Estou longe de ser o chato, o espírito de porco, ou até o conspiracionista paranóico que encasqueta com supostos símbolos satânicos em grandes festividades mundiais. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em plena instabilidade política do país, em plena crise financeira do estado, em um dos momentos mais difíceis da nossa história, tiveram início. E o espetáculo foi, sim, digno.
O presidente interino, Michel Temer, quebrou o protocolo e abdicou de falar ao começo. Quando declarou iniciados os jogos, fê-lo timidamente e apressadamente, ao som de um público dividido entre vaias e euforia. Fez mais do que Lula na abertura do Panamericano de 2007, quando foi vaiado e sequer se atreveu a discursar. De qualquer modo, a cerimônia de abertura da Olimpíada não é hora para política; é uma festa, cujo objetivo é, e sempre deve ser, exaltar as tradições e a trajetória de fundação do país e da cidade-sede.
Nesse campo, a presença das escolas de samba – embora eu seja suspeitíssimo para falar – e as canções tradicionais de Ary Barroso e Tom Jobim representaram com dignidade as especificidades do Rio de Janeiro. A atuação apagada das jovens MCs que supostamente estariam “empoderando” a mulher negra, o vídeo totalmente fora de lugar apregoando o alarmismo de um desastre ambiental iminente ao pior estilo Al Gore e a participação de Regina Casé que perigou transformar a cerimônia em uma versão macro do programa Esquenta podem merecer críticas, mas, na minha opinião, não tiraram o brilho do espetáculo visual e coreográfico – que Sol fabuloso envolvendo a pira! – e do conjunto da obra. Ponto para a genial imagem do 14-Bis sobrevoando as belezas da cidade e o desfile de Gisele Bündchen ao som de Garota de Ipanema. O calor e a alegria dos brasileiros também chamaram a atenção, e parece que, assim como os atletas estrangeiros, a imprensa internacional também percebeu essa energia contagiante. Não acho isso algo de se lamentar; acho que é uma qualidade nossa que, bem dosada, pode ser espetacular, e ela surtiu esse efeito na cerimônia.
Dito isso, para que ninguém acuse este apaixonado pelo Brasil e pelo Rio de estar “jogando contra” gratuitamente, vamos ao que realmente me chateou nessa cerimônia. Uma das partes mais importantes é justamente aquela que retrata a formação nacional e cultural. A proposta foi, e não poderia deixar de ser, mostrar a pluralidade da formação do Brasil. As famosas e clássicas “três raças” do nosso mito de origem – os portugueses em suas caravelas, os índios em sua “Pindorama” construindo as ocas em uma bela coreografia, e os africanos em uma retratação marcante do trabalho escravo – pintaram primeiro na cerimônia. Depois, um show de cores e luzes mostrou as diferentes etnias construindo o país, formando o Brasil.
E quem apareceu? Os sírios-libaneses e os japoneses, que chegaram sobretudo no início do século XX. Aparentemente, os organizadores da festa entenderam que os portugueses bastavam para representar o componente europeu da nossa formação. Não há como negar o destaque à cultura africana – nada contra, sou sambista e é fundamental reconhecer essa matriz – e a pouca importância dada aos europeus.
Meus ancestrais, os italianos, chegaram ao Brasil antes dos libaneses e japoneses, ainda no século XIX, em substituição aos escravos após a abolição. Vieram com grandes expectativas, muitas delas frustradas; trabalharam em condições complicadíssimas nas lavouras para construir este gigante. Sua participação é fundamental. Os alemães também vieram antes e são parte relevantíssima da composição étnica e cultural do Sul do Brasil. Por que eles foram tão minimizados e esquecidos? Também antes, embora em menor peso, vieram suíços e espanhóis. Todos os povos que para cá vieram deram suas contribuições importantíssimas para a formação do Brasil, mas a verdade deve ser dita: essas ausências acabam repercutindo uma agenda, sistemática ou não, de minimização dos esforços e do suor desses guerreiros europeus na constituição da nossa pátria.
Será apenas um esquecimento? Será que é caso pensado e quanto menos “homem branco europeu”, melhor? Prefiro não responder. Entendo apenas que a falta é séria e merece ser observada, para que tenhamos sempre em mente os méritos dos nossos antepassados que ajudaram, sobretudo, a fazer do Brasil, com suas peculiaridades, uma nação, em boa medida, ocidental. Toda a nossa reverência e nosso destaque a todos aqueles que ergueram o Brasil, e cujos descendentes hoje olham, com preocupação, para o futuro. Futuro que virá e cobrará os preços dos nossos erros; mas no momento, está suspenso em nome da festa.
E não há outro remédio. Então, que as Olimpíadas agora iniciadas sejam, na medida do possível, um sucesso, que nossos visitantes se sintam em casa, que todo o evento transcorra com o máximo de tranquilidade possível…. E que nossa luta continue depois.

