Não sabemos o desfecho, mas o Brasil atravessa uma fase de ebulições potencialmente transformadoras, delimitadas pela ação de integrantes do Judiciário – conquanto neste Poder também tenhamos os de índole duvidosa e os “super-salários” questionáveis – e do Ministério Público contra os burocratas e helmintos encastelados no poder. Vêm caindo aqueles que eram aparentemente intocáveis, vêm conhecendo a cadeia os que se julgavam acima do bem e do mal.
Poderosos empreiteiros e líderes políticos estão às voltas com a Lava Jato, e muitos não têm passado sem punição – quando não aquela que boa parcela do povo desejaria (e na velocidade em que desejaria), pelo menos a morte de qualquer pretensão política séria. Os ex-governadores do Rio, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral, por exemplo, foram presos ao longo da semana, um atrás do outro; o primeiro, sem ligação com a Lava Jato, mas acusado de compra de votos, protagonizou um espetáculo tragicômico de esperneio ao ser transferido para Bangu em uma maca, submetido aos mesmos constrangimentos a que a “plebe”, que ele e outros burocratas tão nitidamente desprezam, está acostumada. Quanto ao segundo, responsável direto pela crise aguda do estado, sua prisão por liderar uma quadrilha de desvio de recursos e recebimento de propinas em obras foi recebida com regozijo por funcionários públicos, enfurecidos com os dramas do momento.
As revelações e as cenas apoteóticas, festejadas por um lado, por outro suscitam a necessidade de reformas profundas no nosso Estado. Reformas que confrontem os privilégios de que desfrutam as figuras que ocupam o poder, abrigadas pelos artifícios da própria máquina pública. O senador Álvaro Dias, hoje no PV, levantou a discussão sobre o fim do foro privilegiado. Com relatoria do parlamentar do DEM, Onyx Lorenzoni, e participação dos procuradores da Lava Jato, um pacote de medidas contra a corrupção vem sendo debatido na Comissão de Constituição e Justiça. Alegando um aviso prévio de cancelamento da discussão, os parlamentares não compareceram à primeira sessão que discutiria o fim do foro, que então não ocorreu por falta de quórum; a sessão sobre as medidas contra a corrupção, já podadas de alguns elementos questionáveis, foi adiada porque há resistência de parte dos parlamentares à exclusão do item que versaria sobre crime de responsabilidade dos juízes e procuradores – isto é, justamente aqueles que ameaçam colocar os políticos, como o senhor Renan Calheiros, baluarte da guerra contra o Judiciário, de frente para a Justiça.
Não esperaríamos que não reagissem. A batalha e a vigilância devem ser incessantes, afinal a mudança será bloqueada até o limite por quem não tem interesse nela – e, sentindo-se mais acuados do que nunca, eles tendem a perder a pouca “vergonha na cara” que supostamente teriam e partir para o destrambelho. É o que está fazendo o maior deles, o mais deprimente de todos, o sr. Luiz Inácio Lula da Silva.
Tal figura vergonhosa, caricatura do que há de pior na história brasileira, dispensa reapresentações. Há não muito tempo que, açambarcando indevidamente as vantagens que o lulopetismo proporcionava, Lula se exibia em sua postura nababesca, como o monarca extraoficial de uma República combalida. Acima da lei e da ordem, um ser mítico, Lula se considerava digno de pairar acima das instituições; encarnava no mais supremo dos graus o pedantismo de que temos falado até aqui. Pois nem as humilhações recentes o fizeram aprender a lição. No governo Temer – que lamentavelmente colaborou, dizendo-se receoso de “manifestações perturbadoras” caso o infame ex-presidente fosse preso -, ele ainda quer ser o deus do Brasil.
Lula quer colocar o juiz Sérgio Moro na cadeia. Isso mesmo. Em queixa-crime à Procuradoria Geral da República, depois de ir chorar até para a ONU, Lula acusa o homem-símbolo da Lava Jato de “abuso de autoridade”. Lula ainda acredita que pode se sair bem de um duelo contra o juiz que foi merecidamente aclamado nas manifestações populares que militaram pelo fim do governo Dilma – merecidamente, não porque queiramos um herói justiceiro ou um messias salvador da República, mas porque, com coragem e eficiência, em decisões constantemente respaldadas pelas instâncias superiores, vem cumprindo seu dever contra a elite do establishment nacional, e isso NÃO É pouca coisa.
Já dissemos e repetimos: é uma guerra perdida. Lula já está à beira de beijar a lona; desafiar Moro é almejar as manchetes do ridículo e acelerar o seu encontro com o chão. O Brasil decente ainda aguarda esse momento consagrador. A punição do líder maior da organização criminosa que assaltou o país é passo imprescindível para o longo processo de gestação de um amanhã mais decente. Que ela venha antes que Lula consiga os holofotes por mais uma estripulia esclerosada.

