Paidéia é uma palavra grega que não encontra em outra língua um termo equivalente que o esgote, podendo, entretanto, na sua abrangência, aproximar-se de termos como educação, civilização, cultura, literatura, tradição. A Paidéia grega nos fala, pois, de um ideal de cultura como princípio formativo e do ideal de formação de um tipo elevado de homem. A história da Paidéia é, então, a história das transformações dos valores na Grécia, o que equivale ao processo histórico e espiritual por meio do qual os gregos elaboraram o seu ideal de humanidade.
Os gregos aspiravam à forma, ao modelo, à ideia. Educadores, artistas, poetas, legisladores e filósofos aspiravam à forma humana ideal. Normas que regiam a vida social e individual eram derivadas da percepção das leis profundas que governam a natureza e o processo de formação da juventude se dava por meio da apresentação ao espírito da imagem do homem tal como ele deve ser. Mas o ideal grego de homem era dinâmico e não estático, tendo sido capaz de acolher progressivamente as transformações enriquecedoras do seu desenvolvimento histórico. É assim que de um conceito de arete (excelência, virtude) baseado no heroísmo, na destreza e na força e de um ideal agonístico em que se busca ser sempre o melhor e distinguir-se dos demais, passa-se a um ideal mais refinado do ponto de vista espiritual quando a justiça passa a ser considerada a arete por excelência.
Desde a constituição da Polis já pairava entre os cidadãos um sentimento nobre de elevada estima pelo direito e de amor pela justiça. Se na Grécia cantada por Homero a juventude se modelava pelo exemplo do herói Aquiles, nos tempos áureos da democracia ateniense buscava-se formar antes a juventude no ideal político, aproximando-se da formação pessoal e educação do cidadão. Ocorre que no meio desse processo da formação cultural grega aparece um indivíduo cujo discurso e exemplo provocam uma verdadeira revolução na concepção de saber que será determinante na história da filosofia ocidental e na história do próprio Ocidente. Sócrates, que seria, na opinião de Werner Jaeger, “o mais espantoso fenômeno pedagógico da história do Ocidente”, afirmará sua fé no valor infinito da alma de cada homem, fazendo com que a Grécia se defronte com uma nova força de autoafirmação, com a consumação da inversão de valores que converte a força heroica em força interior, indo do heroísmo externo à conquista de si.
Se o mais específico do homem é sua alma imortal, então é no cuidado dessa alma que a Paidéia socrática encontrará seu fundamento. E essa Paidéia é a exigência de uma vida superior, uma vida cuja condição é posta em questão sob a perspectiva de sua adequação ou não aos bens supremos da vida. Não se trata mais aqui de oferecer uma cultura superior para a formação do estadista, como objetivavam os sofistas, mas de oferecer ao indivíduo um remédio contra a ignorância de si mesmo e da verdadeira finalidade da vida, que é melhorar a alma, tornando-a mais bela e apta para o conhecimento do Bem. Essa nova ordenação de valores, pregada e vivida por Sócrates, será sistematizada ou fundamentada metafisicamente nas obras de Platão, por cujo ideal se dará a assimilação da filosofia grega por parte da religião cristã.
A civilização grega influenciou profundamente a tradição cristã, a ponto de serem a cultura e a filosofia gregas elementos determinantes da história do Cristianismo. O Cristianismo emerge do Judaísmo e os judeus daquele tempo já estavam helenizados. O próprio Paulo, na sua atividade missionária, já toma a tradição filosófica grega como uma base comum para o diálogo, embora não se demore em especulações teóricas. O uso do idioma grego pelos cristãos já traz consigo uma série de conceitos e categorias intelectuais que serão gradualmente assimilados e desenvolvidos pelos apologistas.
Com o objetivo de advogarem em defesa de sua religião, em um contexto de preconceito e perseguição sofridos pelos primeiros cristãos, desenvolveu-se uma literatura apologética voltada não para as massas – as quais eram antes conquistadas pela simplicidade da mensagem evangélica e pela ação caritativa – mas para aqueles que detinham poder e cultura, ou seja, os governantes do Império Romano. Nessas obras apologéticas, como, por exemplo, as de São Justino mártir, encontram-se várias referências a Sócrates e Platão. Pressupondo uma espécie de plano pedagógico da providência divina, passa-se a considerar ter havido em Sócrates uma antecipação do Logos que encarnara no Cristo. É, pois, de fundamental importância para a história do Cristianismo a fusão conceitual entre a noção grega de Logos e o Filho de Deus.
