Devido às recentes polêmicas sobre a “nova direita” e a “velha direita”, vi a necessidade de explicar certas coisas que, para qualquer um que estudou e meditou um pouco em cima da “História da direita” (se é que se pode colocar nestes termos), são essenciais para entender a querela.
A crença em uma ala direitista mais liberal e a outra mais conservadora; uma errada, fora da realidade cultural brasileira, em idolatria para com estrangeirismos de origem anglo-saxônica, já a outra de raiz pura, brasileira, bebendo de fontes ibéricas, católicas – claro, bem reacionária, com olhos em foco para o nacional, namorando ou já se intitulando nacionalista… é totalmente inútil, ao menos da maneira por que está sendo apresentada.
Existe, sim, um terreno fértil para um embate entre liberalismo econômico e um conservadorismo de ordem política, cultural e, também, espiritual. Basta vermos o contraste entre certos autores de cada lado: Roger Scruton, até algumas décadas atrás, se colocava contra a sociedade de economia de mercado liberal – hoje ele já não pensa mais assim –, por conta da influência negativa que um consumismo (que, irremediavelmente, tenderá para um materialismo) causava na sociedade; Richard M. Weaver em seu livro As ideias têm suas consequências, simplesmente culpa o crescimento da classe média, causa da grande produção capitalista industrial, pela degeneração do Ocidente – o consumo, filho do livre mercado, claro, é o vilão –; já Ayn Rand, em sua trilogia A Revolta de Atlas, põe todo seu objetivismo contra a tradição e o cerne do cristianismo, colocando parte da culpa de se inibirem grandes talentos (os Atlas que seguram o mundo) na moral e na caridade cristãs – o discurso de John Galt, no final do terceiro livro, evidencia isso muito bem –, assentando, assim, a cultura cristã e sua espiritualidade como uma das causas de uma mentalidade parasita no mundo, em oposição às mentes de talento inovador e criador; por último, Jean-François Revel, este que foi um dos primeiros a denunciarem as estratégias da New Left, basicamente criticava a esquerda por surrupiar algo que, pelo seu entendimento, iria ocorrer naturalmente com o mundo por conta das influências do liberalismo no passar dos tempos.
O que Weaver, o antigo Scruton, Rand e Revel têm em comum é a mútua negação de influências que cada lado exerceu em relação ao outro. Para um lado, a degeneração veio como fruto de um liberalismo criador de uma cultura consumista e assassina da espiritualidade, da nacionalidade; para o outro, o liberalismo é uma resposta para uma espécie de opressão que a religião e a antiga cultura moral exerciam (por meio do Estado, às vezes) contra o indivíduo.
A respeito de liberais ao estilo de Rand e de Revel, existe um resumo que abarca, e de maneira significativa, a realidade desses tipos: “Se você é um conservador, você acha que um cidadão não tem o direito de contratar outro para matá-lo (muito menos para matar um terceiro), porque a vida é um dom sagrado que não pode ser negociado. Mas, para o liberal, nada existe de mais sagrado que o direito de comprar e vender – a própria vida inclusive: se você acha que sua vida está um saco e quer contratar um profissional para dar cabo dela, nem o Estado nem a Igreja têm o direito de dar nisso o menor palpite” . São, sim, liberais que querem solapar todo um mundo factual em nome de algo que, na melhor das hipóteses, só ocorre nas mentes em nichos minoritários dentro do liberalismo. Olavo de Carvalho não se reconhece como um liberal, ao menos um liberal “puro”, um que deixa tudo de lado em virtude de um pensamento metonímico, crendo que a totalidade das ações e mentalidades humanas funciona como uma economia de livre-mercado.
Do lado dos conservadores, Richard Weaver nega todo o progresso efetivo, todas as melhorias conquistadas, por uma economia de livre-mercado que expande o consumo, para criar uma imagem idílica de um mundo mais cristão, de uma terra cheia de camponeses e nobres, onde a classe média não exercia tanto poder influenciador (já que esta detém a autoridade de ser a que mais consome e, portanto, guina as modas existentes), onde até mesmo as noções de estética foram pervertidas.
