No dia 19 de Novembro, os chilenos vão as urnas para escolher o sucessor da presidente Michelle Bachelet. Desde a eleição que levou o democrata-cristão Eduardo Frei a presidência em 1993, não se tinha tantos candidatos no Chile. São oito candidatos que disputam residir no Palácio de La Moneda pelos próximos quatro anos.
O cenário para a esquerda no Chile não é dos mais favoráveis. Devido a baixa popularidade da atual mandatária devido a casos de corrupção e a mal uso dos recursos públicos, o governista Alejandro Guillier vem patinando nas pesquisas.
Outra situação que desfavorece a esquerda chilena foi a dissolução da Coalizão de Partidos pela Democracia (CONCERTACION¹), coalizão de partidos de centro e de esquerda que estava reunida desde o plebiscito sobre a permanência de Augusto Pinochet na presidência do país em 1988. Tal dissolução fez com que dos oito postulantes, seis fossem de partidos de centro ou de esquerda.
Nesse artigo, se delineará um panorama geral do perfil dos oito candidatos a presidência chilena:
1 – Carolina Goic (Partido Democrata Cristão – PDC)
A atual senadora pela região de Magallanes vem representando um dos partidos mais tradicionais daquele país, o Partido Democrata Cristão, partido de centro. Desde a derrota do ex-presidente Eduardo Frei para Sebastián Piñera em 2010, o PDC vem perdendo terreno na política chilena. Para tentar retomar o espaço perdido, logo após as eleições de 2013 o PDC anunciou sua saída da CONCERTACION e tenta usar a candidatura de Goic para retomar protagonismo no país. Sua candidatura apresenta-se como um ponto de equilíbrio entre a direita liberal e a esquerda, buscando atingir o eleitorado indeciso que não decidiu ainda seu candidato. Todavia, sua estratégia não tem se refletido em votos, tendo apenas 3.9% das intenções de voto em pesquisa publicada pelo Centro de Estudos Políticos.
2 – José Antonio Kast (Independente)
Deputado pela região de La Reina e Peñaloén, decidiu sair do partido União Democrática Independente (UDI) para lançar sua candidatura independente. Sua plataforma de campanha tem sido liberal-conservadora, marcada pela defesa da redução da máquina pública, do armamento civil e da derrubada da lei do aborto sancionada pelo governo Bachelet. Um de seus lemas de campanha é pregar que os candidatos de esquerda não podem chegar ao segundo turno, para que um debate mais à direita possa ser feito no segundo turno das eleições, evitando que representantes de esquerda tenham espaço na disputa. Atualmente, Kast tem 2.7% das intenções de voto nas pesquisas.
3 – Sebastián Piñera (Coalizão Chile Vamos: Renovação Nacional – RN, União Democrática Independente – UDI, Evolução Política – EVOPOLI, Partido Regionalista Independente – PRI e Amplitude – AMPLITUD)
Sebastián Piñera vem como franco favorito para vencer as eleições presidenciais. Presidente entre 2010 e 2014, enfrentou como problema em seu mandato o terremoto e maremoto acontecidos logo no início de seu governo, assim tendo que dedicar seu mandato a reconstrução do país. Com uma plataforma liberal-conservadora, pautas como o combate a violência no país, a redução da máquina pública e a geração de empregos, têm sido principal mote contra o governo de Michelle Bachelet. Empresário do ramo de aviação civil e irmão do ex-ministro da Fazenda do país, José Piñera, um dos Chicago Boys² que reformou a economia do país nos anos 1970 e 1980, Piñera vem utilizando uma diretriz semelhante a do atual presidente americano Donald Trump, em sua eleição ano passado de utilização das redes sociais na campanha e de propostas de valorização da economia do país. É o líder das pesquisas eleitorais, com 44.4% das intenções de voto.
