Tenho bastante asco a posições “isentonas”, de pessoas que querem se fazer passar por superiores apenas por não abraçarem visões mais polarizadas em determinado debate. A não ser que a pessoa simplesmente assuma que não tem opinião formada a respeito, o que é um direito de que deveríamos todos fazer mais uso algumas vezes, isso em geral é irritante, pedante e serve apenas para mascarar a real tendência do sujeito.
Justamente por isso já prevejo com tristeza que serei acusado de ser um desses “isentões” pelo texto que redijo; mas às vezes é simplesmente verdade que você não se identifica com determinadas polarizações em um tema específico. Pelo que tenho observado em relação a mim mesmo, é o caso.
Com o fito de meramente proporcionar ensejo à reflexão, decidi despejar aqui meus sentimentos a respeito do tema dos supostos “direitos dos animais” e do tratamento que deve ser dispensado a eles. Cenas como o abate de um filhote de ovelha em um programa de televisão e o fuzilamento do gorila Harambe em um zoológico em Ohio quando oferecia risco a uma criança que caiu em sua jaula provocam debates intensos, movidos a emoção e a posicionamentos blasé da pós-modernidade. Decidi dizer o que penso sobre o assunto, fugindo, por exemplo, do lugar-comum – nem por isso equivocado – de lembrar que muitos esquerdistas vegetarianos que gritam contra o consumo de carne defendem o aborto. Sinto que teria algumas coisas outras a dizer sobre o tema, e que há pessoas que pensam como eu. Aproveite esses apontamentos quem desejar. Destino-os aos esquerdistas e aos direitistas – ALGUNS esquerdistas e ALGUNS direitistas, diga-se de passagem, de acordo com a maneira como temos visto a questão ser envolvida em discussões “políticas” nos artigos virtuais ou nas redes sociais.
Aos esquerdistas “defensores dos animais”,
Parece-me imperioso assumir que os direitos, dentro de uma comunidade política, são associados a um virtual reconhecimento de deveres dos seres da mesma espécie – por óbvio, a humana -, à compreensão de que eles formam um todo consistindo em relacionamento mútuo, troca de experiências, trocas econômicas e institucionais, realizados conscientemente. Isso abrangeria, por extensão, os seres dessa mesma comunidade que não têm ainda essa consciência e/ou não podem assumir suas responsabilidades no concerto geral, como os bebês, as crianças e aqueles que padecem de problemas de ordem mental ou paralisia física.
Não entrarei em divagações filosóficas acerca do jusnaturalismo, mas nossos direitos legais são garantidos concretamente – afora as eventuais imperfeições da nossa Justiça – porque estamos em uma sociedade, que existe antes de nós e se conforma de determinada maneira. Se estivéssemos vivendo como ermitões ou em cavernas, a quem reclamaríamos o respeito a determinados direitos? Como exigiríamos, por exemplo, que o tigre-dentes-de-sabre respeitasse a nossa vida?
Fôssemos animais e a coisa ficaria ainda mais inverossímil. Alguém vê uma zebra levantando cartazes ou faixas na natureza demandando que o leão respeite seu “direito à vida”? A natureza mesma não o contemplaria, porque o próprio leão poderia, então, reivindicar seu próprio “direito à vida”, de que depende alimentar-se da zebra.
A própria maneira como vivem, em estado selvagem, inviabiliza que os animais participem desses mesmos direitos da mesma forma que nós. Eles não têm, nunca tiveram, e seus descendentes, a princípio, jamais terão, condições intelectuais, cognitivas mesmo, de se perceberem como partes de uma sociedade de indivíduos racionais, portadores de direitos e de quem se exige o cumprimento de deveres para a convivência comum. Em resumo, animais não são pessoas. Não faz sentido querer que desfrutem da exata mesma consideração destinada às pessoas.
Essa mesma cadeia alimentar, de que fazem parte os animais, alimentando-se entre si, engloba a espécie humana, aquela única que é capaz de constituir, de maneira consciente e com consequências nitidamente CULTURAIS, uma comunidade sócio-política, estruturada em direitos e deveres. Ao longo de milênios, essa espécie se desenvolveu realizando a alimentação carnívora. É um hábito enraizado entre as mais diversas civilizações, e que acompanha o homo sapiens sapiens, naturalmente onívoro, desde o seu surgimento.
Há os hipócritas, totalmente hipócritas, que sabem disso, comem a sua carninha no almoço, mas se escandalizam e demonizam alguém quando observam alguma cena de abate, qualquer que seja. Esses são tolos que mentem para si mesmos e esquecem convenientemente que alguém precisa matar o animal antes que seus restos sejam consumidos. A sociedade moderna permite que esse alguém seja outra pessoa, distante no espaço e no tempo; então finge-se simplesmente que isso não precisou acontecer. Lamento, aconteceu.
Mas há também os vegetarianos. Quanto a esses, eu respeito sua atitude de vida individual; poderíamos destrinchar uma série de argumentos já clichês para mostrar que a base econômica para que a alimentação mundial seja exclusivamente vegetariana é impensável, que os animais criados para o consumo ficam protegidos de qualquer risco de extinção – sobretudo pelo incentivo de serem propriedade de seus criadores, que uma vasta população pobre nunca teria condições de seguir a dieta vegetariana, que usamos de qualquer maneira produtos provenientes de testes ou manipulação de animais… Mas não, não é nosso objetivo. Se forem vegetarianos de verdade, eles têm todo o direito a contestar a alimentação carnívora.