O problema estrutural e essencial dos autores citados acima (à exceção do Olavo) é que eles simplesmente negam o próprio passado, ou seja, cospem nos pratos em que comeram. John Locke e Adam Smith eram dois cristãos liberais, que usam de seu cristianismo para defender a propriedade privada e o Livre-Mercado. Todo o liberalismo de Smith pode ser considerado uma defesa moral em nome do povo (basta ler a “Mão Invisível” para constatar que Smith tem em muita consideração os povos e nações, e não apenas o indivíduo); o trabalho filosófico e político de Locke, no que tange aos princípios que darão sentido à existência da propriedade privada, dependem de uma concepção de alma humana e de Deus – e, claro, o Deus de Abraão, logo, de Jesus Cristo.
O cristianismo não participou da inibição dos Atlas do mundo, ele os criou (!). Foi apenas com noções, trabalhadas no cristianismo, de justiça, indivíduo, pecado, que a argamassa para a construção de um liberalismo econômico foi feita. O que Rand e Revel fizeram foi colocar a carroça na frente dos cavalos, achando que aquilo que justifica o liberalismo é o que o impede de progredir. Elimine o cerne moral da economia, elimine os axiomas que determinam a natureza do comportamento humano, aplique isto em uma sociedade, e verá o liberalismo implodir.
Já Weaver, também, ignora a realidade, preferindo crer que uma moralidade camponesa é infinitamente superior à da classe média contemporânea, que uma economia feudal é mais valorosa que a atual. Talvez Weaver estivesse certo sobre a moralidade, mas basta perguntar uma coisa: como, atualmente, seria moralmente possível reverter o quadro? Como, com um mundo de bilhões de pessoas, poder-se-ia mudar a economia que é a única que consegue alimentar tanta gente? Voltar a paradigmas medievais para tolher uma suposta classe média corrupta, causadora dos males contemporâneos, é a mesma coisa que impedir essas mesmas pessoas de comer, uma vez que apenas no modelo industrial, numa economia seguidora de algo do livre mercado, tal produção de alimentos em larga escala é possível.
No fundo, tudo isso não passa de uma negação de conquistas do passado, de uma negação do conservadorismo. Reacionários conservadores, na realidade, não têm a capacidade para saber o que conservar, sequer possuem um adequado senso de realidade, preferindo colocar no paraíso a nobreza, o campesinato e as guildas e associações de comércio da Idade Moderna e do medievo; liberais “puros”, com ranço do passado e de uma moral cristã, sabem da realidade tanto quanto reacionários, mas em vez de idealizar o passado, ficam depositando em lógicas econômicas e de valor tudo o que engloba o Homem…
No fundo, todo liberal que nega totalmente o conservadorismo é meio canalha, e todo conservador que nega na totalidade o liberalismo é meio louco.
Weaver se esquece de que o grande pilar do seu pensamento, Edmund Burke, era justamente quem mais se assemelhava a Adam Smith, o sujeito que impulsionou o liberalismo econômico pelo mundo; Roger Scruton, diferente de Weaver, percebeu o erro de não assimilar as verdades e os aproveitamentos encontrados em uma economia de livre-mercado e as mudanças sociais e culturais fornecidas pelo liberalismo. Em vez de continuar a reagir contra o liberalismo, Scruton o assimilou, não o negando, mas o fortalecendo com uma perspectiva conservadora.
Embora Weaver não seja um bom paradigma para o Brasil, já que ele não enxerga a tradição anglo-saxônica como um corpo alienígena em seu meio (uma vez que era americano), ele pode servir de referência para um reacionarismo irracional que começa a ganhar alguma penetração no nosso país.
Essa polêmica de “velha” vs. “nova” direita também abarcou tais reacionários, crentes em uma responsabilidade do liberalismo pela degeneração do Brasil. Não me cabe negar certas críticas, já que o liberalismo não é perfeito. Como tudo, o pensamento e as ações liberais podem ter consequências negativas e positivas. E nenhum liberal que se preze, nenhum que dê ouvidos à razão, colocará o liberalismo como “fim último” para a justiça e a felicidade humana – se assim o faz, se encaixa nesses liberais “puros”, criticados por Olavo de Carvalho, estes que, no fim, implodirão o que defendem.
