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    Eterna VigilânciaReflexõesTextos Antigos

    “Biografia impecável” e moral revolucionária

    Escrito por Lucas Berlanza

    ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO PELO INSTITUTO LIBERAL E REPRODUZIDO PELO PORTAL ‘DEBATES CULTURAIS’.

    José Eugênio Soares é um comunicador e humorista com história e talento em emissoras diferentes. Não estou entre aqueles que não reconhecem nele nenhum valor. No entanto, o velho Jô vem se portando de forma vergonhosa em seu programa, fazendo declarações no mínimo espantosas a favor do PT. Não estou acostumado com essa sua postura, nem creio seja conveniente se acostumar com o erro. Depois de afirmar que Dilma pode não saber do que se passou na Petrobras, Jô disse que, “antes de ser prejulgado pela mídia”, ninguém menos que José Dirceu possuía uma “biografia impecável”.

    O comunista que fez cirurgia plástica para não ser reconhecido, que tinha ligações notórias com os cubanos e sua ditadura longeva, por isso mesmo já não passaria perto de ter algo a que se pudesse taxar de “biografia impecável”. Sobre os julgamentos do mensalão, devemos sempre nos lembrar de que estamos, e já estávamos, em um país sob o comando do PT. Não no nível em que se encontra agora, mas já. O PT comanda as naus, o PT dirige o barco. Que espécie de “julgamento político e ditatorial” se realiza debaixo do governo ao qual estavam associados os condenados? Estivéssemos nós no regime militar julgando comunistas, em um governo flamenguista julgando criminosos tricolores, sob o domínio dos Capuletos em um julgamento de meliantes Montéquios, e esses delírios fariam algum sentido. De outro modo, o que há é tão-somente o transcurso de um processo legal – o que já não ocorre, por exemplo, com a decisão do Congresso em alterar a Lei de Diretrizes Orçamentárias aos 45 do segundo tempo, premiando a irresponsabilidade de Dilma Rousseff. Aí sim temos uma decisão convenientemente “política”. Militantes empedernidos e que preferem se manter cegos aos escândalos vastamente evidenciados podem mergulhar nessa esparrela; Jô Soares não deveria se dar a esse pérfido luxo.

    O que Jô está fazendo, sabe-se lá com que intenção, é resgatar o velho discurso, que nos perturba a sanidade desde os idos do governo Lula, de que a imprensa “capitalista neo-liberal conservadora” execrou os nobres heróis petistas e os hostilizou sem nenhuma prova, e o ex-ministro Joaquim Barbosa seria uma espécie de “carniceiro” que julgou de acordo com seu ódio político. Esquecem, por conveniência, que Barbosa era eleitor do partido – o que considero uma mancha, mas, ao contrário de muitos, não escolhi o ex-ministro para herói. Vejo nele apenas um profissional que se dignou a cumprir seu papel e, ao final, demonstrou indignação com o que observava ocorrer, alegando que uma “maioria de circunstância” teria “todo o tempo a seu favor” no STF para promover os interesses em que está apoiada. Com as indicações ao Supremo que o PT poderá fazer, os riscos somente se ampliam, e a necessidade de vigilância constante como preço da liberdade, como já dizia Thomas Jefferson, apenas aumenta.

    A atribuição do rótulo de “biografia impecável” à trajetória vermelha de Dirceu, associada ao gesto do braço erguido de “mensaleiros” como José Genoíno ao serem conduzidos ao cumprimento de suas penas, é um apelo desesperado ao romantismo ingênuo das belas histórias de guerreiros da justiça social, de bons senhores que coloriram suas vidas de amor no coração e suor pelo bem do povo. Sob esse adorno flácido, vale tudo. Roubar, comprar parlamentares, chantagear, no caso do PT. Matar, executar, no caso de “heróis” dos idiotas, como Ernesto Che Guevara ou Mao Tse Tung. Talvez o PT também, se nos lembrarmos do caso Celso Daniel, mas essa é outra história…

    Só existe uma forma de limpar o nome de figuras como José Dirceu e de genocidas como os acima mencionados. É dar crédito às teorias de León Trotsky acerca da moral. Fazendo isso, fica fácil: todos os conceitos de certo e de errado se relativizam, subordinados a um imperativo único: o que se faz é benéfico à revolução? É benéfico ao “novo mundo paradisíaco” que você e o seu time de “revolucionários” sabem como construir melhor do que qualquer um e precisam fazer isso de qualquer maneira? Se for ajudar nesses intentos, então é correto, é impecável.

    Trotsky resume: “Numa sociedade baseada na exploração, a moral suprema é a da revolução socialista. Bons são os métodos que elevam a consciência de classe dos operários, a confiança em suas forças e seu espírito de sacrifício na luta”. Ou seja, é bom tudo aquilo que alimenta os delírios reformadores, ruim tudo aquilo que chama à razão e à realidade.

    Em seu site, a corrente “O Trabalho”, tendência interna do PT, em artigo intitulado “Nossa moral e a deles”, de 15 de abril de 2013, reforça essa visão, ao dizer que “as questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias” e “somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a esses problemas”. Caberia ao “movimento, isto é, aos militantes e filiados do PT, julgarem os erros e acertos dos dirigentes”. Em outras palavras: aos revolucionários, aos esquerdistas, cabe o poder decisório sobre o bem e o mal, de acordo com suas intenções. Se assim for, então podemos dar razão a Jô Soares e julgar Dirceu moralmente impecável, caso tudo que fez tenha sido a favor da “causa”. Poderíamos julgar o mensalão algo moralmente impecável, posto que feito para ajudar o PT na sua incansável busca pela “justiça social”.

    Felizmente, à diferença dos petistas, acreditamos em valores maiores e substanciais e não nos vemos como os salvadores da humanidade. Nossa biografia não é impecável, mas certamente – ao menos falo por mim – prefiro que ela jamais o seja. Ter uma “biografia impecável”, no mesmo sentido com que a de José Dirceu o é, vai contra meus princípios.

    “Biografia impecável” e moral revolucionária was last modified: março 26th, 2017 by Lucas Berlanza
    março 10, 2016 0 comentários
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Sobre o Autor

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza Corrêa é jornalista formado pela UFRJ, gestor de mídias sociais, assessor de imprensa, carioca, insulano e tricolor (no futebol e no samba). Escreveu por breve tempo sobre as escolas de samba do Rio para uma revista de entretenimento, e depois se voltou para a política em seu trabalho pelo Instituto Liberal. Neste último campo, gosta de dizer – e cada um que julgue com que propriedade – que se inspira no velho Whiggismo burkeano, devidamente pintado, porém, com as cores e a realidade do Brasil. É um “lacerdista tardio” e, como tal, não pretende, nem pode, desistir do Brasil. Saiba mais

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