Carlos Frederico Werneck de Lacerda foi um homem público com diferentes vocações. Jornalista tenaz, tendo como principais marcas as denúncias de corrupção cometidas por políticos ligados ao seu opositor Getúlio Vargas, bem como os artigos jornalísticos que apresentavam sua visão de mundo por meio da sua Tribuna da Imprensa. Também assumiu o Executivo com grande poder de realização quando eleito Governador do estado da Guanabara resolvendo os problemas crônicos de abastecimento de água, pensando de maneira inovadora na mobilidade urbana e buscando difundir a alta cultura por meio da criação de universidades.
Entre o jornalista e o governador há um hiato da vida de Carlos Lacerda pouco estudado, mas não menos importante: o período em que Lacerda ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados representando o então Distrito Federal pela União Democrática Nacional (UDN) – entre os anos de 1955 e 1960. Sua campanha para a Câmara Federal seria marcada pelo Atentado da Rua Toneleros, em 05 de agosto de 1954. O então candidato voltava para a sua casa após um comício realizado no pátio do Colégio São José. Ao chegar em sua residência, uma pessoa surge das sombras e dispara diversos tiros. Carlos Lacerda sofre um tiro no pé enquanto o Major-Aviador da Aeronáutica Rubens Vaz, que realizava a segurança do jornalista, acabou falecendo. Posteriormente, o chefe da guarda pessoal do ditador Getúlio Vargas, Gregório Fortunato, seria responsabilizado como o mandante do crime. O atentado do dia 05 de agosto de 1954 foi crucial para a crise institucional que culminou com o suicídio do tiranete caudilho a 24 de agosto do mesmo ano.
Lacerda foi eleito com expressiva votação para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Conhecido por ser um exímio orador, seus discursos seriam uma marca registrada durante sua passagem pelo parlamento brasileiro. E é isto que o livro “Perfis parlamentares: Carlos Lacerda”, publicado em 1982 pela Câmara dos Deputados em parceria com a Editora Nova Fronteira, busca apresentar ao leitor. O livro apresenta por meio dos discursos proferidos no plenário do Palácio Tiradentes a trajetória parlamentar do jornalista que virou o maior inimigo do varguismo.
O livro começa com o discurso de Lacerda na sessão plenária, em 04 de Março de 1955, quando são questionadas emendas do Senado à Lei Orgânica do Distrito Federal que buscavam alterar o artigo 40 da referida lei e que previa equidade salarial para equivalência de trabalho. Na teoria, um artigo justo, mas que gerava interpretações dúbias devido à estrutura bagunçada da máquina administrativa do Distrito Federal. Tal artigo gerava uma indústria de mandados de segurança que custavam caro ao governo. Em sua fala contundente, Lacerda mostra-se também um bom quadro técnico, apontando custos elevados com salários na estrutura administrativa e falhas na legislação da época, sendo aparteado pelos deputados udenistas Wagner Estelita e Afonso Arinos de Mello Franco e pelo petebista e futuro adversário à eleição do governo da Guanabara Sérgio Magalhães.
O livro também destaca momentos da vida parlamentar de Lacerda como sua articulação para defender a liberdade pedagógica na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, defendendo a implantação de vouchers no sistema educacional – tema já tratado no artigo “Carlos Lacerda e a Doutrinação Ideológica”. Outro momento importante tratado pelo livro é a tentativa de cassação de Carlos Lacerda, em 1957. Lacerda havia lido em plenário um telegrama codificado e secreto da Embaixada do Brasil em Buenos Aires sobre o inquérito do Exército argentino, que implicava o então vice-presidente João Goulart em denúncias de negociações de contrabando de madeiras e armas para arrecadar recursos para a campanha presidencial de Getúlio Vargas em 1950, feitas em conjunto com o ditador argentino Juan Domingo Perón. O discurso de defesa de Lacerda na Comissão de Constituição e Justiça foi incluído na coletânea “Grandes Momentos do Parlamento brasileiro” lançada pelo Senado Federal, em 1998, e que pode ser conferida aqui.
Outro grande momento do Deputado Federal Carlos Lacerda foi a ferrenha oposição da transferência da capital federal da cidade do Rio de Janeiro para Brasília por parte do presidente Juscelino Kubitschek. Lacerda questionava o alto custo para a construção da nova capital, além de defender a capitalidade do Rio de Janeiro e a sua importância para o país. Tal oposição culminou com uma pequena vitória para o udenista: embora Brasília virasse capital do país, o antigo Distrito Federal seria transformado no estado da Guanabara, por meio da Lei Santiago Dantas, visto que a intenção de JK era realizar a fusão do Distrito Federal com o estado do Rio de Janeiro, que seria realizada em 1974 por Ernesto Geisel. Assim, Lacerda pôde disputar o pleito eleitoral de 1960 e eleger-se Governador do recém-criado estado guanabarino, derrotando o PTB representado por Sérgio Magalhães.
Em um cenário em que diversos parlamentares tomam posse pela primeira vez e assumem cadeiras nas câmaras federais e estaduais, o estudo da vida dos grandes homens públicos do país se faz bastante necessário. Carlos Lacerda marcou o seu tempo realizando um mandato combativo e atuante em defesa do Brasil e do povo brasileiro e deve ser lido e comentado para que os novos políticos tenham melhor base e melhor inspiração para realizarem grandes mandatos. Os Deputados federais, Estaduais e Senadores que chegam às casas legislativas têm a chance de deixarem suas marcas na história do país. Que Carlos Lacerda seja uma dessas luzes para a realização de um excelente trabalho em defesa do novo Brasil em quem a população deposita suas esperanças.


