O final de semana marcou a realização das primeiras eleições após o coração da maior crise política da Nova República, com o colapso do regime lulopetista. Havia grande curiosidade para saber como as forças políticas começariam a se comportar nesta fase de rearranjo de posições. O que se pode afirmar, em caráter geral, com absoluta segurança, é que o Partido dos Trabalhadores foi o grande derrotado do domingo, 2 de outubro.
O número de prefeituras conquistadas pela legenda de Lula e Dilma sofreu uma redução drástica. Considerando apenas as capitais, o PT ganhou só em Rio Branco no primeiro turno e, entre as 18 que terão disputa de segundo turno, ainda tem chances apenas em Recife, onde a disputa conta com o petista João Paulo contra Geraldo Julio, do PSB. É, como destaca a Veja, o pior resultado do PT em 20 anos. O partido retorna aos índices dos anos 80 e 90, quando começava a construir sua ascensão nefasta. O antipetismo é uma realidade, e é o maior vencedor dessas eleições.
O PMDB também sofreu uma queda nas prefeituras, e perdeu sua menina dos olhos, o Rio de Janeiro, e o PSDB ganhou capilaridade, mas nada choca tanto quanto a queda brutal do PT. Ou chocaria, para quem viesse de uma máquina do tempo de um passado recente para o dia de hoje e observasse os resultados. Desnecessário dizer: as forças do atraso permanecem aí e, como veremos, não deixaram de obter suas vitórias. A derrota do PT, porém, prova que, ao menos em relação à legenda e ao seu legado, a maioria da população brasileira entendeu o recado dos fatos e identificou o principal culpado objetivo pela sua situação.
Destacando alguns pontos que marcaram o domingo:
. ACM Neto, do DEM da Bahia, foi reeleito ainda no primeiro turno para a prefeitura de Salvador, com mais de 70 % dos votos válidos. Candidato, aliás, pelo partido que Lula disse querer ver “varrido do mapa”. O Partido Novo, legenda nova que procura sustentar ideias liberais e defender a redução da máquina do Estado, conseguiu eleger quatro vereadores no país em sua estreia nas disputas municipais. Egresso do Movimento Brasil Livre, Fernando Holiday se elegeu vereador em São Paulo, também pelo DEM. Outros candidatos de viés liberal, mesmo sem conseguir a eleição, obtiveram votações expressivas.
. Grande destaque para São Paulo, onde o publicitário João Dória venceu a eleição em primeiro turno, com cerca de 54 % dos votos, deixando para trás o infeliz prefeito atual petista, Fernando Haddad. O PSDB governa agora o estado e a cidade de São Paulo, mas, a despeito de estar há um bom tempo filiado ao partido, João Dória não pareceu um tucano típico. Seu discurso de gestor, com a vida encaminhada na iniciativa privada, afirmando que irá valorizá-la em seu governo, sugere uma visão mais liberal mesmo do que a média em sua legenda social democrata. A habilidade retórica, caso se associe a um governo que diga a que veio, pode projetar Dória a voos mais altos no futuro do Brasil. Apesar do partido, não posso deixar de concordar com aqueles que veem em Dória, a despeito do tom prematuro da afirmação, um possível candidato interessante à presidência da República mais à frente. A conferir.

. Volto as atenções para o Rio de Janeiro, onde posso falar com mais propriedade, porque é minha cidade e vivi os acontecimentos por aqui. O resultado final, antes de mais nada: haverá segundo turno entre os dois Marcelos, Crivella (PRB) e Freixo (PSOL), respectivamente, 27, 78 % e 18, 26 % dos votos válidos. Logo abaixo, tivemos Pedro Paulo (PMDB), com 16,12 %, e Flávio Bolsonaro (PSC), com 14 %. Em primeiro lugar, cumpre ressaltar o prêmio de incompetência do ano a ser conferido ao PMDB de Eduardo Paes. Seu candidato, um fantoche de sorrisinho falso, provou-se tão ruim, mas tão ruim, que sequer com o apoio de toda a máquina do partido no estado, conseguiu avançar para o segundo turno. Cai a hegemonia do PMDB na prefeitura, e isso é praticamente a única coisa que há para comemorar. Flávio Bolsonaro, por outro lado, teve um desempenho surpreendente; apesar de uma participação relativamente vacilante nos debates e de uma série de dificuldades na campanha, ele foi, no mínimo, subestimado pelas pesquisas de intenções de voto, superou todas as expectativas e ficou em quarto lugar, com pequena diferença para Pedro Paulo e Freixo. Induzidos pelas pesquisas, muitos cariocas distribuíram seus votos para Pedro Paulo ou Índio da Costa, na esperança de emperrar a ida de Freixo ao segundo turno; o quanto isso pode ter prejudicado as chances de Bolsonaro, é difícil dizer, mas de qualquer forma, um eleitorado de viés liberal conservador deixou seu recado expressivo. Não o suficiente para evitar que o segundo turno seja travado entre Satanás e Belzebu – de um lado, um candidato apoiado por Anthony Garotinho, ligado a Edir Macedo (o líder da Igreja Universal, defensor do aborto e simpático ao PT), amigo de Lula e que elogiou Brizola e Darcy Ribeiro nos debates; do outro, o extremista de esquerda do PSOL com seu culto à demagogia e à degradação moral e simbólica da sociedade, de uma legenda conivente com a tirania socialista e bolivariana. Entre o tiro no estômago e o tiro no pé, novamente ficamos; eu prefiro o tiro no pé, e acho que esse tiro é o Crivella.
. Duas notinhas extras: o Sul realizou, em caráter não-oficial, um plebiscito no mesmo dia das eleições, com votação voluntária, para discutir uma possível separação (inconstitucional) do Brasil. Já dei minha opinião a respeito aqui. Já na Colômbia, com mais de 50 % dos votos, o povo colocou o governo numa sinuca de bico, porque rejeitou o acordo de paz com as FARC, que transforma os terroristas em partido político. Prova de que os colombianos, majoritariamente, ao contrário do seu presidente, não querem contemporizar; querem que bandido seja punido, e não candidato a cargo público.

