Escrevo profundamente consternado, e motivos não faltam.
A semana já havia contado com o ministro da Cultura, Calero, retirando-se do governo, acusando o ministro Geddel, peemedebista articulador político, de pressioná-lo para que retirasse um embargo do Iphan para uma obra em Salvador. Argumenta-se que os regulamentos do Iphan são excessivos e obstaculizam os negócios; que se combata tal realidade pelos meios cabíveis. O que houve aqui, segundo a denúncia, foi um político, um homem do governo, procurando usar sua influência para “dar um jeitinho” a fim de beneficiar os próprios interesses – aplicando a si mesmo regra que não serve aos outros. O tipo de patrimonialismo espúrio que não podemos admitir. No momento em que redijo estas linhas, as notícias dão conta de que Calero teria dito à Polícia Federal que Temer o “enquadrou” para colocar panos quentes na “contenda”, e, diz-se, haveria até uma gravação disso. A conferir ainda; seja como for, é muito grave, e Temer hesita em se livrar de Geddel.
Para pôr ainda mais lenha na fogueira, o relatório do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) sobre as medidas contra a corrupção, que ele próprio defendeu com entusiasmo patriótico na tribuna, foi levado a Plenário, em mobilização ouriçada dos nossos distintos parlamentares, logo após revelações do estágio adiantado das delações de executivos da Odebrecht e da própria empresa – na chamada “delação do fim do mundo”, que afetaria cerca de duas centenas de integrantes da nossa classe política. Divulgou-se um esforço suprapartidário, aparentemente saído de um círculo ligado ao petista José Guimarães, por levar adiante uma modificação no texto que o desviaria totalmente de seu propósito, incluindo uma brecha perigosa para anistiar crimes de doações ilegais, a partir da tipificação do crime de caixa 2. Procuradores da Lava Jato, Rodrigo Janot e inclusive o juiz Sérgio Moro expressaram seu temor de que tal manobra represente, a depender da sua real extensão, o colapso da Lava Jato – isto é, a consagração da impunidade, as palmas para a ladroagem, os vivas à cafajestagem. A confusão foi grande, a reação popular foi intensa nas redes sociais, a sessão teve que ser adiada para a próxima terça, o presidente da Câmara Rodrigo Maia tentou contemporizar – usando, porém, da fanfarronice de enaltecer as prerrogativas “desta casa” para votar o texto conforme lhe aprouver – e uma manifestação de rua está marcada para o dia 4 de dezembro. Tudo isso acontece no bojo da proposta do senador Álvaro Dias (PV) pelo fim do foro privilegiado – ampla vontade popular, mas que encontra aparentemente resistência entre os óbvios interessados – e nas articulações do presidente do Senado, Renan Calheiros, para enquadrar o Ministério Público e o Judiciário em “abusos de autoridade”. A questão toda é que a imprensa divulgou que o presidente Temer teria dito a interlocutores que não vetaria o texto, mesmo que ele contivesse tal despautério.
Não me aprofundarei aqui no mérito de alguns comentários que me surpreenderam, vindos de diferentes fontes que reputava mais sérias e comprometidas com princípios, menosprezando por razões utilitárias o “incidente” com o ministro Geddel (quando a tolerância deve ser zero), ou voltando os dardos contra os procuradores da Lava Jato e contra Moro por terem tão-somente se manifestado preocupados com a possibilidade – neste último caso, queixumes vindos de um certo colunista da VEJA que já não me parece mais esconder que seu antipetismo era mais tucanismo que patriotismo. Afinal, uma coisa era criticar algumas propostas contra a corrupção do Ministério Público, já podadas no relatório de Onyx, que de fato eram altamente questionáveis; outra é insistir em uma espécie de cruzada contra esses profissionais, que longe estão de ser o maior problema do Brasil, e permanecer frígido diante de um risco absurdo.
Concentro-me no presidente Temer. Presidente, não votei em Vossa Excelência. Admito que simpatizo muito com algumas das investidas de seu ainda jovem governo, tais como a reforma do Ensino Médio e a PEC do teto de gastos, atacadas pela irracionalidade de nossas esquerdas radicais. Compreendo perfeitamente que nossa classe política – na verdade, nossa República natimorta – é trágica, e que é um calvário ter que negociar com ela para aprovar medidas e trazer alguma governabilidade ao país. Posso apenas imaginar as dificuldades demandadas de quem esteja nessa delicada posição, na hora extrema que vive a nossa pátria. No entanto, meu compromisso maior é com a verdade e com os valores que abraço.
O que é preferível? Enxergar-se na função de estadista, em que o destino o colocou em razão do desastre lulopetista que o antecedeu, atingindo seu ápice com Dilma Rousseff, e pôr as mãos à obra, em prol do povo brasileiro, por retificar os rumos de nosso futuro? Ou, ainda que pensando em se manter onde está – posto que, afinal, ameaçado pelo julgamento das contas de campanha pelo TSE e pela falta de amparo popular – e executar medidas razoáveis e até necessárias, render-se aos burocratas encastelados no poder e sua afobação em perseguir os privilégios e a impunidade?
Sempre há escolha. Tenho muito orgulho de ter participado dos movimentos que demandaram a derrubada do sistema do PT e do governo pornograficamente criminoso e obtuso de Dilma Rousseff; todos que atuamos nesse sentido devemos ter. Mas lutamos contra eles e pelo Brasil, não a favor de Vossa Excelência. Vossa Excelência, junto ao PMDB, alicerçou todo o projeto de poder do PT; o regulamento constitucional e o destino colocaram nas tuas mãos a prerrogativa de purgar os pecados do teu partido fisiológico e conivente com a sanha bolivariana, para tanto realizando as reformas de que o país necessita. Vossa Excelência poderia, e quem sabe ainda possa, colocar-se à altura desse encargo.
Se a preferência for outra, e se o Congresso insistir em brincar com fogo e zombar dos brasileiros, não temos qualquer compromisso com quem lá está, esnobando nossos anseios e nossas esperanças. Eu me somarei à “balbúrdia” patriótica nas ruas, se preciso for, mais uma vez, quantas forem necessárias. Chamem-me de “raivoso” ou do que quiserem; muitos dos líderes que admiro, entre eles o próprio Carlos Lacerda, já foram chamados assim. Não me martirizo pelo que faço; eu me martirizaria se deixasse de fazer. E tenho dito.