Mas o cerne da crítica desses reacionários nacionalistas (católicos, em sua maior parte) é que o liberalismo britânico de raiz protestante é um estrangeirismo corrosivo para o povo brasileiro, para a política e a cultura nacionais. O correto seria voltar e ter os paradigmas com as origens católicas e ibéricas da nação. Esse princípio de crítica, essa estrutura e essência argumentativa, estão errados.
Pensemos o seguinte: e se os medievais fizessem a mesma coisa? Imaginem se um Sto. Anselmo, Duns Scot, Sto. Tomás de Aquino, Pedro Abelardo, Roberto Grosseteste, Jean Gerson, etc., condenassem a filosofia pagã por ser alienígena ao cristianismo? Por gerar uma espiritualidade e uma fé opostas ao catolicismo? Pensem: e se Cícero fosse menosprezado e rejeitado por crer que as almas humanas ficariam purgando os pecados, girando na órbita do planeta, como relatou na obra O Sonho de Cipião? E as Formas de Platão, defendidas em vários de seus Diálogos? As Formas falam de uma transcendência que não é a cristã, isso para não falar da noção de um Demiurgo; e quanto a Aristóteles? Em sua Metafísica o estagirita defende nada mais, nada menos, que sua Filosofia Primeira é uma teologia – e, sabemos, é uma teologia pagã.
Mas os medievais não fizeram assim. Caso argumentassem que tais filosofias “não estão nas raízes cristãs”, por serem estranhas e incompatíveis com a fé e a doutrina, não teriam cristianizado a religiosidade pagã presente na Filosofia Antiga.
De fato, sequer os filósofos e teólogos cristãos da Antiguidade, em sua maioria, se atreveram a dispensar a filosofia, mesmo esta sendo eminentemente pagã, em sua época. São Justino Filósofo e Mártir, por exemplo, é o primeiro filósofo do cristianismo. Se a filosofia pagã já não era estranha aos medievais, para os cristãos dos primeiros séculos era estranhíssima – ao ponto de homens como Tertuliano de Cartago a rejeitarem por completo. Os cristãos não negam “estrangeirismos”, mas os incorporam, os importam, os modificam para serem mais bem aproveitados.
Posso dizer que existe alguma verdade e alguma contribuição na crítica ao individualismo exacerbado e na demonstração de seu parentesco próximo ao protestantismo, em suas carências, defeitos, males e perigos para a sociedade e o indivíduo, incluso no liberalismo; no entanto há de se notar: mesmo dentro do protestantismo, após o século XVI, os autores anglo-saxônicos estão infinitamente mais próximos dos católicos brasileiros do que toda a tradição pagã greco-romana, e a começar pelo fato de serem, em sua esmagadora maioria, autores cristãos. Edmund Burke, por exemplo, possui uma influência do catolicismo em suas obras . Negar a alta proximidade de protestantes britânicos para com católicos brasileiros é o mesmo de afirmar que uma filosofia que prega a impossibilidade de Deus amar os Homens (e me refiro a Aristóteles), ou que um Demiurgo moldou o universo (me refiro a Platão), não existindo uma Criação, como diz o Texto Sagrado da Bíblia, são bem mais próximos ao catolicismo do que o protestantismo (!) – e eu não preciso dizer o quão ridícula é essa afirmação, ou preciso?
