A cada dia, a Operação Lava Jato recebe mais aplausos e consagração, aos olhos do povo e de observadores internacionais. O juiz Sérgio Moro é o décimo terceiro colocado na lista da revista Fortune com os 50 líderes mais influentes do mundo em suas respectivas áreas. As manifestações de rua não permitem mentir a respeito. Tudo isso, apesar do papelão dantesco que Dilma fez nesta quinta-feira ao choramingar para seis jornais estrangeiros importantes que estaria sendo vítima de um “golpe” no país. No entanto, a Operação ainda recebe críticas constantemente, algumas compreensíveis – vindo de que vêm -, outras nem tanto.
Nesta quinta, o ex-presidente Lula, visível alvo das investigações, apontado incessantes vezes como o óbvio centro do esquema de poder em vigência no país desde a ascensão popular de seu partido autoritário, provou que não há mais nível para o qual possa descer. Em discurso inflamado, após fazer a imperiosa concessão de reconhecer que o combate à corrupção é necessário, disse à sua plateia ensandecida: “Eu queria que vocês procurassem a força tarefa, procurassem o juiz Moro, para saber o seguinte: se eles estão discutindo quanto essa operação já deu de prejuízo à economia brasileira”. Na interpretação ímpar de Lula, o desemprego, a queda de rendimento da economia, a recessão, nada disso é de responsabilidade de um governo que hoje faz de tudo para fechar as metas orçamentárias com outro rombo de quase R$ 100 bilhões, e que encampou sob suas asas o maior esquema de corrupção do planeta. Não; a culpa é de Moro e da equipe que persegue os criminosos e desvela a podridão. É tamanho o ridículo que nem nos animamos em propor qualquer questionamento ao cínico líder decaído.
O mesmo não vale para Rodrigo Janot, o procurador-geral da República. A atuação do procurador no caso, com todos os respeitos que lhe são devidos, vinha dividindo opiniões em todos os lados. O cientista político e professor Ricardo Ismael, da PUC-Rio, cujo esforço notável de mobilização e conscientização nas redes sociais acerca do atual estado de coisas – com publicações diárias – merece um reconhecimento, vinha sendo um crítico constante da hesitação demonstrada por Janot em atingir o núcleo do poder no esquema, que não autorizava investigações contra a presidente Dilma, enquanto os dardos se voltavam totalmente para criminosos de menor escalão, como o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Até o fim do ano passado, questionava bastante o motivo de Janot nada dizer “sobre quem são os responsáveis por planejar, implementar e manter por mais de oito anos o monumental esquema de corrupção na Petrobrás”, a “questão mais importante da Operação Lava Jato”.
Não obstante, após a divulgação dos áudios comprometedores do ex-presidente Lula, o professor Ricardo lembrou bem que “Lula disse claramente que o procurador Rodrigo Janot é um ingrato porque não trabalha para impedir que ele, Lula, seja investigado pela Lava Jato”. Rodrigo Janot já deu motivos para ser visto de formas diferentes pelas mesmas pessoas, e não deixou de responder aos ataques infames de Lula. Não pretendemos responder quem é Rodrigo Janot e quais são suas ideias, na totalidade, mas a carta por ele publicada na última terça-feira, 22/03, que tivemos a oportunidade de ler, nos deixou com a pulga atrás da orelha.
O texto, publicado pelo jornalista Matheus Leitão no portal de notícias G1, é estranhamente dúbio. Em material que cita Winston Churchill, Abraham Lincoln e Nelson Mandela, Janot elogia o trabalho da Lava Jato, em um primeiro momento, mas preenche suas linhas com advertências que, francamente, não compreendemos. Diz ele que “a Lava Jato certamente não salvará o Brasil, (…) até porque, se tivéssemos essa pretensão, já teríamos falhado antes mesmo de começar”. Advertiu que as “paixões das ruas” não podem contaminar o trabalho do Ministério Público, e que seus integrantes devem apagar o “brilho personalista da vaidade para fazer brilhar o valor coletivo”, e que a Lava Jato somente promoverá melhorias reais no país se, “e somente se, soubermos manter a união, a lealdade institucional, o respeito à Constituição”. Acrescentou, por fim, que o que está acontecendo “não se deve a iniciativas individuais, ao messianismo ou ao voluntarismo”, e sim “ao conjunto de experiências e conhecimentos acumulados coletivamente ao longo de anos de labuta, de erros e de acertos”.
De acordo com o jornalista que reproduziu a carta, ela está sendo “aplaudida pela maioria da carreira internamente”. Particularmente, admito que, a despeito de sua beleza retórica, não gostei da carta. Quando se redigem advertências, pressupõe-se que os advertidos estejam precisando delas. Acaso o senhor Rodrigo Janot acredita que algum dos integrantes do MP esteja dando reais motivos para que se desconfie que as investigações estão ultrapassando os limites constitucionais? Acaso haverá algum fundo de verdade a ser reconhecido nas bravatas populistas contra o juiz Sérgio Moro que só interessam à narrativa lulopetista? Que falta de serenidade seria essa, quem estaria esbanjando vaidade? Esse gênero de críticas abstratas, sem alvos concretos, mais não faz que dar margem a interpretações dúbias e de consequências descabidas.
Mais de 750 juristas já assinaram, por outro lado, uma nota em apoio à atuação de Sérgio Moro. O mundo civilizado reconhece com clareza de quem é a responsabilidade por estarmos onde estamos, e sabe que o crime deve ser imputado a quem o cometeu e não a quem o descobriu. A Operação Lava Jato pode ser um divisor de águas da nossa história se – parafraseando Rodrigo Janot, “e somente se” – não permitirmos que os populistas a desqualifiquem e desarticulem perante a claque dos basbaques que os adulam.

