Créditos da imagem em destaque: Gente & Mercado
De mudança para esta casa nova, publicando nossos textos em um novo espaço, tivemos necessidade também de algumas semanas de ausência para efetuar a transição. Decidimos iniciar nossa nova viagem recuperando o tempo perdido. Ao longo das últimas semanas em que nossos dedos não produziram linhas, nem por isso os fatos cessaram. O ambiente político, cultural e social, tanto internacionalmente quanto em nossas plagas brasileiras, continuou profundamente frenético. Em uma série dividida em duas partes, reunimos alguns tópicos, entre inúmeros que poderiam ser desenvolvidos e mencionados, sintetizando temas que nos chamaram a atenção nesses últimos dias, na virada do fatídico 2015 para o não menos promissor 2016 – no sentido de prometer a geração de manchetes intrigantes; se boas ou ruins, isso nunca dependeu tanto de nós quanto agora.
O malabarismo de Dilma e a urgência do impeachment
Nossas pinceladas principiam com o assunto que mais nos preocupa, e certamente permeará nossas linhas por muito tempo: o impeachment. Com a vizinha Argentina tomando medidas em direção à prosperidade, a partir das reformas liberais ainda embrionárias do recém-eleito Maurício Macri, não há nada mais urgente do que retirar a mentecapta Dilma Rousseff do Palácio do Planalto. Entrementes, nossa presidente, exibindo seu cinismo, repetiu para todos os cidadãos brasileiros que são “golpistas” os anseios de quem vem tomando as ruas para pedir sua punição pelo crime de responsabilidade fiscal. Dilma acredita que as pessoas somente estão pedindo sua queda porque não “simpatizam” com ela. Não que tenhamos excepcional apreço pelas suas Excelentíssimas fuças, mas a presidente debocha de nosso bom senso ao aventar que ignoramos os princípios fundamentais de um Estado de Direito e queremos afastá-la de nossas vidas apenas por sua “carinha bonita” e seu comportamento autoritário e ranzinza.
O crime de Dilma é real e confesso; nas últimas semanas de 2015, ela se mobilizou para quitar as pedaladas fiscais com dinheiro da conta do Tesouro – manobra também bastante questionável. O governo pretendeu obscurecer um crime fazendo outro malabarismo e esbanjando uma fartura que só existe no reino da fantasia, onde dinheiro dá em capim! Se havia motivos para tamanho desespero, é impossível não concluir que havia um malfeito a ser ofuscado. O bandido tentava, então, varrer a sujeira para debaixo do tapete. Dilma, repetimos, é ré confessa – embora não dimensione a gravidade do seu desrespeito com o bem público.
Tampouco reconhece, como deveria, a enormidade do seu papel na fomentação da crise que o Brasil vive. Disse, já em 2016, que “o erro” – sim, ao menos ela admite ter havido um – “foi não ter visto que a crise era tão grande”. Em verdade, a crise é A SENHORA MESMA, presidente Dilma. A crise é o seu partido, é o seu governo, é a sua coalizão. A crise é a Nova Matriz Econômica. A crise é Guido Mantega. A crise é o Petrolão, o Mensalão, o “não-sei-mais-o-quê-ão”. A crise é a máfia sindical, é a destruição do sistema educacional, é a instrumentalização do ensino para formar militantes descerebrados que reproduzam mecanicamente as agendas do interesse do poder. É muito tarde para reconhecer erros, a não ser um: o de permanecer à frente do governo. Este, porém, ao que tudo indica, Dilma não admitirá.

Créditos: Jovem Pan/UOL
Com toda essa urgência, com toda a calamidade desenhada, com os rebaixamentos dos graus de investimento e com a agonia econômica pesando os bolsos das pessoas, o vice-presidente Michel Temer teria dito a aliados que o impeachment tende a não acontecer neste ano, segundo O Antagonista. Outros já alegariam que ele disse apenas que o processo perdeu força em razão do recesso parlamentar, mas poderia retomá-la a qualquer momento. Acredita que o movimento enfraqueceu. Ao mesmo tempo, a imprensa, dominada por interesses que rivalizam com as mais legítimas expectativas nacionais, espetacularizou a sua hipocrisia, na forma da foto emblemática de vários jornalistas de diferentes emissoras estampando sorrisos repulsivos em uma deliciosa selfie com a digníssima mulher sapiens.