Além de tudo isso, tomar toda a tradição britânica como egocêntrica é um absurdo. Longe de se separar de seu passado, a tradição britânica procura voltar às origens; busca, por meio do olhar no passado, se conservar e se aprimorar. Vejamos um exemplo:
“Todos os mercadores terão liberdade e segurança para sair, entrar, permanecer e viajar através da Inglaterra, tanto por terra como por mar, para comprar e vender, livres de todos os direitos de pedágio iníquos, segundo as antigas e justas taxas, excepto em tempo de guerra, caso sejam do país que está lutando contra nós. E se tais forem encontrados no nosso país no início da guerra serão capturados sem prejuízo dos seus corpos e mercadorias, até que seja sabido por nós, ou pelo nosso chefe de justiça, como os mercadores do nosso país são tratados, se foram encontrados no país em guerra contra nós; e se os nossos estiverem a salvo lá, estes estarão a salvo no nosso país”.
“E mais, todos os referidos costumes e liberdades que concedemos para serem observados no nosso reino, na medida em que nos concerne em relação aos nossos homens, clérigos ou leigos, estes deverão observar em relação aos seus próprios homens” .
O que leram acima são dois trechos da Magna Carta, de 1215! Um documento feito por membros da nobreza e do clero da Inglaterra medieval, o documento que é a nascente do liberalismo político.
Todas as tradições inglesas voltam à Magna Carta. Em seus momentos mais terríveis, tal documento foi usado para dar legitimidade às mudanças necessárias na Inglaterra, como na Guerra Civil Inglesa, ou na Restauração da monarquia. Ferir a tradição iniciada pela Magna Carta era dar razão para a rebeldia, para a contestação da autoridade do rei. Nesse clima de desordem, nessa vontade de se preservar as tradições, é onde se deram os passos para a democracia e o liberalismo durante o século XVII , passos esses que caminharão para as conquistas políticas e democráticas dos séculos XIX e XX em todo o globo.
É claro que a tradição britânica terá suas falhas, seus autores ruins e seus erros. O mesmo Reino Unido de Burke é o de Mill, o do mecanicismo, do cientificismo; a mesma Inglaterra que usou a Magna Carta para criticar o autoritarismo do rei é a mesma que perseguia calvinistas e católicos… mas, como os medievais, como os católicos da Antiguidade, devemos saber separar o joio do trigo – algo que, justamente, o pensamento britânico conservador, por conta de sua raiz burkeana, nos ensina a fazer –; e a tradição política brasileira, longe de só ter raízes ibéricas, bebe muito da tradição britânica. Pergunto-me se esses sujeitos que bradam contra o liberalismo anglo-saxão já leram um Joaquim Nabuco, um José Bonifácio… ou alguma das Memórias escritas para conselhos políticos nos tempos do reinado de Dom João VI!
Desde o tempo em que esse país era dividido em várias colônias, a tradição britânica influencia a política e a cultura do Brasil. Se isso não é uma raiz brasileira, e uma do século XVIII (!), então é porque raízes não existem.
E o que seria do liberalismo sem essas raízes medievais e católicas? Ele não seria. O que seria do cristianismo sem essas filosofias pagãs e estranhas a ele? Ele não teria sua filosofia, sua teologia seria pobre, sua intelectualidade inexistente…
Quanto aos males que vieram com o liberalismo? Quanto à acusação de que vieram de liberais, e não apenas de marxistas culturais, o crescimento da libertinagem, do laicismo e da degeneração do Ocidente? Não discordarei, contudo o mesmo pode ser dito da intelectualidade da minha Igreja, durante o medievo: não veio dos mosteiros e das universidades o nominalismo? Não foi da intelectualidade católica que nomes como Guilherme de Occam surgiram? Não foi, também, pelo modelo incentivado e criado pela Igreja, que o nominalismo cresceu e, hoje, quase a tudo abarca, e de modo pouco perceptível? Se não fosse a tradição liberal, essa degeneração poderia até não existir ou ser menor, porém se não fosse pela tradição teológica católica, pela mesma lógica, o nominalismo estaria até hoje enterrado juntamente com Zenão de Cítio!
Entendem como esse reacionarismo é manco, falho? Pela mesma lógica, poderíamos condenar a Igreja, assim como condenam o liberalismo. Veem como esse liberalismo despojado de tradições morais, de valores perenes e de um cerne teológico e filosófico é incoerente, precário?
Esses conservadores reacionários e liberais “puros” têm muito mais em comum do que podem pensar.

