Em quase toda eleição, particularmente na presente conjuntura infeliz do pleito à prefeitura do Rio de Janeiro, a mesma conversa nos perturba: “como você pode votar num sujeito que representa as oligarquias políticas tradicionais? Como você pode votar em alguém que tem ligação com um antigo governador que foi alvo de severas acusações? Como você pode apostar em um nome suspeito?”. É perfeitamente possível entender essas perguntas, que, na maioria das vezes, nós mesmos fazemos diante de antigas lideranças cuja falta de compromisso com a ética e a correção já está fartamente demonstrada e, não obstante isso, são reeleitas por vezes sucessivas.
O óbvio é que o sistema político, com o predomínio de certos caciques sobre as legendas estabelecidas, das quais se fazem donos e leiloeiros, favorece a sua continuidade e os mantêm ditando os rumos e as opções. Isso é frustrante, mas já se começa a experimentar um esforço para modificar esse quadro com o ingresso de novos expoentes, com melhores ideias e opiniões mais arejadas. Acima de tudo, porém, percepções modestas; os novos líderes precisam saber que não é seu papel reescrever o mundo. Ora, quando dentro das opções viáveis, ambas indesejáveis, precisamos selecionar alguma para proteger o mínimo possível do nosso futuro próximo ou remoto, mais vezes do que gostaríamos somos confrontados com o dilema de escolher entre as velhas lideranças, os escolhidos pelos chefes provincianos, aqueles que não inspiram a mínima confiança, mas também não despertam o temor por qualquer transformação profunda; e alguns nomes novos (ou supostamente novos), que se propõem imaculados, impolutos, renovadores, mas que por isso mesmo se acreditam preparados para reescrever a sociedade, reinventar a cidade ou até o país, implementar um projeto do zero em total oposição a “tudo que aí está”. Os messias.
Marcelo Crivella, como já cansamos de dizer, está ligado à Igreja Universal de Edir Macedo e a Anthony Garotinho. Impossível negar isso, impossível achar que isso é maravilhoso. Contudo, Marcelo Freixo – que, segundo O Globo e a Veja, prepara um documento similar à Carta aberta ao povo brasileiro, com que Lula iludiu o povo para dar seu impulso inicial ao projeto petista de perpetuação no poder -, desfraldando as bandeiras do PSOL, representa o Messias salvador, o arauto da ideologia do futuro (que não é mais que o papagaiar de um passado assassino). Ele ecoa, ainda que tente disfarçar, a conivência com a tirania bolivariana, a cumplicidade com a deformação da História, a falta de senso da realidade quase falimentar com o ensejo ao aumento grotesco dos gastos públicos.
A verdade que estamos tentando dizer é incômoda, é desagradável, e faz parte do quadro de degradação das opções e perspectivas que se apresentam para nós, notadamente em nosso Rio de Janeiro, há não poucos anos. Contudo, o conservador, a “direita”, devem fazer o papel do chato que apela à voz da razão contra os purismos dos sonhadores sem freios. É para isso que existimos, esse é talvez nosso maior papel no jogo político. Que assim seja, então; gostem ou não, eis: a ideologia destrutiva da esquerda radical é pior do que a própria corrupção em si, considerada em sua manifestação habitual do Oiapoque ao Chuí e em seu fisiologismo.
Suponhamos, imaginemos, concebamos – e não creio que isso esteja sequer próximo da realidade – que figuras como Marcelo Freixo fossem cheias de maravilhosas intenções, tivessem o coração bom e honesto, mas acreditassem piamente que o melhor modelo de governar é aquele baseado em suas alardeadas convicções estatizantes e socialistas. Ainda assim, isso seria muito pior que o político tradicional brasileiro de ambições questionáveis, mas com um projeto de abrangência ideologicamente modesta. Não nos levem a mal; a corrupção é absurda, o Petrolão é um desastre, o rombo que essa corja de ladinos provoca é incalculável do ponto de vista moral, inadmissível; a corrupção mata, principalmente quando retira recursos da combalida saúde pública. Contudo, a Nova Matriz Econômica e as “pedaladas” fiscais de Dilma Rousseff são, em escala, muito mais decisivas e danosas à saúde socioeconômica do país do que o desvio de verba de um eventual prefeito de uma cidade qualquer, por mais que assumamos que as intenções são boas (e, frise-se, não são).
O corrupto fisiológico quer se aproveitar do sistema para seu benefício pessoal, mas o próprio sistema precisa existir e funcionar para que ele tenha de onde colher esse benefício. A esquerda, a Ideologia, por outro lado, se propõe como divindade (decaída). Quer recriar o mundo, agigantar-se para cima do homem comum, substituir-se às instituições e à autonomia individual, em busca de um mundo que só existe em sua concepção abstrata. Ela também usa a corrupção como meio (não nos esqueçamos de que Mensalão e Petrolão estavam dentro da lógica de um projeto de poder, também ideologicamente justificado), e leva a efeito a corrupção mais nefasta, que é a corrupção da realidade, o destronar dos fatos, a santificação da mentira; mas o que ela consegue com seu exército de militantes lobotomizados e sua dimensão prática em políticas públicas insensatas e que desprezam as mais basilares leis econômicas é muito pior do que o que conseguem os meliantes presunçosos e banais da nossa política cotidiana.
Melhor seria se tivéssemos as melhores opções; não as temos, não no número que gostaríamos, sequer à disposição QUANDO gostaríamos. Havendo a necessidade de fazer uma escolha, aceito ser apedrejado por dizer uma verdade irritante e repulsiva, mas estamos falando de dois males bem conhecidos, e sabemos que um deles é muito pior do que o outro.

