Há duas semanas atrás, a direção da Universidade Estácio de Sá anunciou a demissão de mil e duzentos professores. A justificativa principal do desligamento dos magísteres feita pelos donos da instituição seria a recontratação dos mesmos professores já sob o novo regime contratual previsto na reforma trabalhista sancionada pelo presidente Michel Temer. No entanto, a razão fundamental da demissão é omitida pelos donos da universidade, a saber: o estouro da bolha das instituições de ensino fomentada pelo governo federal nos últimos anos.
A Estácio foi uma das maiores beneficiadas por políticas que tinham como fito o aumento da oferta de vagas no ensino superior por meio de programas como o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e o Programa Universidade Para Todos (ProUni). Tais ações fomentaram o crescimento de diversos conglomerados como a Kroton Educacional (dona da Universidade Anhanguera) e da Ser Educacional (dona da Universidade Maurício de Nassau). As ações de empresas do ramo de educação chegaram a ter 24% de lucratividade, número acima até mesmo das margens de lucro dos bancos.
Durante o governo demagógico e populista da petista Dilma Rousseff, a concessão de bolsas para alunos de universidades privadas subiu inacreditáveis 451% enquanto o aumento da oferta de vagas no ensino superior foi de meros 12%, segundo estudo realizado pelo site porque.com.br e pelo jornal “O Estado de São Paulo” no ano de 2015.
Com a expansão do FIES, que garante a oferta de vagas no ensino superior, agora com uma demanda reprimida pelo serviço bastante elevado (as universidades públicas beneficiam sobretudo as classes mais abastadas da sociedade), o segmento tornou-se um negócio que movimentava bilhões de reais por ano.
Com cerca de 70% do total de alunos matriculados em universidades, o setor de educação tornou-se a galinha dos ovos de ouro para empresários como o ex-ministro do Turismo Walfrido Mares Guia. Seu conglomerado, a Kroton Educacional, chegou a ser a maior empresa de ensino do planeta em 2014, quando seu valor de mercado atingiu a marca de R$ 21 bilhões.
Todavia, os recursos do FIES, assim como todo recurso público, não é infinito. O dinheiro que alimenta o fundo é proveniente de empréstimos antigos, além de aportes provenientes da arrecadação por meio das Loterias da Caixa Econômica Federal. Em um vale-tudo eleitoral para conquistar sua reeleição e visando um projeto totalitário de poder, Dilma Rousseff prometeu em sua campanha manter e aumentar as bolsas provenientes do fundo quando a realidade já batia à porta: não poder-se-ia manter tantas benesses públicas devido à queda na arrecadação, em razão da crise econômica que acometeu o país devido a falhas abissais de gestão.
Com isso, em 2015, o fundo estava com seus recursos próximos de zero e obrigou que o governo federal cortasse acima de 50% a oferta de bolsas oferecidas. Assim, muitas empresas do ramo educacional perderam uma de suas maiores fontes de recursos e começaram a sofrer desvalorização no mercado. As ações da Ser Educacional caíram de R$ 30,60 para R$ 7,35 e os papéis da Kroton chegaram ao valor de R$ 7,41 no mesmo período.
Com a Estácio de Sá não foi diferente; suas ações sofreram desvalorizações de 50% no mesmo período que as suas concorrentes do setor. O grupo que realiza a gestão da universidade enxergou como tábua de salvação a fusão com a Kroton Educacional, para a formação de uma enorme empresa que uniria as duas maiores companhias da área de educação. Entretanto, a fusão foi proibida pelo CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), alegando que a união das duas empresas poderia causar efeitos anticompetitivos no setor.
Dessa forma, a Estácio não teve outra saída senão ajustar-se ao cenário presente. Com a bolha estourada (e fomentada por políticas estatais), o grupo gestor não teve outra saída que não readequar seus gastos de acordo com a arrecadação presente, em vista de que seus balancetes voltassem a estar mais favoráveis do que como está atualmente. A Estácio, então, aproveitou uma brecha existente na reforma trabalhista para continuar a fazer seu ajuste financeiro.
Seja você um adolescente que tenha sonhos de cursar uma universidade, seja você um empresário calejado, cair na conversa de um político populista e demagógico pode custar parte importante de seu planejamento para o futuro. Acreditar que a economia sempre crescerá é um dos erros mais constantes da política e da maioria dos políticos, e não possuem relação alguma com o momento, que está mais para o somatório do custo de decisões certas e erradas – sejam elas da política, de uma grande empresa ou até mesmo da sua vida pessoal.