Noção complexa desde sua formulação na filosofia grega, o Logos é apresentado pelo pré-socrático Heráclito de Éfeso como o fogo que regula a transformação das coisas e pelos estoicos como princípio e causa divina do mundo. Antes de sua assimilação no interior do Cristianismo, já o filósofo judeu Fílon de Alexandria havia tentado conciliar com o conteúdo bíblico essa noção fundamental na tradição filosófica do Ocidente. De fato, “há um remoto vestígio semítico no Logos: os últimos livros do Antigo Testamento e a literatura judia apócrifa personificam mais ou menos a Palavra criadora, a Sabedoria, o Nome de Iavé ou ainda a Lei revelada: noções por vezes muito próximas do logos grego.”¹ Fílon reúne, pois, a tradição grega e a tradição semítica por meio de sua doutrina do logos, que define, dentre outros modos como verbo imanente à criação e que intercede de algum modo por ela.
A despeito do modo impressionante como o judeu Fílon fala do Logos, atribuindo-lhe quase um ser concreto para além de ser um princípio abstrato, apenas no Evangelho de João o logos dos gregos é associado diretamente ao tema dos judeus: o logos é o messias; é uma pessoa verdadeira. O ser criador e iluminador de todo homem vindo ao mundo é Jesus, que padeceu sob Pôncio Pilatos. É, pois, como dizíamos, com base na doutrina do Logos que São Justino mártir irá interpretar o parentesco entre aspectos das escrituras judaicas e da filosofia grega. A consequência de sua interpretação é que tudo o que foi dito de verdadeiro e bom na história é reintegrado pelo Cristianismo, estabelecendo-se desse modo uma relação de continuidade entre o humanismo grego e o humanismo cristão:
“Esse logos propaga sua verdade em todos os séculos e em todas as raças, e informou pensadores que no seu tempo eram considerados ateus: tal Heráclito ou Sócrates entre os gregos. O logos em uma palavra, é a razão de que participa a espécie humana e aqueles que vivem segundo essa razão são cristãos, sem que eles ou nós o saibamos. Essa generosa apologética marca a entrada consciente e sistemática do platonismo na especulação dos padres.”²
Mas se para Justino o Cristianismo era a filosofia absoluta e sua auto-afirmação dependia da assimilação da Paidéia grega, para o apologista Taciano tratava-se de uma fé religiosa que deveria se auto afirmar como culto bárbaro sem confundir-se com filosofia. Taciano representou assim um movimento de resistência à helenização do Oriente, helenização essa iniciada pelas conquistas de Alexandre Magno e que tornou possível que o Cristianismo se tornasse posteriormente uma força maior no próprio Ocidente do que no Oriente, onde surgiu. A história nos mostrará muitos desses momentos singulares em que se cruzaram civilizações como se um ideal de humanidade precisasse se afirmar para além das fronteiras e culturas.
A despeito do anti-helenismo de Taciano, o que se dá efetivamente é um gradual e crescente processo de adaptação mútua entre a Igreja cristã e a cultura grega clássica. Continuamente sob os ataques daqueles que tentavam escarnecer ou desacreditar a revelação cristã, a Igreja constituiu uma teologia cuja configuração reflete desde suas origens uma síntese bastante complexa entre a Paidéia grega e a fé cristã. Na teologia feita em Alexandria uniam-se, pois, dois sistemas universais – o que Jaeger interpreta como sendo o reconhecimento de uma unidade final, de um núcleo de ideias comuns, que seriam as ideias humanistas.
Assim, com muita erudição, a especulação teológica dos primeiros séculos cristãos vai utilizando para seus propósitos e subsumindo na sua visão de mundo as teorias de Platão e outros filósofos que se tornam doravante aliados na fundamentação das verdades reveladas, concretizando, principalmente com as obras de Orígenes e de Clemente de Alexandria, a conversão da Paideia grega em Paidéia Cristã, que tem em Jesus o grande mestre e modelo em quem se encarnara o Logos divino. Para Orígenes, o Cristianismo será o maior poder educativo da história, a Paideia da humanidade, sendo Cristo o coroamento de uma série de passos cujo objetivo era a elevação intelectual, moral e espiritual do homem. Reconhecendo na Paidéia socrático–platônica a ideia central da Grécia, a teologia de Orígenes faculta à religião nascente a possibilidade de oferecer ao mundo algo universal, algo a mais do que poderia oferecer uma seita religiosa como outras tantas a proliferarem na época.
Platão havia superado o humanismo dos sofistas. A famosa sentença de Protágoras é invertida e Deus passa a ser a medida – devendo nisso estar fundamentada a educação, cujos princípios não seriam, portanto, relativos. Para Orígenes, a Paideia é o cumprimento gradual da providência divina que culmina com Cristo, que traz para a realidade tais ideais sublimes e é o modelo e mestre perfeito para a humanidade.
[1] NEDONCELLE, Maurice. Existe uma filosofia cristã? . São Paulo: Flamboyant, 1958
[2] Idem. p.33

