A apresentação em coletiva dos procuradores da República envolvidos nas investigações da Operação Lava Jato – em especial a exposição firme e abrangente de Deltan Dallagnol – foi uma peça para a História. Denunciou explicitamente, em gráficos de clareza cristalina, a verdade sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Formalmente, o ex-presidente, junto com outros sete investigados (incluindo sua esposa, Marisa Letícia), foi denunciado pelo MPF por corrupção e lavagem de dinheiro, com destaque para o caso das “benesses ilícitas” prestadas pela OAS em razão do tríplex do Guarujá. Porém, Dallagnol e seus companheiros se adiantaram e disseram – e ilustraram – muito mais.
O país ouviu hoje, em sua palestra didática e tão repetitiva quanto necessário, que a corrupção no país não foi inventada pelo PT, mas que o “comandante máximo do esquema de corrupção investigado na Lava Jato”, o “maestro da orquestra”, isto é, o líder supremo, o chefe do Petrolão, do Mensalão e de todas as estruturas correlatas, alicerçadas em um projeto de “perpetuação no poder” através de uma “governabilidade corrompida”, foi Luiz Inácio Lula da Silva. Lula arquitetou um sistema de “propinocracia”, no dizer de Dallagnol – um governo baseado nas propinas. Era ele o “grande general” a coordenar um desastre bilionário que ainda é a ponta do iceberg de algo muito maior e mais complexo, englobando diversos outros órgãos públicos, extensão que os procuradores prometem ainda abarcar em suas análises (segundo eles, mesmo chegando ao líder, a Lava Jato não chegou ao fim quanto aos “lados”, aos outros vértices da podridão que descortina). Ele estava “no topo da pirâmide de poder”, simplesmente NÃO PODE DIZER QUE NÃO SABIA DE NADA e o elo que liga diversos braços do projeto criminoso é a sua figura pessoal.
A reação imediata, naturalmente, a esse desnudar da verdade, a essa exibição inequívoca das vergonhas do seu ícone maior, do seu grande símbolo e ídolo, é o esperneio dos petistas e daqueles que se beneficiaram desse estupefaciente desenho do mal. Lembrei-me de imediato de Carlos Lacerda desenhando, no governo Vargas dos anos 50, um esquema gráfico de ligações de personagens e escândalos a um círculo central com o nome do caudilho gaúcho. Vargas conseguiu dar a volta nos adversários através do apoteótico suicídio, que garantiu o triunfo de sua mensagem política e beneficiou os herdeiros do esquema “estadonovista”. Lula, diante do Brasil e do mundo, não deverá conseguir a mesma “sorte”. Seu delírio populista ainda tem amantes barulhentos, mas hoje sua imagem mítica, que ele também conseguiu construir por mais de uma década, está na lona.
A projeção em slides que ilustra este artigo é um sinal dos tempos. Anos atrás, ainda nos sentíamos minoria, denunciando a exaltação da mediocridade por parte de um quase semideus com índices apoteóticos de aprovação popular. Uma miragem. Uma miragem tecida desde antes, com musiquinhas bonitinhas, com os “Lula lás” trazendo a esperança ilusória de uma “lavagem” das instituições nacionais, com os artistas da Globo de mãos dadas a cantar em homenagem ao sonho que se tornaria realidade, com o herói e salvador da Pátria sendo escolhido para gerar um novo capítulo na epopeia brasileira e afastar do comando todas as oligarquias enraizadas nos núcleos de poder. Naqueles tempos que hoje parecem tão distantes, tempos em que ainda era próspera a mais amarga das mentiras, as cenas que foram estampadas em nossas televisões hoje não seriam imagináveis. Não seriam concebíveis.
Hoje, dificilmente Lula escapará das algemas que coroarão as suas ruínas. A menos que tente a cartada, mais vergonhosa que meritória, de um Getúlio Vargas, ou que se escafeda como um rato covarde para o ninho de seus aliados em Cuba ou na Venezuela. O mito populista foi soterrado pela verdade. O que eu sinceramente receio, ciente de que não será fácil fazer o certo, é que, em vez de nos concentrarmos no que é fundamental, partamos para alçar outro ao estrelato delirante em seu lugar.
Que no futuro coloquemos mais os pés no chão, em vez de querer pintar de vermelho as estrelas no céu.

