Quando um regime autoritário, sustentado no assalto às instituições e na confusão propositada que impõe à sociedade, se vê acuado, aciona de imediato sua “tropa de choque” de privilegiados para emplacar a retórica de que os insatisfeitos revoltados é que defendem a tirania. No estupidamente chamado “Ato pela Legalidade Democrática”, organizado no Teatro Tuca, na PUC-SP, a filósofa e propagandista do PT Marilena Chauí exerceu o papel com requintes caricaturais.
Em entrevista para o esquerdista Carta Maior, Chauí afirmou que as manifestações de rua contra o governo, como as do último dia 13, são resultado de um “trabalho ideológico que é obra da classe média” – aquela mesma que Chauí, ganhando um salário nada modesto, disse odiar – que se lança em “busca de uma figura que universalize a sociedade e passe por cima de todas as divisões, conflitos e contradições”, o que “é a marca de uma sociedade autoritária, e também um risco de se estar produzindo um caldo de cultura fascista”. Ao constatar que tucanos foram vaiados em São Paulo, não podendo emplacar a narrativa típica do petismo de que as manifestações são operadas pelo PSDB, Chauí se disse ainda mais preocupada, porque “ficou evidente que está tomando as ruas uma multidão que não está articulada a nenhum movimento social, popular e partido político, é uma multidão sem freio e trava de segurança que está à procura de um líder, que apareça com essa universalidade, essa transcendência e poder de unificação que impede a existência efetiva de contradições”. O grande problema, para a mente delirante de Chauí, é que nossas manifestações não têm “nenhum plano, proposta ou programa”.
Se imaginássemos por um instante que Chauí é uma analista honesta e que realmente acredita no que está dizendo – o que, me desculpem, não me passa pela cabeça nem por um instante -, seria forçoso reconhecer que ela é uma intérprete absolutamente incompetente da realidade social das manifestações. Das homenagens a Sérgio Moro, que, se algumas vezes exageradas (como é de praxe no povo brasileiro, já foi feito de algum modo com Joaquim Barbosa, e com o próprio Lula quando subiu ao poder, e nem por isso as pessoas desejaram o fim das instituições e o estabelecimento de um Mussolini tropical), nada mais são do que o reconhecimento de um trabalho e o apoio necessário a um processo investigativo e judicial ameaçado por interesses poderosos que querem obstruí-lo, ela deduz que os manifestantes querem alçá-lo a “Führer” ou líder supremo da nação, uma derivação descabida. Muitos dos manifestantes, entrevistados por pesquisas de opinião, mencionaram candidatos diferentes em que votariam numa possível eleição realizada hoje, dividindo-se entre o pusilânime Aécio Neves, Jair Bolsonaro, Ronaldo Caiado e até, infelizmente, Marina Silva, o que por si só já revela a ausência de unanimidade entre eles e a ausência de qualquer pretensão totalitária de suprimir as instituições republicanas.
O fato de as manifestações não terem uma proposta de país nem um programa de governo também deriva disso; elas não defendem um partido político e não querem assumir o poder. São manifestações de repúdio a uma quadrilha que se apossou do Brasil, de incentivo ao aprofundamento da justiça para que, DENTRO DA LEI E DA ORDEM, despedace um esquema criminoso de poder, e um incentivo ao PEDIDO DE IMPEACHMENT de uma presidente da República. Seu objetivo é retirar Dilma a partir de um pedido constitucional, não defender um nome específico a ser posto em seu lugar, passando por cima da Constituição. Chauí deve estar acostumada a manifestações monopolizadas por partidos e movimentos de esquerda, como as multidões (muito menores, aliás, digam o que disserem) que corriam atrás do PT nos anos 90 e pediam o impeachment do ex-presidente Collor – multidões que também não estavam ali para fazer propaganda de um programa de governo, frise-se.
O pior de tudo, porém, foi dito na palestra. Chauí acredita que essa “onda fascistóide” que reage ao combate à desigualdade social e às “conquistas populares” – apostando na manjada retórica de que os manifestantes são todos endinheirados, como se ela mesma fosse uma espécie de mendiga – precisa ser detida. Para tanto, “não vai bastar que a gente vá à rua dizer não vai ter golpe, nós temos que ter formas de luta, intervir no Legislativo, intervir no Judiciário, trabalhar todo o campo da opinião pública que não foi ainda tomado por essa avalanche da extrema direita”. Seja o que for que Chauí acredite significar o seu “trabalho da opinião pública”, preocupa-me sobremaneira a proposta de “intervir no Legislativo” e “intervir no Judiciário”. Incomodar-se com o funcionamento dos poderes republicanos quando eles contrariam seus interesses é um comportamento típico, vejam só, das tiranias populistas e dos “fascistas”!!!
Marilena Chauí prova que os verdadeiros alvos de sua crítica deveriam ser ela própria e outros intelectuais e agentes sociais que robustecem um programa de poder que, este sim, não admite contestações e discordâncias, quer da justiça, quer do pensamento popular; que enxerga no “diferente” o inimigo reacionário a ser destruído, e considera que só fazem parte do povo brasileiro aqueles que o abraçam. Hoje eles estão agindo com base no desespero: sabem que vão perder. E já perderam. Enquanto, porém, o cadáver permanecer insepulto, teremos que ouvir chiliques como o da louca da USP.