Saímos do período de festas de fim de ano e de festas momescas. Seria mesmo hipocrisia de minha parte, que aprecio, penso que equilibradamente, os festejos, condenar os foliões, que aliviam suas tensões das agruras do dia-a-dia; mas a inércia e a passividade são indesculpáveis. Não vivemos tempos normais. Somos atraiçoados, furtados, assaltados à luz do dia cotidianamente, deixados para morrer em filas de hospitais; assistimos à nossa Constituição ser rasgada pelos eminentes representantes da nossa Justiça; ostentamos uma imensa vergonha perante o mundo, que não enxerga mais qualquer dignidade na condução da coisa pública no Brasil. Diante de tudo isso, há condições de não enxergar no impeachment a preocupação mais fundamental, a palavra que deve flutuar em nossas mentes todos os dias, o clamor mais desesperado que a pátria nos dirige nos dias que correm?
13 de março de 2016 precisa ser um evento colossal e histórico que determine os rumos do nosso país. Cessemos com “tretas” infantilóides e disputas baixas de egos e façamos o que é preciso. O Brasil decente é maior do que cizânias e personagens. E ele quer que o PT seja, o quanto antes, página virada. Não sabemos se aguentaremos até 2018. A hora é agora!
A destruição do futuro pela adulteração do passado
Atravessamos, todos sabemos, momentos tempestuosos. Entre todos os problemas que enfrentamos, alguns são, ou assim esperamos que sejam, episódicos, próprios dos nossos dias. Outros, ao contrário, apresentam um potencial devastador de determinar o futuro. Os inimigos da liberdade e da verdade que nos governam não se limitam a avançar contra as instituições e retardar nosso desenvolvimento econômico; em sua arte de distorcer os fatos, querem modificar a história nacional e, mais do que isso, a história HUMANA. Deformando o passado e erigindo-se em profetas e sábios detentores do legítimo conhecimento, eles moldam as consciências dos jovens e comprometem os dias que ainda virão.

Créditos: Rádio Pampeana
No fim do ano passado, por exemplo, a presidente Dilma inscreveu Leonel Brizola (1922-2004), o histórico petebista, agitador de esquerda, ex-governador do Rio e fundador do PDT, no Livro dos Heróis da Pátria. Como se sabe, Dilma não é uma petista de origem – embora a alma abjeta do partido lhe caia bem. Seu despertar político se deu nas hostes pedetistas. Dilma foi originalmente um filhote de Brizola e não de Lula, embora a “presidenta” Dilma, a personagem com a qual ela se consagrará na história, seja uma fraude, sincera apenas em sua franca incompetência, criada pelo ex-sindicalista. Assim, a despeito das brigas em períodos eleitorais, a despeito de Brizola já ter proferido declarações bastante ofensivas a Lula, Dilma decidiu homenageá-lo; talvez até tenha sido uma provocação, diante das rusgas que se têm verificado entre os dois petistas.
Pouco importa; o fato é que o esquerdista demagogo que deixou um legado nefasto para a segurança pública do nosso estado do Rio recebeu uma honra profundamente imerecida naquele 29 de dezembro de 2015. Não que o Livro dos Heróis da Pátria já não contenha as suas impropriedades; Zumbi dos Palmares está lá, e não reconheço nada de heroísmo nele. A inclusão de Brizola, no entanto, é um tributo a uma figura mais recente da história que, entre outras, galvanizou o imaginário da esquerda, em um cenário atual de polarização intensa da política e contestação legítima ao governo de Dilma. As esquerdas, propositadamente presas a um Brasil pré-64 que não mais existe, querem eternizar a imagem do ícone da Legalidade, do defensor do mandato de João Goulart, do corajoso líder progressista que desafiou a maldita Rede Globo. Nada a declarar, é claro, sobre os Grupos dos 11, sobre o rebelde avesso à civilidade democrática, sobre o mandatário que deu sua mãozinha ao tráfico carioca.
