

Existem duas facetas do liberalismo. A primeira faceta é aquela propriamente ligada às noções clássicas do direito natural, de defesa da vida, liberdade e propriedade privada. Ela também está ligada a noções modernas e iluministas de sistema político representativo, temperado por pesos e contrapesos e instituições parlamentares. A melhor síntese de todas essas noções de direitos e liberdades está na Constituição americana.
A segunda faceta é aquela com raízes nas noções românticas de pensadores como Jean-Jacques Rousseau. Rousseau acreditava na noção de direitos e justiça não enquanto parte de um ordenamento natural e dado na realidade, mas sim como uma construção artificial e arbitrária. Leis e direitos são inventados ex-nihil pela sociedade e impostas à força pelo estado, a entidade representativa máxima da coletividade. Nesse sentido, o estado, o gerador de direitos e criador de leis, deve se comandado por uma vontade geral, capaz de dar o máximo de voz aos anseios da maioria da população. Esta ideia rousseauniana é a base da democracia das massas, sobre a qual eclodiria o jacobinismo revolucionário da Revolução Francesa.
A ilusão do voto
Em outras palavras, a democracia jacobina e rousseauniana, ao pregar a soberania da vontade geral, crê, em essência, na ilusão de onipotência do poder popular, por intermédio do poder do voto. A vontade geral é a vontade pura e maquiavélica de poder, cujas paixões e ambições não conhecem os limites da justiça natural, sobre as quais a Constituição Americana se assenta. E nem os homens de estado da democracia jacobina, os autodenominados intérpretes da vontade geral, conhecem as concepções morais de autodomínio e prudência do típico homem republicano, que tão bem nortearam os Founding Fathers americanos.
As ambições populares da democracia de massas jacobina, que foi um produto Revolução Francesa, seria exportada para os países da Europa Continental através das guerras napoleônicas. E a partir daí, para o restante do mundo, até alcançar a América Latina. Foi esta Revolução jacobina, sedenta e ambiciosa de poder, que produziria na América Latina dos séculos XIX e XX uma sequência de governos populistas e instabilidades políticas. Sequência de instabilidades estas que sempre obtiveram regimes autoritários como desfecho previsível. Foi também a Revolução Jacobina, com suas paixões desenfreadas por maiores direitos ao povo, a responsável por inaugurar, nos países da Europa Continental, uma era de gradativa expansão dos direitos sociais, do poder sindical e do welfare state. Esta expansão desenfreada de direitos em tais países levaria como desfecho uma crescente carga fiscal, endividamento público na casa dos 100% e perda de vitalidade econômica.
Até aí nada de novo. O que quero ressaltar é que estas duas facetas do liberalismo não somente são opostas em termos de consequências legais e sociais. Elas constituem também duas linhagens de pensamento que foram, ao longo da história, se desenvolvendo e se fazendo presentes em outras ideias do pensamento político, econômico e sociológico.
Como exemplo, democracia das massas, do liberalismo jacobino, possui paralelos com o pensamento econômico keynesiano do consumo das massas.
A ilusão do consumo
A ideia keynesiana consiste em que o consumo e a demanda estimulam o crescimento e promovem a geração de empregos, fazendo a roda da economia girar. Os salários dos trabalhadores devem ser os mais elevados possíveis, sem preocupação com os custos de produção e a geração de inflação. Os mais pobres devem ter acesso ao crédito abundante, em detrimento da restrição orçamentária das famílias e disponibilidade de poupança. Uma política econômica, implementada pelo PT no final dos anos 2000, em que o Brasil paga as consequência e sofre os seus efeitos adversos até os dias atuais. A sociedade de consumo keynesiana é o Yes, we Can na versão Casas Bahia. Compre tudo o que puder e desejar, pois você merece o melhor.
Tanto a democracia das massas como o consumo das massas tomam como pressuposto a fé cega nos desejos e anseios ilimitados das grandes massas. A democracia de massas e o consumo de massas nada mais são do que meios distintos pelos quais os mesmos anseios e desejos populares são expressados e canalizados.
Conclusão
Em resumo, os liberais jacobinos exercem o papel de “libertadores” do povo. Os jacobinos libertam o povo fornecendo-os meios pelas quais as aspirações populares podem ser canalizadas. Entre as ferramentas fornecidas estão o poder de votar e o poder de comprar.
Foi o liberalismo jacobino o principal responsável pela produção dos dois grandes totens idolátricos, que são o voto e o consumo. Dois totens que, se já exercem algum efeito sobre o declínio econômico e moral dos países ocidentais, exercem no Brasil efeitos avassaladores. Foi no Brasil que a idolatria do consumo produziu a crise econômica atual e uma elevada inadimplência. Inadimplência esta que, que combinada com baixas taxas de poupança, gerou uma das mais elevadas taxas de juros do mundo. Já a idolatria do voto produziu no Brasil o estado assistencialista inchado, pautado na concessão de direitos sociais ilimitados às custas de uma carga tributária elevada.
Estes são os filhos do jacobinismo revolucionário. Que é a vertente revolucionária do liberalismo. A sociedade do consumo nada mais é do que o outro lado da moeda da sociedade da democracia de massas. Uma sociedade da qual a esquerda revolucionária tanto critica, mas que tanto com ela se identifica, enaltece e fomenta.