Não têm o de se julgarem donos da virtude. Muita gente má na história da humanidade era vegetariana, e muita gente boa comia carne. Penso que, quanto àqueles que preferem hostilizar os carnívoros – e não, não são todos os vegetarianos -, talvez lhes fosse mais útil apelar ao pragmatismo e lutar por uma causa possível: por que não defendem as práticas de abate com insensibilização e a provocação do menor sofrimento possível aos animais de corte? Seria isso uma bandeira muito mais viável.
Posto isso, creio que está claro que não sou contrário à alimentação carnívora e acredito que a vida da criança que caiu na jaula do gorila Harambe, no caso que chocou o mundo, era essencialmente mais importante que a do próprio animal, e precisava ser salva prioritariamente, ainda que isso custasse, como os técnicos julgaram no momento, a morte do gorila.
Porém…
Aos direitistas “animal é excremento e eu só quero saber da minha picanha no almoço”,
Vamos lá. Concordo totalmente com a diferença fundamental entre animais e humanos; concordo totalmente que DIREITOS, de fato, pertencem a estes últimos. Concordo totalmente, enfim, com todas as consequências do que acabei de dizer acima.
Queria apenas propor que vocês pensassem sobre algumas coisas. Parece haver uma tendência desenfreada por parte de alguns de obedecer a certos estereótipos, parecer mais “machão” ou qualquer coisa similar, que os leva a compartilhar o tempo inteiro imagens exaltando as touradas, se vangloriando do sofrimento dos animais, se achando o Clint Eastwood porque abateram um animal selvagem que na maioria das vezes (não digo todas) não teve a menor chance de se defender. Pior do que isso: se você emite qualquer discordância, mesmo que estética, a respeito, eles te chamam de COMUNISTA. What??
Eu acho que vocês têm um problema. Sinto muito, e espero que respeitem meu diagnóstico pessoal. Sobre o caso de Harambe, por exemplo; alguns disseram que o gorila era absolutamente irrelevante e que a família não deveria ser responsabilizada pelo inacreditável desleixo com que permitiu que a criança caísse na jaula. Vamos lembrar que o zoológico estava desenvolvendo uma experiência de preservação com o gorila e a necessidade de abatê-lo por causa do ABSURDO DESLEIXO dos pais – repito, ABSURDO DESLEIXO; não interessa se é difícil segurar uma criança, então não leve ao zoológico; meus pais nunca permitiram que entrasse na jaula de bicho nenhum – causou um ENORME PREJUÍZO aos esforços desses cientistas. “Quem se importa com a experiência? Não estou nem aí se gorilas forem extintos”, vocês poderiam dizer. É mesmo, cara pálida? Será que nem mesmo conceitos básicos como o direito a levar a efeito o que quiser no seu espaço, na sua propriedade privada, e ser ressarcido por prejuízos causados aos seus negócios pela infração alheia vocês conseguem respeitar? Quem é o comunista aqui?
Se animais não têm direitos, é perfeitamente possível, porém, que acordemos determinadas regras para abrandar a crueldade para com eles e suavizar os sofrimentos. E fazemos isso justamente porque, ao contrário deles, temos senso moral mais aguçado, entendemos noções de certo e errado, podemos ser julgados pelo que fazemos, e temos empatia. O leão não tem empatia pela zebra, a zebra não tem empatia pelo leão. Ambos não se importam minimamente com o sofrimento uns dos outros. Nós podemos nos importar com o sofrimento de ambos. Isso é parte da nossa humanidade. Por que negar isso em prol da nossa bestialidade e da nossa brutalidade? Por que enaltecer o que nos aproxima da fera e não o que nos eleva?
Sou favorável às medidas de insensibilização dos animais antes do abate. Mesmo que não se obrigue a que elas sejam cumpridas por criadores particulares, que criam para a própria subsistência, ao menos no abate industrial, sou a favor da disseminação dessas regras. “Que frescura, seu comunista! Para quê isso? Nossos antepassados não tinham condições de fazer nada disso e matavam a marretadas mesmo! Nossos antepassados matavam mamutes derrubando rochas enormes sobre eles! ” É verdade. Seus ancestrais também moravam em cavernas, promoviam duelos de gladiadores, praticavam canibalismo. Se está ao nosso alcance fazer algo para minorar o sofrimento de uma criatura que sente dor, mesmo que ela não seja humana, por que não deveríamos fazer isso? Para aqueles que não se convencerem, há ainda um argumento econômico: a redução do estresse na hora do abate melhora a qualidade da carne.
Pelas mesmas razões, desprezo práticas como touradas e rinhas de galo, que considero os cultos mais esplêndidos à barbárie que podemos prestar.
E era isso que eu queria dizer. A propósito: a quem interessar possa, como carne de frango e peixe religiosamente, toda semana. Detesto consumir a carne de qualquer outro animal, mas não por razões ideológicas, e sim por gosto mesmo. Como sei que isso não interessa a ninguém, encerro por aqui.