Brizola é uma figura pálida da história em que reconheço pouco mais do que o valor de sua capacidade retórica, de fazer corarem as lideranças socialistas, trabalhistas e sociais-democratas do Brasil de hoje. Meu herói de verdade, porém, foi um dos seus oponentes, o lendário líder da UDN; meu herói, ele sim, enfrentou um tirano que implantou uma ditadura e ficou 15 anos no poder, um maluco que queria governar se lixando para o Congresso, um populista frouxo e um batalhão de comunistas odientos: quem tem um Carlos Lacerda dispensa mil Brizolas. Não para os enviesados que tomam hoje as decisões, e que não estão à altura sequer do infame gaúcho, que dirá do glorioso governador da Guanabara.
Já em 7 de janeiro do ano corrente, indo além desse gesto relativamente simples, tivemos a notícia mais inquietante dos últimos tempos – sem exagero. Inscrever um nome imerecido em um documento que quase ninguém lê pode ser imoral, mas não tem potencial de provocar tanto estrago quanto o projeto de reforma curricular denunciado pelo historiador e membro da equipe de Veja, Marco Antônio Villa. Em artigo para O Globo, Villa afirmou que o projeto de uma Base Nacional Comum Curricular, proposto pelo governo, é, pelo menos no que diz respeito ao ensino de História – e que mais podemos encontrar nas outras disciplinas? – um “crime de lesa-pátria”.
Selecionando trechos que demonstram o foco do roteiro de estudos que se deseja implementar, Villa mostra que a Antiguidade e a Idade Média seriam suprimidas. Nós, que batemos o pé em defesa da necessidade de se conhecer o pensamento clássico, a formação da civilização ocidental, da qual – ainda! – fazemos parte, ficaremos a ver navios se quisermos que nossas crianças e jovens ouçam algo sobre a Grécia antiga, sobre o Império Romano, a formação do Cristianismo, até do Islã; perderá seu tempo quem aguardar as lições acerca do Renascimento, do Iluminismo. A Revolução Industrial e a Revolução Francesa? Detalhes desnecessários.
O que restou? O estudo dos “mundos ameríndio, africanos e afro-brasileiros”, os “movimentos sociais negros e quilombolas do Brasil contemporâneo” (?); os “mundos americanos“, com o estudo das tradições e cosmovisões inca, maia, tupi e jê (?) e o “imperialismo americano”, enfrentado pela notabilíssima Revolução Boliviana e pela santa e democrática (sic) Revolução Cubana. Ditadura, mesmo, apenas o Chile de Pinochet, pois, como bem lembra Villa, Fidel Castro, para esses idealizadores do Ministério da Verdade orwelliano, é um baluarte das liberdades individuais.
Não temos nada contra o conhecimento desses temas, mas é inegável que o projeto enaltece aspectos que têm pouca ligação com o que nos define diretamente hoje e ignora elementos basilares da epopeia humana, que nos tornaram o que nós somos. A intenção é óbvia: tal como seus parceiros continentais de inspiração bolivariana, os petistas, ainda que acuados pelas tormentas da Lava Jato, querem deixar sua concepção de mundo entranhada nas estruturas do Estado e do ensino, evocando os povos nativos do continente como ícones referenciais para uma nova proposta de civilização. Uma proposta que una esses símbolos telúricos, regionais, com os delírios antigos do socialismo, gestados na Europa, desenvolvidos a partir do apodrecimento das estruturas ocidentais que tenta ignorar. Esse Ocidente, que legou os alicerces do que somos, que nos deu a crítica filosófica e a autonomia individual, que nos permitiu abrilhantar as liberdades públicas, esse Ocidente a que devemos o nosso patrimônio, é um incômodo arcaico. Tal como queremos nos livrar dessa perturbadora “democracia burguesa”, mandemos logo o pacote completo às favas!
Não temos o direito de permitir que destrocem a nossa cultura, a nossa tradição, a nossa história e a nossa identidade em favor de uma narrativa partidária mambembe. Não se trata de lutar contra um partido ou uma presidente; trata-se de lutar contra a destruição do futuro.
(conclui na próxima parte)

