquiles luta contra um deus- rio, Escamandro, na Ilíada. Vale lembrar que Homero, como um Aedo, extrai uma grande parte da tradição oral grega para suas composições; os mitos gregos transparecem como a mentalidade religiosa se comportava na Grécia. Mesmo os sonhos, materiais como a lança, eventos com a guerra, etc. detinham uma espécie de deificação para o grego arcaico, como é mostrado na monumental Ilíada.
[9] “Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Deus dos deuses, porque sua misericórdia é eterna.
Louvai o Senhor dos senhores, porque sua misericórdia é eterna.
Só ele operou maravilhosos prodígios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele criou os céus com sabedoria, porque sua misericórdia é eterna.
Ele estendeu a terra sobre as águas, porque sua misericórdia é eterna.
Ele fez os grandes luminares, porque sua misericórdia é eterna.
O sol que domina os dias, porque sua misericórdia é eterna.
A lua e as estrelas para presidirem a noite, porque sua misericórdia é eterna.
Ele feriu os primogênitos dos egípcios, porque sua misericórdia é eterna.
Ele tirou Israel do meio deles, porque sua misericórdia é eterna.
Graças à força de sua mão e ao vigor de seu braço, porque sua misericórdia é eterna”.
Salmo 135, 1-12.
[10] Mileto era uma Polis independente e voltada para transações marítimas, sem pressão ou fiscalização política de um grande governo, o que ajudava no comércio.
[11] Isto é: tendo uma dependência inicial no pensamento milesiano.
[12] Uma vez que nenhum povo e, da mesma forma, nenhum indivíduo é igual ao outro.
[13] O que inclui, inexoravelmente, os fatores-chave para as mudanças sociais.
[14] A mesma lógica que sustenta que, para o aprendizado da linguagem culta, por exemplo, é necessário aprender as simples técnicas de “escrita infantil”.
[15] Muito aproveitado pelo marxismo cultural.
[16] Embora a obra de Marx seja grande, em termos de abrangência, não é possível enquadrá-la em um estilo de pesquisa e estudo pluralista. Os mais fiéis ao velho sofista alemão sempre tendem a reduzir as análises sociais no âmbito econômico, analisando os meios de produção e de distribuição. O poder e os arranjos sociais, para marxistas devotados ao seu guru germânico, são consequências totais e diretas da repartição produtiva.

