Em entrevista, esta semana, ao canal Band News, o eminente jurista Ives Gandra Martins enunciou algumas de suas já conhecidas reflexões lúcidas sobre o sistema político brasileiro. Defensor contumaz do parlamentarismo há muito tempo, Ives pontuou que o sistema, mais descentralizado e que garante uma saída muito menos traumática que o impeachment para crises como a do governo Dilma, também tenderia a colaborar com o saneamento de outro problema notório no nosso sistema partidário: a multiplicação inteiramente fisiológica de partidos para facilitar conchavos e sugar erário público.
Existe certa dose de exagero no discurso, que compartilhávamos até há algum tempo, de que o grande problema está no número exagerado de partidos; de fato, existem outros países com muitos partidos políticos, como os próprios Estados Unidos – embora apenas dois, o Republicano e o Democrata, sejam, de fato, eleitoralmente viáveis em majoritárias. A maioria desses pequenos partidos representa, ou um recorte ideológico muito específico – se intitulam socialistas, por exemplo -, ou um interesse regional muito marcado (Partido Independendista Portorriquenho, por exemplo). Têm, portanto, algum conteúdo ou alguma lógica mais óbvia em existirem, principalmente se levarmos em conta o fundamental: não se sustentam com base em fundo partidário, em geral, e quando o fazem, os Estados e municípios costumam exigir que se atenham a ele e não adotem qualquer tipo de fonte privada em paralelo – o que se verifica mesmo apenas com partidos muito pequenos.
O que ocorre no Brasil é que legendas ridículas, sem qualquer identidade filosófica ou ideológica – como lembra o jurista Ives Gandra, ademais, não existem 33 ideologias ou correntes filosófico-políticas no mundo para comportar tantos partidos – se formam monopolizadas por donos, apenas para disputar o fundo, isto é, o dinheiro do pagador de impostos, e facilitar a venda para os interesses do governo, já que estão fragmentados. Preenchem o Parlamento com quantidades irrisórias de representantes e não mostram serviço algum para existirem, no atual sistema em vigência no Brasil. São peso inútil, e prova de falta de compreensão do que seja a vida pública.
Partidos que vão desde o Partido da Mulher Brasileira (uma legenda completamente nonsense que acha que o gênero sexual de uma parcela da população vale um partido político) até o Partido Militar Brasileiro (uma legenda que se tentou criar, e cujo nome se ancora em uma classe profissional, e, embora seus proponentes aparentassem se pautar por ideias à direita, não vemos razão para o surgimento de algo tão específico), passando por PSD (que não tem nada a ver com o PSD clássico de Juscelino Kubitschek) e os PTs do B da vida, preenchem um mosaico de nulidades que terminam por facilitar o balcão de negócios. Pois o deboche, nesta terça-feira (17/05), chegou a um nível impensável.
O Partido Nacional Corinthiano conseguiu ver aprovado seu registro estadual (e municipal, em São Paulo e Ubatuba), ao comprovar que cumpriu as exigências, tais como o apoio de 24.710 eleitores (o mínimo seria de 21.262), atestado por meio de listas e formulários com assinatura e dados de cada eleitor, conforme o portal G1. Isso é uma das etapas para obter o registro nacional.
Imaginem os senhores: teremos um partido político baseado em um clube de futebol, caso isso vá adiante. No Brasil, parece fazer sentido a ideia de um partido para o Corinthians, para o Flamengo, para o Bahia, assim como talvez, quem sabe, um partido para cada banda de rock, para cada grupo de axé, ou para cada escola de samba… Estarei amanhã mesmo propondo o Partido Nacional da União da Ilha, que tal?
Que conteúdo ideológico, que acréscimo, que adição produtiva um partido como esse tem a oferecer ao país? Não obstante, mais de 20000 pessoas acharam que o projeto valeria a pena, e sentem que não há nenhuma distorção em um deboche como esse – com todo o respeito aos corinthianos – receber dinheiro público.
Independentemente do que se considere seja a melhor alternativa de modelo, isso parece um ensejo oportuno para refletir acerca da maturidade política do nosso povo. O surrealismo por trás da simples cogitação de se criar um partido como esse só pode ser explicado pela convicção – triste convicção! -, por parte do povo, de que nossa política atual é uma grande piada, e mais vale esculhambar logo tudo que levá-la a sério.

