Nas manifestações de rua mais recentes, já estava claro que as bandeiras do Brasil eram exibidas orgulhosamente pelo lado que pedia a deposição do governo mais moralmente e esteticamente medíocre e destrutivo da história brasileira. Do outro lado, o que se destacava eram mares (bem menores) de vermelho, defendendo o Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff e seu legado nefasto. Agora, “passada a tempestade” – ao menos aquele momento de “pico” -, o prefeito petista de São Paulo resolveu oficializar a contenda e decretar que o grande inimigo do petismo era, é e sempre foi mesmo a própria pátria.
Para nossa mais expressiva indignação, a Comissão de Proteção à Paisagem Urbana da Prefeitura de Fernando Haddad proibiu a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo de projetar a bandeira do Brasil (!) no seu prédio porque, segundo eles, tendo “cunho político” e sendo usada para apoiar o movimento pelo impeachment – que ainda está em curso no Senado Federal -, sua projeção fere a Lei Cidade Limpa. “A bandeira pode ser colocada, mas se houver um contexto. Da maneira como está sendo usada é com cunho político”, comentou à Folha de São Paulo um representante do grupo que tomou a decisão, Lao Napolitano. A multa para o descumprimento é de R$10 mil. A proibição está valendo até para datas comemorativas.
Não pudemos deixar de fazer alguns comentários sobre isso, tamanho o surrealismo da coisa, embora nos faltem palavras. Vejam só… A bandeira do Brasil virou “poluição visual”! É isso mesmo: ver a bandeira do Brasil projetada em um prédio irrita os olhos das pessoas que tomaram essa inusitada decisão. Fico imaginando se uma bizarrice antipatriótica como essa teria alguma condição de prosperar em um país como os Estados Unidos, com uma história respeitável de civilização e um verdadeiro patriotismo arraigado. As bandeiras do país estão sempre exibidas, com orgulho e sentimento cívico, em casas e instituições. Terão os americanos que se explicar sobre o motivo de a bandeira estar nas suas varandas? Por que razão, em uma cidade e um país cheios de problemas, alguém se preocupa com a Fiesp projetando o pavilhão nacional na fachada de seu prédio? Por que isso incomoda a um brasileiro?
Fico imaginando, também, o que ocorreria se a bandeira de um partido governista fosse projetada. A bandeira do PT, sobretudo. Seria considerada sujeira? Desconfio que não; ler uma notícia como essa deveria comprovar, a qualquer pessoa de bom senso, que a última coisa que os petistas, esquerdopatas, comunistas e qualquer outro nome que você queira acrescentar aqui prezam é a pátria, é a integridade e o sucesso da nossa nação. A nação deles é a ideologia, é o partido. Enquanto não dissolverem toda a nação sob o manto da legenda, e tirarem de cena todos os “inimigos do Brasil”, aqueles que “desejam o mal do país” – isto é, todos aqueles que são críticos de suas ideias e seus governos -, eles não descansarão.
Tivemos uma importante vitória ao afastá-los; Michel Temer, a despeito de seus problemas e defeitos, de já nos ter proporcionado motivos de incômodo e demonstrações de fraqueza, e de ter sido eleito pelos mesmos eleitores de Dilma Rousseff, é, pelo menos, um presidente que respeita os símbolos pátrios. Não é irrelevante que ele sinalize para uma exaltação do ritual do hasteamento da bandeira, como fez em sua página.
Entretanto, não podemos considerar que a batalha chegou ao fim. O câncer removido – parcialmente, porque Dilma ainda é presidente, apenas afastada –, fica a metástase, e ela é mais profunda do que gostaríamos. O gesto vergonhoso da gestão de Haddad se insere nesse contexto. Temos que lutar implacavelmente contra a profunda metástase, para que o câncer não retorne – piorado.

