AVISO: O ARTIGO ABAIXO CONTÉM MUITAS REVELAÇÕES SOBRE O ENREDO DO FILME ABORDADO.
Um filme do crepúsculo do século passado, de 1999, Beleza Americana, dirigido por Sam Mendes e escrito por Alan Ball, não possui beleza essencial.
É uma película muito bem dirigida, roteirizada, com cenas bem encaixadas e montadas, fazendo a fluidez do enredo ser gostosa e envolvente. A atuação é praticamente impecável: Kevin Spacey, mas sobretudo Thora Birch e Wes Bentley, estão nas alturas com suas interpretações de personagens. A produção é imaculável. O dinheiro foi muito bem gasto, isto é, conseguiram uma estética (não no sentido original da palavra, “aisthésis”, e sim na acepção de aparência) muito bonita em todos os sentidos para o filme. Ele não apenas aparenta ser um bom longa-metragem, ele é um bom longa-metragem.
Infelizmente, nem tudo é uma banheira de rosas.
O filme é feio. Ele possui tudo para ser uma boa película: atuação, direção, produção, edição, roteiro, fluidez de enredo… Mas é um filme horrível. O pecado existente em Beleza Americana está presente na essência central do filme, em sua metalinguagem, no arranjo das mensagens que se quis passar. Vendo esse filme, principalmente após as eleições americanas, deu para notar o como e os porquês de os estadunidenses, em um bom número, apoiarem histericamente uma pessoa do nível de Hillary Clinton. Foram lobotomizados por discursos muito bem feitos e belos de se ver. O filme não foi largamente aclamado à toa, é uma verdadeira obra de arte. Perversa arte…
O filme é uma desventura ao nível de Medeia, de Eurípedes. Lembra muito uma Tragédia Grega por conta do desfecho e da linha que leva até ele, com sangue, ímpeto assassino, loucura pecaminosa, paixões vermelhas. A peça “Medeia” conta a história da mulher de Jasão que, ao ser rejeitada por causa de uma princesa, planeja (e consegue) matar os próprios filhos para ferir o coração do ex-marido. É uma história muito boa de ler, apesar de ser terrível, e sem uma “moral da história” – uma vez que, ao final da obra, Medeia se safa ficando com o rei de Atenas, Egeu.
Mas com diferença a Eurípedes, as mãos que produziram tal filme não têm a qualidade do dramaturgo grego. Qualidade na essência da obra. Se Medeia conta a história de um horror, sua meta é contar uma boa história, não fazer uma apologia para a ganância, filicídio e a ideia de que se pode fazer tudo para concretizar seus interesses. Matar os filhos para se vingar de um ex-marido é um escândalo, um pecado, tanto para nós como para o público de Eurípedes na Grécia pagã. A real intenção de Medeia era narrar a tragédia de uma maneira bela, transmitir um bom enredo, onde a beleza pode ser posta até mesmo em algo horrendo. A forma guarda a essência, portanto, se o belo se exalta, o bem é visto.
Em várias obras pode-se identificar essa característica. Mesmo em arcaicos poemas épicos e sangrentos isso se resguarda, tal como na Saga dos Volsungos, ou em poesias mais recentes, nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e afins. Infelizmente, Beleza Americana não se enquadra em uma obra que tem a valência na forma. A proposta da película não é essa – se fosse, seria um filme para colocar em um pedestal.
O enredo conta a história de duas famílias, os Burnham e os Fitts. Logo de início, entende-se toda a crítica que o filme vai seguir e passar até o seu fim: é algo contra a sociedade consumista (materialista, até) americana. Mostra toda a beleza do “sonho americano” como uma mera maquiagem, uma pintura tóxica que envenena o Homem e sua estrutura familiar. A família principal, a dos Burnham, é a caricatura de um casamento infeliz, sendo composta de um articulista insatisfeito com a vida e o emprego, uma vendedora de imóveis fria e igualmente descontente com a vida; a filha do casal, uma adolescente passando para a fase da juventude, vítima de pais incapazes e uma vida repleta de bens, mas sem nenhum conteúdo.
Os Fitts são compostos por uma mãe impotente, minada de todas as forças, aparentemente, pelo marido. O coronel Frank Fitts, o pai da família, é um controlador inato. Seu filho, que se meteu com drogas aos quinze anos de idade, levou uma surra do pai quando este soube que fumava maconha, foi para um colégio militar, quase matou um rapaz (a troco de nada) lá e, por fim, foi jogado em uma clínica pelo pai para um tratamento; porém longe de se “curar” de seus problemas, Ricky Fitts ainda se droga e faz pior: tornou-se traficante de drogas.
Ambas as famílias são afetadas por facetas do American way of life. A primeira citada afoga-se em uma sociedade consumista, que oferece como norte para a vida as possibilidades de ter bens materiais, confundindo esse poder de compra com a felicidade em si. A segunda família é a patriarcal. Enquanto nos Burnham existe até uma igualdade entre o esposo e a esposa, os Fitts são governados por um patriarca violento. Mas uma hora a pressão sempre acaba estourando.
