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    Outros autoresResenhas

    Entendendo a censura em 451 fahrenheits – Parte I

    Escrito por Hiago Rebello

    Embora não tão famoso quando 1984, de Orwell, ou o Admirável Novo Mundo, de Huxley, Fahrenheit 451 possui um trato e uma temática que os dois títulos citados acima não possuem: a obra de Ray Bradbury (1920-2012) trata da mais bruta, extrema e insensata censura. E não é uma censura imposta por regimes totalitários, por sistemas tecnocráticos e cientificistas controladores, governos que, como ditaduras, precisam dilacerar toda e qualquer manifestação intelectual que demonstre desconforto ou uma crítica séria e concreta contra e para todo o sistema tirânico.

    Não pensemos que a base para esta distopia futurista se encontra na Alemanha Nazista, na União Soviética, ou em algum outro regime opressor do século passado. O romance distópico de Bradbury, na realidade, se passa na mais comum e forte democracia, em um sistema republicano e com eleições para presidente, com tribunais, senado, poderes executivos… As pessoas sabem quem é o presidente, sabem que, passado seu mandato, virá outro presidente e que, se a normalidade continuar, esse esquema permanecerá por muito tempo.

    Bradbury

    Bradbury

    Não há um golpe de Estado nos Estados Unidos futurista de Fahrenheit 451, ou um grupo parasitário que, pela cultura politicamente correta disseminada por toda classe da mídia, política e na maioria do empresariado, termina por engrossar o Estado em níveis totalitários, caso algum indivíduo decida pôr em questão toda a cultura progressista de seu meio, como ocorre na Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

    Bradbury escreve, antes de tudo, sobre um mundo (ou o cenário dos Estados Unidos) onde o prazer dominou tudo e todos, onde qualquer coisa que aviltasse esse prazer, esse conforto total, entendido como inalienável, indispensável e um direito magno para todos os cidadãos, agrediria todo o cenário cultural de uma nação.
    O direito de “se sentir bem”, sem nenhum tipo de contravenção, foi cada vez mais tendo foco no mundo de Bradbury. Dentro dessa insistência para o prazer, o puro hedonismo, a representatividade, a necessidade de se ver representado apareceu de alguma forma nas obras em geral – já que a felicidade seria para todos, e ser representado ajudaria a alcançar esse prazer, esta necessidade inalienável de ter o gozo de se ver, de algum jeito, em alguma produção cultural.

    Então os Homens começaram a boicotar, por conta própria, tudo o que gerava algum tipo de intriga. Filosofia? Direito? Não. Apenas o básico, o prático, o técnico. Nada de alimentar, ou se aprofundar, em discussões que remontam há séculos, ou mesmo milênios de idade e que, sempre, nunca dão em lugar algum. Romances, novelas, ficções, peças… tudo isso, enfim, se trata de situações que sequer existem (!), não tendo nenhum pé no “mundo real”. Otelo, Iago (Shakespeare); Jasão, Medeia (Eurípedes); o coração delator e o homem delatado (Poe); D’Artagnan, Richelieu (Dumas)… nenhum existiu realmente, ou se existiram, foram romantizados, isto é, falseados por um escritor louco.

    Loucura, aliás, como “a sociedade” presente na trama sempre enfatiza, é algo característico de quem se aprofunda, ou simplesmente lê livros. A escrita e a leitura não são abolidas, mas sempre presentes em folhetos, revistas simples e de poucas páginas, manuais, etc. O dito prazer foi condensado em meios audiovisuais: paredes transmitiam programas e a interação entre pessoas, podendo até reunir famílias inteiras, mas sempre focadas em programas com intuito hedonista, nunca indo além, com alguma mensagem por trás dos assuntos, uma reflexão superior.
    Mas como tudo isso se iniciou, dentro da distopia de Bradbury?

    “Agora tomemos as minorias de nossa civilização, certo? Quanto maior a população, mais minorias. Não pise no pé dos amigos dos cães, dos amigos dos gatos, dos médicos, advogados, comerciantes, patrões, mórmons, batistas, unitaristas, chineses de segunda geração, suecos, italianos, alemães, texanos, gente do Brooklyn, irlandeses, imigrantes do Oregon ou do México. Os personagens desse livro, dessa peça, desse seriado de tevê não pretendem representar pintores, cartógrafos, engenheiros reais. Lembre-se, Montang, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos.

