Que vivemos no império da mediocridade, que nosso sistema permanece em boa medida apodrecido, que o consenso social democrata – fisiológico – populista da República de 88 continua a manter o Brasil uma nação em maus lençóis, não é nenhuma novidade. Que as nossas sessões parlamentares são por vezes exibições de palhaços e canalhas insanos aos berros e quase indo às vias de fato (se não indo), também. Renan Calheiros, presidente do Senado, conseguiu hoje escrever um novo capítulo nessa saga de decadência. Um capítulo sem vergonha.
Nossa querida “Narizinho”, a petista inveterada Gleisi Hoffman, investigada, declarou, para a indignação justificada da senadora Ana Amélia (PP), que ninguém no Senado “tem moral” para julgar a presidente Dilma Rousseff, por ocasião do processo de impeachment, que vai chegando aos seus esperados finalmentes. Furioso com Gleisi, Renan soltou, a respeito dela, que se trata de “uma senadora que, há 30 dias, o presidente do Senado Federal conseguiu no Supremo Tribunal Federal desfazer o seu indiciamento e do seu esposo, que havia sido feito pela Polícia Federal”. Desnecessário repetir, o tal presidente do Senado é ele próprio, Renan. Desnecessário dizer também que o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, estava ali, como presidente da sessão de julgamento de Dilma.
Depois de embasbacar Deus e o mundo com uma declaração antirrepublicana tão franca, Renan se esbaforiu e emitiu nota dizendo que “quis dizer” – já esperávamos pelo famoso “não foi bem isso” – que teve uma atuação rigorosamente “institucional” em favor de Gleisi junto ao Supremo, tendo se referido a reclamações em documentos oficiais feitas há alguns meses (e não há 30 dias; ora, muito estranha essa falta de “coincidência” das datas, não acham?). Disseram alguns, segundo o site O Antagonista, que ele se referiu ao fato de que “Gleisi precisou do Senado para entrar com aquela representação no STF sobre o caso do apartamento e ontem ficou dizendo que a Casa não tinha moral”.
Deve ser por razões estritamente “institucionais” que nenhum processo contra Renan efetivamente avança. Deve ser por razões “institucionais” que a própria Gleisi recuou e se conteve depois do destempero de Renan, acusado por Lindbergh Farias de estar promovendo uma “baixaria”. Os leitores vão me perdoar, mas as explicações não me convenceram. Acredito no princípio da presunção de inocência, mas acredito também que uma explicação tende a ser mais verdadeira quanto mais simples for e quanto mais lacunas e dificuldades da questão ela for capaz de resolver.
Renan Calheiros defende em sua nota a “impessoalidade” de sua atuação, mas na briga circense com Gleisi, ele sugeriu com muita ênfase a sua importância pessoal para “livrá-la” do que corria contra ela. Sugeriu, portanto, algum tipo de influência pessoal sobre as figuras da instância máxima da nossa Justiça. Se a interpretação mais óbvia e provável prevalecer, o que temos? Que o cacique peemedebista, político velho de guerra, presente em várias administrações desde Collor, está acima das instituições republicanas. Como aliás, muitos outros, como Lula, parecem crer que estão.
Se isso for verdade, acreditar no quê? Acreditar em quem? Pelo sim, pelo não, o “fora, Renan” nunca foi tão necessário. Só não mais do que o “fora, Jornalismo tupiniquim”. Em qualquer país sério, a declaração destemperada de Renan Calheiros seria manchete, tema principal, em qualquer órgão de imprensa. Aqui, aparentemente não soou tão surreal. Será esse um detalhe menor? Ou será que a anestesia é tão grande que o demônio passa por anjo, e o gorila passa por mico-leão dourado?


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Fora renar