Filosofia, Artes, Educação física, Sociologia são disciplinas importantes, sem dúvida, e não há razão para serem excluídas da educação dos jovens (e, de fato, não serão). Ocorre, porém, que se faz necessário pensar o que é formação humana e para que tende a atual educação brasileira. Não se trata, então, de discutir o mérito das disciplinas, mas de discutir o mérito do modelo de exposição (ou apropriação) dessas matérias. A Filosofia tal como é ministrada no Ensino Médio tem sido uma ferramenta para o desenvolvimento do pensamento ou apenas um pensamento já conquistado pela crítica de viés político? A Sociologia tem acrescentado algo para além da perspectiva marxista extenuantemente apregoada? A Educação Física oferece um modelo adequado de cuidado de si através do corpo, de valorização da arte formadora por meio da disciplina, do vigor, da saúde, do esforço e da competitividade saudável? A disciplina de artes desperta a sensibilidade estética do jovem ou apenas reproduz enfadonhamente a história dos grandes movimentos artísticos? A verdade é que não há projeto de formação e os jovens continuam a compreender superficialmente as matérias que estudam, assim como é superficial a ideia que muitos professores têm da própria área em que atuam (a despeito da quantidade de títulos ou horas/aula que conseguiram acumular).
O aspecto mais interessante da mudança no Ensino Médio que está sendo proposta é justamente a flexibilização da grade curricular que – mantendo uma base comum – facultará ao aluno a escolha de disciplinas mais afins, dando-lhe desde cedo um pouco de responsabilidade sobre a sua própria formação intelectual, assegurando-lhe a liberdade de escolher os temas a que quer se dedicar mais e de rejeitar – após o cumprimento de uma carga horária básica no primeiro ano – aquilo que julgou supérfluo para si. Abarcar a totalidade do conhecimento é impossível; alcançar uma formação cultural sólida através de disciplinas isoladas também é. Qual é, então, o motivo de tanta celeuma para o fato de, a partir de agora, ser possível ao estudante selecionar as disciplinas nas quais quer investir mais seu tempo e seu empenho?
Qual é também o problema da aceitação do notório saber do professor (outro ponto interessante da reforma proposta) se diplomas e títulos não o medem como o podem medir os próprios alunos aos quais esse sujeito dotado de um suposto saber leciona? Quantas pessoas conhecemos que são mais capazes de dar uma boa aula, por exemplo, de literatura, do que aquela outra pessoa cheia de títulos? – E o esforço para obter o diploma? Perguntarão alguns. Será honrado, pois o tempo dedicado à sua conquista foi também tempo dedicado à disciplina que lhe cativa o espírito e, se esse tempo e esforço não lhe proporcionou a capacidade de se sobressair na sua área mais do que alguém que não dedicou um tempo da sua vida a isso, não será o poder mágico de um papel que o fará.
Falta-nos dinamismo na educação, falta-nos uma paixão e um entusiasmo que são, ao meu ver, proporcionais à liberdade e à desburocratização do ensino. Se você adora robótica, que diabos quer estudando até o terceiro ano o “materialismo histórico”? Se quer ser engenheiro, mas se interessa pela área de humanas, quem irá te impedir de buscar por si mesmo o aprofundamento desse conhecimento paralelo à sua formação curricular? Aliás, o autodidatismo é incontestavelmente superior à imposição de um conteúdo, pois o seu móbil é a vontade de conhecer e não a imposição de um conteúdo do qual o jovem só quer se livrar. Eu, por exemplo, não tive contato algum com a Filosofia no Ensino Médio e desconfio que se tivesse tido me faltaria vontade para cursar a graduação nessa área. Aliás, por muito pouco não larguei paradoxalmente a graduação de Filosofia por amor à Filosofia, assim como larguei a faculdade de jornalismo por uma necessidade íntima de começar a pensar antes de escrever para um grande público. O fato é que há, tanto nas universidades quanto nas escolas, professores que fazem a diferença e que marcam a nossa trajetória de estudante. Mas será que a capacidade desses indivíduos pode ser mensurada ou deve ser restringida pela posse ou não de um diploma na área específica em que atua? O medo da valorização do notório saber é o medo de que a competência seja aquilatada por ela mesma e não por papéis que mantêm uma máquina burocrática gigante que atropela como um trator as potencialidades criativas ainda em germe.