    Autores cheios de maus pensamentos, tranquem suas máquinas de escrever! Eles o fizeram. As revistas se tornaram uma mistura insossa. Os livros, assim diziam os malditos críticos esnobes, eram água de louça suja. Não admira que parassem de ser vendidos, disseram os críticos. Mas o público, sabendo o que queria, com a cabeça no ar, deixou que as histórias em quadrinhos sobrevivessem. E as revistas de sexo em 3-D, é claro. Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profissionais”.

    (…)

    “Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta e agitada que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas. Pergunte a si mesmo: O que queremos neste país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que você ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que diz todo mundo. Bem, elas não o são? Não cuidamos para que sempre estejam em movimento, sempre se divertindo? É para isso que vivemos, não acha? Para o prazer, a excitação? E você tem de admitir que nossa cultura fornece as duas coisas em profusão”.

    (...)

    “Os negros não gostam de Little Black Sambo. Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda, para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morre, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memorian para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo”.

    É neste mundo, e por esses motivos, que o livro se passa. A falta de interesse se mistura à indignação de ser contrário, ao argumento de que, contradita a felicidade, tudo se desaba, desrespeitam-se direitos. Se uma minoria não se sentir representada, ou mesmo se sentir injuriada? Queime os livros que a agridem! Dane-se a matéria da argumentação, o conteúdo em questão ou mesmo a veracidade da crítica. E daí, se são reais?

    Nessa censura pelo hedonismo, nessa infantilidade cultural e militante que se passa a trama centrada na vida de Guy Montag, um bombeiro. Mas, na trama, casas já não pegam fogo – uma película de plástico à prova de fogo protege todas as casas antigas e as novas são feitas com o mesmo material nos tetos, chãos e paredes –, porém, livros pegam fogo.

    Se livros são uma das matrizes da discórdia, da luta contra a felicidade, eles devem ser obras de desordeiros, de pessoas que não batem bem da cabeça; pois livros criam uma miríade de contradições, atritos e desentendimentos em nossa visão de mundo, no nosso modo de encarar a realidade e de pensar. Livros, então, devem ser queimados por levarem essas tensões para os indivíduos e, portanto, para a sociedade – e os bombeiros sabem lidar com fogo, mesmo não apagando mais incêndios… bombeiros, agora, criam incêndios. São os censores-mor da sociedade.

    Montag trabalha atendendo alarmes que denunciam a presença de livros e bibliotecas inteiras em sua cidade. Ele e seus colegas vivem de ir atrás de possíveis contravenções sociais, queimando o material impresso e providenciando que os leitores sejam levados até um manicômio.

    Mas algo muda em Montag: ele conhece uma garota, uma adolescente que, diariamente, faz perguntas desconcertantes sobre a vida, sobre o valor de aproveitar as pequenas coisas, os breves momentos, o mundo que o cerca. Não é sobre filosofia, crítica social, alta literatura que a jovem que o toma como amigo trata, mas apenas de uma abertura para inibir o mundo da felicidade, uma fresta para, afinal, conversar concretamente com alguém.
    Esse primeiro “despertar” cria um efeito dominó na vida do protagonista. Seu trabalho, seu casamento, seu relacionamento com a vizinhança e com todos ao seu redor muda. Sua mente e seu espírito são banhados em uma profusão de percepções. Montag percebe o vazio, a falta de significado em toda essa felicidade.

    (conclui na segunda parte)

    Entendendo a censura em 451 fahrenheits – Parte I was last modified: novembro 13th, 2017 by Hiago Rebello
    junho 16, 2017 0 comentários
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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza Corrêa é jornalista formado pela UFRJ, gestor de mídias sociais, assessor de imprensa, carioca, insulano e tricolor (no futebol e no samba). Escreveu por breve tempo sobre as escolas de samba do Rio para uma revista de entretenimento, e depois se voltou para a política em seu trabalho pelo Instituto Liberal. Neste último campo, gosta de dizer – e cada um que julgue com que propriedade – que se inspira no velho Whiggismo burkeano, devidamente pintado, porém, com as cores e a realidade do Brasil. É um “lacerdista tardio” e, como tal, não pretende, nem pode, desistir do Brasil. Saiba mais

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