Antes de qualquer outra coisa, eu sei muito pouco sobre a Turquia. Não posso legislar na matéria como se passasse perto de ser um especialista. O que parece razoavelmente seguro afirmar é que é uma sociedade de predominância islâmica, que conseguiu promover alguns movimentos mais sólidos em direção aos moldes ocidentais, incapazes, entretanto, de se livrar de uma tensão complexa com as raízes sociais pouco afeitas às estruturas liberais-democráticas. O país conseguiu chamar a atenção das manchetes, em meio a atentados terroristas na Europa, Donald Trump anunciado como candidato oficial na Convenção Republicana e a expectativa pela fantasia dos Jogos Olímpicos do Rio, por um acontecimento inusitado: uma tentativa fracassada de golpe militar para depor o governo do presidente Recep Tayyip Erdogan, do Partido da Justiça e Liberdade.
As imagens chocantes de tanques nas ruas e soldados cercando prédios não são, é verdade, exatamente de rotina para nós. Os críticos do movimento – curiosamente alguns se contam entre os partidos de oposição da Turquia – afirmam que se tratou de uma conspiração militar pronta a suspender as regras do jogo. Os defensores do movimento militar afirmam que Erdogan é um presidente defensor de uma conduta islâmica mais pronunciada para o regime, fazendo vista grossa aos terroristas do Estado Islâmico e intensificando a pressão sobre instituições e a perseguição a opositores. A democracia turca, sob as mãos de Erdogan, estaria se transformando em uma fachada. Há analistas que especulam, inclusive, que o movimento como um todo foi uma farsa, um teatro orquestrado para que ele tivesse pretextos que justificassem um aumento ainda mais robusto de poder.
Qualquer que seja a verdade, uma coisa é indiscutível: Erdogan usou a tentativa de deposição armada como motivo para estabelecer – segundo ele, ativando dispositivos constitucionais – um Estado de emergência no país. O Executivo está, em caráter emergencial, com amplos poderes concentrados em suas mãos. Por decreto, Erdogan pode agora mesmo ver atendido um sem-número de caprichos pessoais sem precisar da autorização do Parlamento de seu país.
Segundo o jornalista Helio Gurovitz, em sua coluna no G1, a estimativa é de que, no expurgo de potenciais ameaças que ele realizou, “mais de 50 mil foram atingidos, e mais de 7,5 mil presos, entre militares, juízes e policiais. Cerca de 100 generais e almirantes foram indiciados. Houve suspensão de funcionários do ministério do Interior, de policiais e até de 15 mil acadêmicos e professores. Mais de 20 sites de notícias foram fechados. Vários jornalistas estrangeiros foram obrigados a deixar o país”. Tudo isso, supostamente, para atacar os partidários do opositor Fethullah Gülen, visto como um muçulmano moderado, que – mais uma vez, supostamente – é acusado por Erdogan de tramar a sua derrubada.
Ainda que levemos em consideração a instabilidade que o país deve viver, uma vez que acabou de enfrentar uma estranha mobilização militar contra o regime estabelecido, não é possível acreditar que esse volume de investidas de Erdogan seja normal. O presidente está obviamente extrapolando. O que parece estar ocorrendo é que a insegurança, a crise, verdadeira ou não, está sendo explorada por um tirano para solidificar a sua autoridade e relativizar a liberal-democracia. Para o discurso por vezes sedutor dos fascistóides, a lentidão e a “pasmaceira” das instituições parlamentares e democráticas não é aceitável para lidar com grandes problemas; precisamos do “choque” da mão pesada, de um reforço na autoridade para conter a desordem.
O Brasil de 1937, que já havia experimentado a Intentona Comunista de 35 e a movimentação integralista, vivia clima similar quando Getúlio Vargas, o ditador mais amado do Brasil, fez uso do famigerado Plano Cohen – uma denúncia falsa sobre uma revolução comunista assustadora em andamento no país recém-saído da agrária República Velha – para se apresentar como o salvador e implantar o Estado de guerra. Uma guerra que não houve, e deixou Getúlio com plenos poderes até 1945, com a mão de ferro mais implacável e completa que o país já conheceu. Os militares, entre os anos 60 e 70, alegaram também que o país não estava pronto, que os subversivos não poderiam ser enfrentados de outra maneira, para manter o regime de exceção, inclusive impedindo o vice civil de Costa e Silva, Pedro Aleixo, de assumir – particularmente acreditamos que um civil como ele ou Carlos Lacerda na presidência teria tanta ou mais competência para liderar o combate legal aos infames terroristas marxistas-leninistas.
Faz muito tempo que a insegurança e o pavor tornam as consciências reféns fáceis da tirania e do autoritarismo. A Turquia parece padecer desse mal, tão velho quanto a humanidade. É um exemplo da fragilidade dos ideais que tanto prezamos naquelas bandas do Oriente, mas também um alerta emblemático para todos nós, que não estamos livres de mergulhar nessa esparrela em tempos de crises agudas.