4 – Alejandro Guillier (Coalizão Nova Maioria: Partido Socialista – PS, Partido Pela Democracia – PPD, Partido Comunista do Chile – PC, Partido Radical – PR, MAS Região, Pela Integração Regional e Esquerda Cidadã)
Jornalista e senador pela região de Antofagasta, carrega o fardo de ser o candidato governista na eleição chilena. Com índices de popularidade baixos, Michelle Bachelet tenta emplacar Guillier como candidato. Tem como propostas principais manter as reformas educacionais e previdenciárias iniciadas no governo da presidente filiada ao Partido Socialista. Briga para ir ao segundo turno das eleições, estando na segunda posição das intenções de voto com 19.7%. Sua candidatura é apoiada por muitos partidos remanescentes da CONCERTACION, mas enfrenta ataques das candidaturas de Piñera e Kast por ser o candidato governista e enfrenta ataques dos outros candidatos de esquerda com a alegação de que Guillier não seria o candidato mais apropriado para ser apoiado pela presidente.
5 – Beatriz Sanchez (Coalizão Frente Ampla: Revolução Democrática, Poder Cidadão, Partido Humanista, Partido Liberal, Partido Ecologista Verde e Partido Igualdade)
A radialista Beatriz Sanchez vem candidata com o apoio de movimentos sociais que realizaram protestos contra o sistema de voucherização da educação chilena entre 2012 e 2013. Declara-se feminista e sua principal pauta é recriar o sistema de previdência pública no país, terminando com o sistema de previdência privada, chamada no país de AFP (Administradoras de Fundo de Pensão) instaurado desde 1980. Alega combater uma chamada polarização entre Piñera e Guillier, porém era aliada de Michelle Bachelet até as vésperas da prévia da Frente Ampla³. O alinhamento do espectro político de Sanchez assemelha-se ao PSOL. Está como terceira colocada nas intenções de voto, com 8.5%.
6 – Marco Enriquez-Ominami (Partido Progressista – PRO)
MEO, como é conhecido o cineasta franco-chileno, é filho do líder do Movimento Esquerda Revolucionária (MIR) Miguel Enriquez. Vem para a sua terceira candidatura a presidência chilena e apresenta-se como quem pode dar continuidade ao governo Bachelet, argumentando que o candidato governista Alejandro Guillier não seria um socialista tradicional e estaria apenas aproveitando-se do governo. Busca mostrar-se como uma espécie de esquerda “clean”, que seria capaz de agradar a todos os setores da sociedade. Atualmente está em quarto lugar nas pesquisas, com 4.6%
7 – Eduardo Artés (União Patriótica – UPA)
Líder da juventude comunista chilena nos anos 1960 e 1970, Eduardo Artés é a representação da esquerda marxista-leninista neste pleito. Sua campanha é pautada numa tentativa de “refundar o país”, defendendo a instauração de um governo comunista. Alega que todos os outros candidatos são ligados a grupos de interesse, vendendo-se como o único que seria de fato socialista. Porém, a população do Chile vem rejeitando tal radicalização vinda por parte de Artés, que está em último nas pesquisas eleitorais com 0.1% das intenções de voto.
8 – Alejandro Navarro (PAIS)
O senador pela província de Bíobio Costa é conhecido por ser um defensor intransigente de governos como o de Nicolás Maduro na Venezuela e um admirador declarado de Dilma Rouseff. Suas principais propostas são as estatizações das minas de cobre e de lítio, bem como revisar a lei nacional de pesca, argumentando que tal lei beneficia apenas os ricos. Porém, a sua defesa do regime bolivariano fez com que fosse atacado por praticamente todos os candidatos, sendo acusado de querer instaurar um regime totalitário no país. Está em sétimo nas pesquisas, com 0.5% das intenções de voto.
Glossário
¹ CONCERTACION (Coalizão de Partidos Pela Democracia): Coalizão de partidos de centro e de esquerda criada em 1988 para realizar a campanha da não-prorrogação do mandato do presidente Augusto Pinochet.
² Chicago Boys: equipe econômica comandada por economistas formados na Universidade de Chicago como Hernan Büchi e José Piñera que realizaram diversas reformas econômicas no Chile nas décadas de 1970 e 1980.
³ Frente Ampla: Coligação de partidos sociais-liberais e socialistas criada em 2017 com o mote de combater o bipartidarismo no Chile, representada pelas coalizões “Chile Vamos” e “Nova Maioria”.

