Repetindo o de praxe: quando é para bater, vamosbater. Quando é para elogiar, vamos elogiar.
José Serra sempre foi um homem da esquerda, e foi um dos fundadores do PSDB, tucano de raiz. Não é preciso dizer que estamos em campos distintos e temos muito mais motivos, do ponto de vista geral, para afastamento em relação a ele que para elogios. Inclusive, ele usou seu tempo de discurso na votação do impeachment de Dilma para fazer críticas imbecis e clichês a Carlos Lacerda.
Dito isso, o Ministro das Relações Exteriores do governo interino de Michel Temer tem mandado muito bem em alguns dos últimos episódios em que é exigido. A personalidade vacilante e contida, típica da social democracia brasileira, não tem dado as cartas, e Serra, “desatucanando-se” quando convém, tem sido um ministro digno em um momento de crise, em que o nefasto governo afastado tenta de todas as formas deslegitimar a gestão em exercício – usando também seu séquito de aliados e beneficiados fora do Brasil. Serra, lembramos, já havia tomado posição segura e decidida quando passou um pito muito bem dado nos governos bolivarianos latino-americanos de meia tigela ao defender a constitucionalidade absoluta do processo de impeachment de Dilma Rousseff.
Agora, em evento do Comitê Olímpico Internacional em homenagem aos 11 atletas israelenses mortos em 1972 durante os atentados nos Jogos de Munique – evento, aliás, particularmente emblemático depois que um judoca egípcio se recusou a cumprimentar o adversário israelense que o derrotou durante os Jogos do Rio -, Serra fez um comentário novamente firme e duro acerca da confusão que envolve a posse de Nicolás Maduro, o tiranete que lidera a Venezuela, como presidente do Mercosul. Segundo Serra, “a Venezuela não cumpriu pré-requisitos para a integração do Mercosul. Foi dado um prazo e ela não cumpriu”. Sendo assim, ele afirmou, com convicção, que “o presidente Maduro não vai presidir o Mercosul”.
A eficácia do bloco econômico, por si, é bastante questionada, mas certamente se tornava ainda mais contestável pela subordinação que o PT promovia dos interesses brasileiros à agenda do seu bloco político no continente. A Venezuela chavista, que mergulhou sua população na carência mais gritante e se manchou em sangue durante os protestos contra a tirania armada do Partido Socialista Unido, não pode assumir a direção do bloco. Isso só o lançaria ainda mais na mediocridade e no descrédito – sobretudo, descrédito moral.
Ao bater o pé e se colocar francamente contrário a essa posse vexatória, ao menos o Brasil, nesse e nos últimos episódios, chamado a tomar posição em uma quadra histórica em que tem passado longe de honrar suas melhores tradições diplomáticas, reverbera um respeito maior pela própria soberania e pela própria dignidade. Não age como protetor, provedor e capacho dos caudilhos e dos “socialistas do século XXI” do Foro de São Paulo.
Seria preciso mais. Seria preciso vasculhar detidamente todas as transações duvidosas que essa gente realizou no país na última década, investigar todas as articulações que englobaram os agentes dessa rede internacional. Aí, talvez, seja esperar demais dos tucanos e dos fisiológicos conciliadores do PMDB…

