Fala-se muito agora de identidade nacional e, com isso, crescem os movimentos nacionalistas em defesa de suas fronteiras, mas mais importante que as identidades assim referidas é a identidade de sentido de um progresso intelectual e moral que nos une, a nós ocidentais, desde a Grécia Antiga. Afirma Werner Jaeger, na introdução do seu monumental livro Paidéia: a formação do homem grego, que “a nossa história – na sua mais profunda unidade – ‘começa’ com a aparição dos Gregos.” Há uma unidade de sentido entre todos os povos ocidentais e a Antiguidade Clássica, uma história “que se fundamenta numa união espiritual viva e ativa e na comunidade de um destino […] uma comunidade de ideais e de formas sociais e espirituais que se desenvolvem e crescem independentes das múltiplas interrupções e mudanças.”
Essa unidade de sentido que perpassa o desenvolvimento espiritual do Ocidente constituiu-se sem que houvesse a pretensão de uma única pessoa elaborá-la porque esse é simplesmente o movimento espiritual próprio da humanidade como um todo e não o movimento intelectual de um indivíduo qualquer. Dentro desse contexto no qual estamos inseridos, um único indivíduo se projeta como ponto de ruptura e modelagem da história. Chama-se Jesus. Sua mensagem, sabemos, dividiu a história secular traduzindo assim a exponencial curva que se verifica a partir dele em termos de moralidade e dignificação do ser humano. O significado histórico, portanto, do advento do Cristo é o que precisaria primeiramente ser resgatado no que tange às tentativas de resgatar a nossa própria imagem perante nós mesmos, o que em nada, por óbvio, diminuiria o significado eterno da sua palavra. Daí a importância da relação explicitada por Jaeger na Paidéia nos seguintes termos:
O início da história grega surge como princípio de uma valoração nova do Homem, a qual não se afasta muito das ideias difundidas pelo Cristianismo sobre o valor infinito de cada alma humana nem do ideal de autonomia espiritual que desde o Renascimento se reclama para cada indivíduo. E teria sido possível a aspiração do indivíduo ao valor máximo que os tempos modernos lhe reconhecem, sem o sentimento grego da dignidade humana? É historicamente indiscutível que foi a partir do momento em que os gregos situaram o problema da individualidade no cimo do seu desenvolvimento filosófico que principiou a história da personalidade europeia. Roma e o cristianismo agiram sobre ela[1].
Percorrer com lucidez a trajetória da nossa civilização, compendiando as conquistas intelectuais, morais e espirituais das quais somos partícipes, servir-nos-á de escudo protetor contra os discursos dissolventes que grassam no interior da nossa própria cultura; discursos esses que possibilitam ao movimento fundamentalista do Islão o assenhoramento moral da estrutura espiritual que ficará vazia quando o niilismo ocidental atingir – se é que já não atingiu – o seu ápice. É necessário reconquistar paulatinamente a nossa própria história das mãos enganadoras daqueles que viram na construção do ideal do ocidente apenas uma concessão ao desvario de mentes religiosas e fanáticas, pois fanáticos são antes aqueles que, tecendo intelectualmente teorias supostamente morais, desobrigaram-se da moral individual que sustenta a cada um de nós e a qualquer sociedade minimamente desenvolvida. Falo aqui do materialismo histórico, do marxismo e suas mil facetas que não escondem, porém, o solo débil de onde provêm: a carência de uma religiosidade autêntica e de uma espiritualização sincera por meio da qual qualquer indivíduo poderá dar-se por capaz de sustentar em si a moralidade negada por aqueles que se julgam capazes de construir – com tal negação – um mundo mais justo e moral.
Esse paradoxo do pensamento socialista não parece ter sido bastante explicitado e por isso mesmo fizemos questão de frisá-lo em textos anteriores. Agora, porém, sentimos a necessidade de reaver o terreno perdido da interpretação histórica e mostrar que há, que sempre houve, uma real aliança entre a civilização ocidental antiga e a atual, mesmo que essa linha tenha se perdido no tempo entre tantos despautérios teóricos. Sendo assim, uma linha de pesquisa para aquele que busca não apenas sua identidade nacional, mas também a sua identidade humana, seria o reestabelecimento dos vínculos entre o humanismo grego e o humanismo moderno, sustentando assim a pessoa humana na sua transcendência e valor por intermédio do resgate da história da construção desse valor.
Esse valor e essa dignidade, essa humanidade ideal está, sem dúvida, presente nos pressupostos jurídicos do Ocidente. Eis o porquê de insistirmos nas relações entre Cristianismo e democracia – não no sentido demagógico e deturpado que foi difundido pela Teologia da Libertação, mas no sentido mais sutil e profundo da relação entre a pregação do Evangelho e o ideal moderno de justiça que, sendo moderno, carrega em si a sua trajetória imensa de lutas e de conquistas, mas que sendo eterno traz em si a palavra perene do Cristo, que ressoa em nossos corações.
Somos cristãos e, como tais, somos afeitos à liberdade e ao direito; somos cristãos e, como tais, somos abertos à tolerância e à fraternidade; somos cristãos e, como tais, haveremos de enfrentar e afrontar o terror que nos infligem sejam os islâmicos, sejam os comunistas, sejam os déspotas populistas que, de tão deturpados em suas intenções, fazem do pão que ofertariam aquilo de que carece a população que geme sob os seus pés.
[1]JAEGER. Paidéia: a formação do homem grego. p. 10


1 comentário
Límpido, brilhante, magnífico este texto da filósofa Catarina Rochamonte. Disse Jesus: “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (João 9:5). Pois, muitas luzes Jesus envia ao mundo…