Por conta de seu tipo de materialismo, o pai da família Burnham se vê em uma crise existencial. A esposa é dura e gelada tal qual uma pedra de gelo, a comunicação com a filha é defeituosa e fraca. Tudo isso causa uma espécie de reação autárquica no personagem Lester Burnham.
A reação forte de Lester é retirar todo o peso de sua família e dedicar-se única e exclusivamente para si mesmo, para seu próprio prazer. Essa autarquia de tipo hedonista tem como consequência a dissolução do que restava da estrutura de sua família. O estopim para a mudança no personagem é a visão de uma bela mulher, a melhor amiga de sua filha (Jane Burnham), Angela Hayes. O homem fica apaixonado, excitado e entregue na primeira vez em que vê Angela, durante uma apresentação das líderes de torcida na escola da filha.
Em suas fantasias, Lester Burnham sempre imagina a senhorita Hayes seminua, com apenas pétalas de rosas tapando suas partes íntimas. A explosão da luxúria atiça algo dentro do personagem, fazendo-o rever toda a vida. Ele se demite (não antes de subornar seus chefes para conseguir um ano de salário integral), compra um carro novo, passa a malhar para impressionar Angela… e termina de atear fogo em sua relação com a própria família.
Do outro lado da trama, a família Fitts possui um filho, no mínimo, estranho. Ele vê o mundo de uma maneira artística, enxergando Deus e a beleza em cadáveres, admirando-se com filmagens da mãe parada como uma estátua, na sala de jantar, ou a vendo carregando sacos plásticos. O olhar do sujeito é vidrado, quase sem expressão na maior parte do dia; além do fato de ser um stalker, filmando a filha de Lester Burnham sempre que pode. Ricky Fitts possui um pai bruto, amante de armas, militar e que tem pavio curto. A trama mostra Ricky como um sujeito pacífico, bom, que ama a família, mas que sofre problemas por causa da personalidade do pai.
Frank Fitts, além do autoritarismo paterno, é homofóbico, rejeitando as boas vindas do casal gay – os únicos que se importaram dar boas vindas a eles –, quando se mudaram para a nova vizinhança. Para ele, as “bichas” os perseguem, sendo sempre arisco e bruto ao tratar do assunto.
Há também Jane Burnham, que com sua melhor amiga, Angela, vive e sofre as tensões da vida americana. Angela é engajada e crente em seu lugar como uma “notável”, tendo horror para com a normalidade, execrando-a. Ela quer ser modelo, por conta de seu corpo, e possui uma vida sexual intensa e desmedida. Jane – virgem, na maior parte do filme – é quieta, mesmo não sendo alheia aos seus problemas familiares. Acaba se apaixonando por Ricky e ambos compartilham sonhos e problemas um com o outro.
A tragédia de fato é causada por essa concepção de amor e vida que rodeia os personagens. O consumismo, o hedonismo, o preconceito e as superficialidades terminam por desgraçar mais ainda a vida já desgraçada dos personagens. Mas… qual é o problema disso?
Não é verdade que viver pensando apenas em bens materiais, na carreira e em meios de arranjar esses bens (afora levar uma vida preconceituosa, metódica e excessivamente rigorosa), esvaziar a afeição e o amor entre as pessoas e etc., não é algo ruim? Mas é claro que é.
Como dito em parágrafos anteriores, o filme trata de um caminho até a desgraça. Todos os personagens principais levam o assassinato, que marca o final do filme, a acontecer – seja de maneira direta ou indireta. Uma vez que o hedonismo de Lester leva-o a voltar a fumar maconha, ele faz contato com Ricky Fitts, que vende de boa vontade a droga para o seu sogro. O pai de Ricky desconfia de algo e, vendo algumas das fitas de seu filho, assiste a uma filmagem onde Lester aparece nu e malhando, gravação esta feita ao acaso por seu filho. Por uma coincidência, ele vê o filho na garagem e, por conta de uma má interpretação do que vê, pensa que o filho está se prostituindo, recebendo dinheiro de homens para que faça o serviço.
Expulsando o filho de casa, Frank perde o controle de si. Ricky vai para a casa de Lester e pretende fugir com Jane para Nova York. Somando ao desastre, a melhor amiga de Jane quer – e apenas para mostrar que pode fazer isso – fazer sexo com Lester. Uma vez que foi Angela, sobretudo, que despertou a autarquia de Lester, nada mais comum que ele aceitar o sexo de Angela, contudo, ele para. Angela mente e diz para ele que ela é virgem[1] e, por isso, ele desiste e repensa, novamente, sua vida.
A esposa, a filha, a família. Lester Burnham pensa em tudo, vendo a verdadeira beleza em suas memórias, em uma foto antiga da família num porta-retratos. Ao que parece, o personagem está se redimindo, até que… Frank Fitts dá um tiro em sua nuca.
