A democracia continua sendo vilipendiada na Venezuela: tortura e assassinato de opositores, inflação acima dos 1.500.000%, ataques à liberdade individual, fechamento das empresas restantes no país, corrupção endêmica e violações aos direitos humanos. Após a vitória da oposição nas eleições parlamentares de 2015, o ditador Nicolás Maduro convocou eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte em 2017 com o fim de retirar os poderes do parlamento venezuelano.
Após a usurpação do poder legislativo por parte de Nicolás Maduro, deputados oposicionistas liderados pelo presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, começaram a utilizar um artifício iniciado durante o período de independência dos países do continente americano para tentar derrubar o ditador Maduro: os cabildos. Os cabildos foram criados na Espanha durante o século XVI para administrar as cidades espanholas e foi exportado para as colônias hispânicas situadas no continente americano. Eram estruturas centralizadas que garantiam a interlocução entre a metrópole e as colônias, comandadas por nobres, religiosos e chefes militares. No século seguinte os cabildos ganhariam um novo significado.
No início do século XVII, a França napoleônica expandia seu território para além das fronteiras gaulesas. A Espanha era vizinha territorial dos franceses e foi uma das vítimas da expansão napoleônica. O então imperador da França realizou um acordo com o rei espanhol Carlos IV para anexar regiões espanholas à França, com a contrapartida da divisão de Portugal e a anexação de regiões portuguesas pela Espanha. Todavia, o acordo entre França e Espanha naufragou devido à ocupação não combinada das cidades de Pamplona e Barcelona e a descoberta da tentativa de fuga do Rei espanhol organizada por Manuel de Godoy, interessado direto no governo das regiões portuguesas que seriam anexadas.
Esses fatos resultaram no chamado Motim de Aranjuez, quando a população espanhola pedia a deposição de Carlos IV e a prisão de Manuel de Godoy, argumentando que os dois estariam traindo a pátria espanhola para favorecer Napoleão Bonaparte. Assim, em 19 de Março de 1808, Carlos IV abdica do trono e faz de seu filho, Fernando VII, o novo rei da Espanha. No entanto, um acordo entre o monarca francês e o monarca espanhol realizado nos bastidores fez com que o novo rei espanhol ficasse pouco tempo no cargo. Tropas francesas desembarcaram em Madrid e fizeram de José Bonaparte o novo rei da Espanha. A família real espanhola se mudaria para a cidade francesa de Bayonnie em troca da manutenção da unidade territorial espanhola e da manutenção do catolicismo como religião oficial.
Em 02 de Maio de 1808, Inglaterra e Portugal (este já comandado em território brasileiro por Dom João VI) declaram guerra à França e iniciam a Guerra Peninsular (ou Guerra de Independência) contando com o apoio de tropas espanholas anti-napoleônicas. Neste contexto, os cabildos na América tomam sua nova forma: em vez de apenas governarem de acordo com os interesses da metrópole, passam a servir de grupos de apoio para arrecadação de donativos e realização de reuniões em favor das tropas de libertação comandadas por ingleses, portugueses e espanhóis anti-França. Além disso, os cabildos passaram a realizar uma gestão totalmente desvinculada de Madrid.
Em 1814, a França napoleônica é derrotada na guerra e Fernando VII é reconduzido ao trono espanhol, fato comemorado pelos cabildos americanos. Porém, o monarca espanhol restabeleceu o absolutismo na Espanha e forçava a todo custo que as colônias espanholas se submetessem ao desejo do monarca. A reação dos cabildos foi a de iniciar movimentos de independência em suas localidades fazendo com que a Espanha, fragmentada pela Guerra de Independência, realizasse um novo esforço de guerra para tentar conter o ímpeto independentista na América hispânica.
Nesse contexto aparecem lideranças como José de San Martín (Argentina), Bernardo O’Higgins (Chile) e Simón Bolívar (Venezuela). Ex-militares espanhóis de orientação liberal nascidos no continente americano, defenderam a Espanha durante a Guerra contra Napoleão e posteriormente, com a perda da autonomia das colônias, insurgiram-se contra Madrid. Os cabildos agora passavam a comandar os esforços de guerra contra Fernando VII, conseguindo êxito: conseguiam a libertação das colônias espanholas no continente americano e derrotavam de maneira acachapante a monarquia espanhola.
A inspiração em seu movimento de independência fez com que os congressistas de oposição na Venezuela usassem um dispositivo constitucional e passassem a convocar cabildos em cidades e bairros. O artigo 350 da Carta Constitucional venezuelana estabelece que “o povo da Venezuela, fiel à sua tradição republicana, à sua luta pela independência, paz e liberdade, não tomará conhecimento de nenhum regime, legislação ou autoridade que contradiga os valores, princípios e garantias democráticos ou mine os direitos humanos”.
A estratégia tem sido eficiente até aqui, gerando abalos em Nicolás Maduro. A Organização dos Estados Americanos (OEA) e governos de países como o Brasil, Estados Unidos, Chile e Argentina reconhecem Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, enfraquecendo a legitimidade de Maduro frente à comunidade internacional. No último domingo, quando estava a caminho de mais um cabildo na cidade de La Guaira, Guaidó foi preso por agentes do serviço de inteligência chavista.
Contudo, pela posição institucional do deputado, e pela pressão internacional do caso, o ditador venezuelano não fez com Juan o mesmo que fez com Leopoldo López (preso nos porões de Caracas), Henrique Capriles (perda dos direitos políticos por 15 anos), Óscar Perez (assassinado por tropas fiéis a Maduro) e Antônio Ledezma (exilado na Espanha). Juan Guaidó foi solto e realizou mais um cabildo em Vargas, estado local do deputado.
O reencontro com a sua própria história pode salvar a Venezuela de continuar sendo uma ditadura comunista. Assim como a população derrubou Dilma Rousseff e o PT no Brasil entre 2016 via impeachment e em 2018 pela via eleitoral, a população venezuelana mesmo enfrentando um estado opressor e violento pode vencer a luta em defesa da liberdade. Assim como a Venezuela venceu o Império espanhol em 1821, poderá vencer o narco-estado chavista comandado por Nicolás Maduro, em 2019.


