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    Ucranizem?

    Escrito por Hiago Rebello

    A foto acima é a foto de um evento muito singular na História contemporânea: uma guerra civil onde se usa de tudo contra as forças do Estado. Até mesmo um engenheiro entusiasta da artilharia medieval se pôs a ajudar (e com o bom e velho trabuco de contrapeso) a destruir um Estado corrupto, vendido. O povo literalmente foi o protagonista de uma guerra civil, onde ele se armou para ter chances contra os batalhões de choque ucranianos, que defendiam o líder corrupto.

    A História brasileira já nos mostrou que ações populares (e pacíficas, até) já derrubaram ditaduras ou governos perigosos. Tanto no caso da ditadura de Vargas, da militar e em 1964, a nação se envolveu de maneira pacífica para mudar a situação política. Há soluções sem sangue, é verdade, mas nunca sem violência, nunca sem demonstração de poder.

    O caso ucraniano e os casos brasileiros são distintos. Na Ucrânia, não houve tolerância para com as demandas da nação. Ameaças, processos, prisões, o uso do aparelhadíssimo sistema público foi feito sem concessões para calar, dobrar e intimidar os cidadãos ucranianos, mas não adiantou. O povo não viu alternativa a não ser tirar, na marra, na força, e com violência mortal a corrupção máxima de seu Estado.

    E no Brasil? Aqui, mesmo nas ditaduras mais pesadas da nossa História – só da nossa mesmo, porque em perspectiva global, nenhum regime autoritário brasileiro chega próximo de assassinos como o comunismo e o nazismo –, nenhuma guerra civil foi necessária, fosse por parte do exército, ou do povo. A Constituinte paulistana, na primeira metade do século passado, foi o conflito bélico mais recente de nossa História, contudo, não foi um movimento efetivo, ou até mesmo que se alastrou pelo resto do país.

    Já que a violência em nossa cultura política é rara, o que ocorre quando o limite do tolerável é ultrapassado? Quando as Instituições da Democracia se mostram, cada vez mais, falhas, ineptas, criminosas e incapazes de representar o povo?

    Então viramos a Ucrânia.

    Nos últimos dias de 2016, o país assistiu atônito ao STF legislar até quando a vida de alguém vale alguma coisa, até onde vai o direito de matar, por jurisprudência, legislando por cima do Legislativo, logo, acima do poder democrático; como se não bastasse, o poder legislativo aprova, em primeira instância, um projeto de lei que, no fim, anistiará todos os envolvidos em Caixa 2 antes de a lei passar, salvaguardando todos os investigados pela Polícia Federal até hoje. Para a cereja do bolo: a autoridade de um juiz do STF foi sumariamente ignorada pelo Presidente do Senado, Renan Calheiros, não se afastando da presidência da casa, mesmo sob uma ordem judicial – ou seja: o poder da Justiça Brasileira de nada vale desde que você tenha poder. Esse ato pode representar uma justificativa para qualquer político (com força o suficiente) não obedecer ordens judiciais. O próprio Presidente da República pode simplesmente ignorar uma ordem de prisão, uma cassação…

    A Democracia à brasileira falhou. Nossas Instituições apodreceram diante de nossos olhos, tornando-se não apenas incapazes, mas vilãs, corruptas, erradas. O veneno para nossa democracia se encontra nas próprias Instituições que a realizam, nos Três Poderes que a compõem. Não há mais espaço para as Instituições, apenas para frações dentro do todo das Instituições.

    Literalmente, no caso do Judiciário, apenas certas operações – que por Providência Divina, ao que parece, ficaram a salvo da corrupção –, como a Lava-jato, parecem ainda sustentar um ideal palpável de Justiça. O Supremo Tribunal Federal, no entanto, já estipulou que togados podem, com o poder da caneta e da erística, determinar qual vida tem mais ou menos valor, ignorando a legislação e tratados internacionais que resguardam a vida intrauterina – além da própria lógica, a sacralidade da vida humana e a noção de certo e errado.

    As casas legislativas, nosso parlamento, estão interessadas em… defender ladrões. Isso mesmo: os locais que foram planejados para criar leis necessárias para proteger a população são os mesmos que criam leis para salvaguardar o roubo que atinge a própria população.

    No Executivo, por fim, vemos denúncias e esquemas que ligam nosso atual presidente a escândalos de desvio de verbas, propinas e tráfico de influência. Ele estava envolvido com a roubalheira e os projetos de poder da ex-presidente Dilma, não tenham dúvidas. Temer e o PMDB inteiro eram aliados do PT, seus parceiros, sócios, até que a inépcia de Dilma e a corrupção do PT ficaram grandes demais para serem escondidas. Se o PMDB deu uma facada no PT, não foi por senso de Justiça, mas por utilidade prática.

    Nossos ladrões fazem nossas leis, nossos juízes injustos fazem nossa Justiça, nosso presidente coaduna com cada ponto acima, principalmente o dos ladrões. Não se pode mais confiar nas Instituições Democráticas. Elas falharam, faliram. Elas são nosso espinho, o que impede o país de ir para frente.

    É uma questão de tempo para o povo notar isto, reclamar disto. Quanto demorará a perceberem que não existe nenhum motivo para o respeito com a autoridade pública existir? Não muito, creio. E quando formos às ruas pedindo por um golpe, para acabar de vez com essa República falida? Haverá resposta do governo como houve na Ucrânia?

    Tendo a duvidar que o Exército faça algo contra a população, ou mesmo as polícias. Mas o ponto é: até quando toleraremos essa República barata?

    Ucranizem? was last modified: janeiro 26th, 2017 by Hiago Rebello
    janeiro 26, 2017 2 comentários
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Lucas Berlanza

Lucas Berlanza Corrêa é jornalista formado pela UFRJ, gestor de mídias sociais, assessor de imprensa, carioca, insulano e tricolor (no futebol e no samba). Escreveu por breve tempo sobre as escolas de samba do Rio para uma revista de entretenimento, e depois se voltou para a política em seu trabalho pelo Instituto Liberal. Neste último campo, gosta de dizer – e cada um que julgue com que propriedade – que se inspira no velho Whiggismo burkeano, devidamente pintado, porém, com as cores e a realidade do Brasil. É um “lacerdista tardio” e, como tal, não pretende, nem pode, desistir do Brasil. Saiba mais

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