O patriarca da família Fitts não era apenas um militar bruto e preconceituoso (sempre de acordo com o que o filme passa), mas também um homossexual “no armário”. Antes de matar Lester, Frank aparece em sua garagem chorando, o abraça e tenta beijá-lo. Expulsar e bater em seu próprio filho acaba afetando emocionalmente o personagem, então ele “se solta” com aquele que crê ser um cliente sexual do filho. Lester o dispensa, Frank volta para casa, pega uma arma de sua coleção e dá fim à vida de Lester Burnham.
A falta de amor, a ilusão e o ódio compunham a vida de Frank Fitts. Ele não hesitou em agredir e mandar embora o único filho que tinha, aquele que ele, possivelmente, mais amava; não demonstrava interesse em aceitar a sexualidade alheia, tampouco a sua própria, semeando desgosto e preconceitos em seu meio…
O problema do filme não está em sua forma, mas na “seta” que aponta o seu significado central, a mensagem que quer passar. Beleza Americana fala, sobre tudo, do amor, da falta dele.
Ignorar e repudiar o amor impediu Frank de se aceitar como homossexual, de respeitar seu próprio filho e sua esposa, de fazer a família Burnham entrar em crise. Lester só foi assassinado pela falta de amor presente em Frank, pela homofobia que impelia a vida do personagem. Linda mensagem… forte mensagem… se não fosse falsa.
Lembra-se do casal homossexual? Ele é mostrado como a “família” (as aspas são por minha conta) mais correta e saudável do filme. São felizes, se exercitam, são simpáticos, agradáveis e não mostram nenhum preconceito ou discriminação. Lindo! Pena que esse (importante) ponto na crítica do filme é justamente o que desaba toda a essência da película.
Amor, aqui, é entendido como compreensão, todavia, sobretudo por aceitação. O casal gay é o símbolo da suprema contradição do American Way of Life, pois não se identifica com ele, contudo, é mais bem-resolvido, menos tóxico e (com toda certeza) não possui o ódio que corrói e compõe a vida de seus vizinhos. Mas o maior problema desse tato com o amor é justamente a falta de realidade do amor. O diretor e o roteirista colocaram o edifício que é o Beleza Americana em cima de fantasias.
Sejamos francos: se esse longa-metragem é uma crítica para a sociedade americana, então as famílias americanas cristãs, ou não cristãs, são assim? Ele critica o patriarcado, porém, quantas famílias realmente se sentem (ou efetivamente são) oprimidas por sujeitos como Frank Fitts? É um exagero crítico para a sociedade americana, isso sim. E um exagero imposto.
O que você faria se descobrisse que seu filho, ou sua filha, está se prostituindo para ganhar alguns milhares de reais? Deixaria assim mesmo? Tanto faz a prostituição, é uma profissão igual às outras? Desculpem-me (ah, não, não me desculpem não; faria isso de qualquer jeito)… se descobrisse que meu filho é um prostituto, minha reação inicial seria a mesma de Frank Fitts: tirar o sujeito de minha casa. É certo que não assassinaria ninguém, mas Frank Fitts não é um pai de família conservador comum. Ele é uma exteriorização forçada colocada em um personagem com claros problemas emocionais e de autocontrole.
O filme faz uma apologia ao “se ame, deixe livre”, fazendo questão de obrigar a todos a aceitar aquilo com que não concordam, de não gostam. Ninguém é obrigado a aceitar nada, a achar nada normal. Aceitação extremada não é amor, é um vício de alguém que tem medo de confrontos simples. Quando alguém não aceita seu estilo, você, sua personalidade, religiosidade, sexualidade e afins, o que se pode fazer? Chorar por amor e aceitação do outro – ou quem sabe… impor uma lei obrigando todos a aceitarem, hein?
Quem compôs o filme não sabe o que é amor, não na realidade. A mensagem da película é digna de um romance idealizado.
Por isso disse, no início do artigo, que produções como essa são responsáveis por lobotomizar uma nação. Elas situam o bom e o mau, o certo e o errado, o feio e o belo, de formas afirmativas e revolucionárias. Não é a antiga família americana, seja a consumista (que já tem seus aninhos), ou a tradicional cristã, patriarcal e etc., que trará a felicidade… será o amor contemporâneo, a aceitação forçada de todos os que dizem que amam, apenas por dizerem que amam.
Filmes como Beleza Americana, nas entrelinhas, criam um vilão e a forma de combater esse vilão na sociedade. A massa que consegue captar tal crítica engloba sua cosmovisão política e ideológica nisso. Não é à toa que, de 1999 para cá, uma boa leva de justiceiros sociais iniciaram leis, protestos e, mais recentemente, violências quando questionados.
Duvida? Veja bem: a essência de Beleza Americana permite alguma queixa concreta sem fazer o queixoso parecer alguém que lembre, ou, seja simpático a… Frank Fitts?
Você sabe que não.
[1] Ela assim faz porque fora confrontada por Jane e Ricky. Chamaram-na de feia, normal. Isso abala a personagem de algum modo, fazendo-a repensar em tudo no último momento.

