Amigos e amigas, se ainda nos vemos obrigados a tolerar agonias e vergonhas acachapantes impostas por um regime de tiranos bufões decaídos, se a cada hora nos acometem novas emoções e novas surpresas, uma certeza nos orgulha: vivemos dias históricos, que figurarão nos livros didáticos do futuro como momentos em que significativa parcela da população brasileira ouviu a voz da razão e decidiu assumir as rédeas de sua História.
Anunciado como sendo o futuro ministro da Casa Civil, em cuspe na dignidade pátria, Lula seria hoje nomeado; a cerimônia foi marcada por ataques ao Poder Judiciário e beligerância irresponsável, sinais que se somam na comprovação do desespero dos populistas. O juiz Itagiba Catta Preta Neto, do Distrito Federal, suspendeu por liminar a nomeação, contra o que o governo recorrerá. Essa peça de tragicomédia se reduz, porém, a um detalhe, perto do que ocorreu ontem. Quando pensávamos que a troça com o povo seria a única manchete nos noticiários, ao começo da noite, milhares de pessoas começaram a sair às ruas espontaneamente, em manifestações que surpreendem pelo volume que adquiriram sem qualquer planejamento prévio e convocação com antecedência. Em torno de cinco mil pessoas estiveram em frente ao Planalto exigindo a renúncia de Dilma, e outras praças, como a sempre cheia Avenida Paulista, tiveram manifestos. Alguns confrontos ocorreram, especialmente em frente à casa do ex-presidente Lula. Hoje, desde a manhã, novas manifestações espontâneas estão ocorrendo. As pessoas estão revoltadas e decidiram usar todas as armas que têm para pressionar o governo a adotar a única saída razoável: sumir de cena.
Tudo foi incrementado graças a uma atitude imponderável: o juiz Sérgio Moro liberou áudios grampeados de diálogos entre figuras de destaque na República. As figuras mais implicadas foram, efetivamente, Lula e Dilma; especialmente o primeiro demonstrou, antes de qualquer coisa, sua baixeza de alma, seu palavrório grotesco, com um palavrão quase a cada sentença. Palavras de baixo calão, aliás, com que ele se dirigiu a praticamente todos os poderes e competências constitucionais. Ofendeu o procurador-geral da República Rodrigo Janot, o presidente da Câmara, o STF, os parlamentares e o presidente do Senado – o mesmo Renan Calheiros que se esforça por facilitar as coisas para o governo, e, pelo visto, nem por isso conta com a condescendência do xingador ambulante. Tratou-os todos por acovardados e outros qualificativos que preferimos não reproduzir neste espaço. Grasnou, ainda, que os “coxinhas”, em frente à sua casa, levariam muita “porrada” caso teimassem em aparecer, exibindo todo o seu respeito pelas manifestações democráticas que coloriram as praças e praias do Brasil inteiro.
Pior do que mostrar sua completa inadequação para o exercício da liturgia de qualquer cargo público – muito embora essa inadequação pudesse ser estendida a boa parte dos nossos homens públicos -, pior do que ter mostrado no vídeo acidental de Jandira Feghali que desejava que os processos judiciais fossem introduzidos nos orifícios anais dos operadores da Justiça, foi deixar claro, nos diálogos, a intenção de, junto à presidente e, se possível, ao STF, através da ministra Rosa Weber, sufocar todas as perquirições que o atingem. Segundo o ministro Gilmar Mendes, uma avaliação criteriosa pode determinar que tal atitude de desprezo às instituições republicanas se enquadraria como crime de responsabilidade.
Tal como a delação de Delcídio do Amaral, porém, as gravações atingem outras figuras das diversas esferas de poder, desde Jacques Wagner, que chegou a ser cogitado como nome do PT à presidência, até o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, que se afirma um “soldado” de Lula e ironiza o que chama de “alma de pobre”, explicitando o quanto essas pessoas, quando não estão sendo observadas – ou acreditam não estar -, não conferem a mínima importância aos cidadãos de mais baixa renda, ao mesmo tempo em que se arvoram publicamente “paladinos da justiça social”.
Ficou claro – para quem estupidamente ainda duvidava – que o único propósito dessa nomeação de Lula é escapar da lei. No conjunto da obra, está substantivamente demonstrada a ação generalizada da quadrilha lulopetista no avanço às instituições. Com isso, perguntamo-nos: onde estão os isentos de plantão, que acusam aos quatro ventos os patriotas de indignação seletiva e nos cobram o tempo inteiro que vejamos em Eduardo Cunha, hoje réu, o maior problema do Brasil? Estão surdos ou simplesmente não quiseram ouvir as gravações que abalam a República? A eles, restou hoje a insatisfação com a lei, acusando injustamente o juiz Sérgio Moro e a equipe de trabalho da Operação Lava Jato pelo gigantesco problema de que eles são parte da solução, e não a causa. Restou acusá-los de fascismo; disse o próprio Lula, ao insultar todas as instituições nacionais por não estarem conseguindo proteger os bandidos desses “insolentes” trabalhadores da lei, que está “preocupado” com a “República de Curitiba”.
Se assim ele quer que seja, corroboramos; se 7 de setembro de 1822 foi o dia da nossa Independência, se 15 de novembro de 1889 foi o dia da Proclamação da República, ontem, 16 de março de 2016, foi proclamada a REPÚBLICA DE CURITIBA! Proclamada pelo povo nas ruas, pelos próprios parlamentares interrompendo uma sessão para gritar em uníssono pela renúncia de quem já não mais governa, e pelo gesto intrépido e legalmente respaldado, conforme magistrados de todo o país, do juiz Sérgio Moro, que interrompeu com bravura a celebração e a honraria dos canalhas.
O cenário hoje é muito simples: diante de uma tensão política sem precedentes, decerto mais grave que a própria movimentação pelo impeachment de Collor em 1992 – e de fato, diante do que ficou estabelecido ontem, talvez fosse razoável pedir desculpas a Collor e Richard Nixon por julgá-los severamente -, a Câmara, que começa hoje o processo de impeachment com a eleição da comissão especial, precisa se apressar. É urgente acelerar a derrubada do governo, antes que um caos social de consequências imprevisíveis se instale no país. Não podemos garantir que aguentaremos até mais do que este semestre – quiçá mais do que os próximos meses – a manutenção deste estado de coisas. A mudança tem de vir já.

