Ao comentar os eventos na sessão histórica que determinou a admissibilidade do impeachment por parte da Câmara dos Deputados, criticamos aqui, ontem, o discurso do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ao mesmo tempo em que condenamos a atitude de Jean Wyllys (PSOL-RJ) de adotar o cuspe na face do adversário como resposta adequada em ambiente democrático. Uma publicação da jornalista Miriam Leitão, tida por alguns “gênios” como uma “neoliberal” empedernida, me obriga a voltar ao assunto.
Sobre a situação de Jean Wyllys, as razões para condená-la são óbvias. Concentrando-nos em Bolsonaro, o que se deu foi que, em seu discurso para justificar o voto a favor do impeachment da presidente Dilma, ele afirmou que a extrema esquerda “perderá de novo”, como perdeu “em 64”, e dedicou seu voto, entre outras coisas, à memória do militar Carlos Alberto Brilhante Ustra, falecido em 2015, e acusado de ter praticado torturas durante o período militar. Além disso, Bolsonaro abriu seu discurso parabenizando o presidente da Câmara Eduardo Cunha, réu da Operação Lava Jato, pelo seu trabalho de condução do processo. Já me manifestei brevemente sobre o mérito das declarações, e não pretendo desenvolver mais isso nesta oportunidade; a única realmente discutível do ponto de vista moral é a homenagem ao falecido coronel, contra quem realmente pesam muitas acusações e denúncias – muito embora asseverar que ele era realmente culpado seja um avanço feito, em geral, pelas esquerdas, e que não nos animamos em reproduzir. De resto, realmente a extrema esquerda foi frustrada pelo movimento de 1964 e Cunha realmente conduziu o processo de impeachment com correção. Isso não torna o regime militar a oitava maravilha do mundo e não torna Cunha inocente. O problema que vejo no caso de Bolsonaro está em que ele cometeu um ERRO GRAVE de cálculo político, caso almeje realmente a presidência; pretendendo aspirar à liderança do país, à aglutinação das correntes liberais e conservadoras em prol da obtenção do poder, o deputado precisará afastar suas ligações quase atávicas com o regime de exceção que perdurou no país por duas décadas e se restringir a enaltecer a estética democrática. Caso contrário, fracassará, por mais que exista uma nostalgia popular em alguns setores com relação ao regime.
Muito que bem; goste-se ou não, nada disso justifica retirar dele o direito de falar. Miriam Leitão, posando de democrática e de “limpinha” – ela já havia taxado Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo de serem uma “direita hidrófoba” -, publicou um texto de dois parágrafos em que dizia que Bolsonaro é uma “ameaça à democracia”. Segundo ela, “ele usa a democracia para conspirar contra ela abertamente e sob a cobertura de um mandato. Ele exaltou em seu voto a tortura, que é um crime hediondo” e “a democracia brasileira precisa ser defendida pelos pares do deputado Jair Bolsonaro”. Miriam sugere que ele sofra “um processo de cassação pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados” e que o STF seja consultado “sobre como agir nestes casos em que um político com prerrogativa de foro usa a sua imunidade para ameaçar explicitamente o país com a defesa do fim da democracia e fazer a apologia de um crime hediondo”.
Miriam Leitão age como uma grande hipócrita. Se repararmos, em que pese a exaltação um tanto cegamente idealista do movimento de 64 e do coronel Brilhante Ustra, Bolsonaro não defendeu nenhuma atitude, nenhuma ação política prática a não ser aquela de que o voto tratava. Não me recordo de qualquer proposta de medida pública de sua parte que estabelecesse algum tipo de censura ou autoritarismo. Se ele vai insistir ou não em querer adornar seus votos com comentários que perigam levá-lo a cometer suicídio político, é algo que cabe somente a ele decidir; é muito séria a sugestão de Miriam de suspender o direito de um parlamentar de se expressar no ambiente legislativo como queira, somente porque sua fala a desagrada. Agride um dos pilares da nossa estrutura de poderes.
Segundo a seletiva Leitão, enaltecer os agentes do regime militar é representar uma ameaça à democracia desde dentro. Ela hesita diante da possibilidade de permitir que os autoritários, em uma democracia, se expressem. Esse é um debate antigo, no qual não nos atrevemos a dar a palavra final. No entanto, cabe perguntar: o que Miriam Leitão estava fazendo quando revolucionários comunistas como Luiz Carlos Prestes e Marighella – este último autor de um manual para terroristas – foram repetidamente citados e enaltecidos no evento? Onde estava Miriam Leitão todas as vezes em que partidos nanicos como PSTU e PCO exibiram propagandas ELEITORAIS defendendo a revolta armada, doutrinas trotskistas ou coisa que o valha? Miriam Leitão sabe muito bem que um dos pilares básicos do comunismo, do marxismo-leninismo, é sua aversão à democracia, uma falsidade liberal e burguesa que precisa ser superada em nome da “ditadura do proletariado”. Ela sabe muito bem que o comunismo é uma ideologia inerentemente assassina, que está por trás de milhões de mortos por todo o planeta, e embasou mais de uma tirania totalitária no mundo – que cometeram atrocidades com que os velhos milicos dos anos 60 e 70 no Brasil jamais sonhariam. Por que partidos de origem maoísta como o PCdoB ainda existem? Por que essa ideologia macabra está presente na designação de uma legenda que concorre e discursa normalmente em nosso espaço Legislativo? Por que o Partido dos Trabalhadores, que corteja ditaduras pela América Latina afora, e envia representantes para convenções desses partidos comunistas, repletas de suas patetices, se junta a eles no seu recorrente culto à memória dessas figuras que nada mais queriam que implantar uma tirania no Brasil? Por que Miriam nada diz sobre os colegas de Bolsonaro que, na mesma sessão, renderam loas a esses canalhas?
Não somos daqueles que acreditam que questionar um malfeito de determinado gênero exige a condição prévia de questionar todos os outros malfeitos do mesmo gênero na face da Terra; essa costuma ser, aliás, uma estratégia das esquerdas, não nossa. No entanto, considerando o lugar de fala da jornalista em questão e o contexto do seu posicionamento, fica impossível deixar de notar essas gritantes incongruências.
Miriam Leitão, podemos começar a conversar sobre sua gravíssima proposta de exigir a cassação de Bolsonaro, se você abertamente esquecer qualquer ligação afetiva com seu passado de militante do infame Partido Comunista do Brasil e defender a CASSAÇÃO DO REGISTRO DE TODOS OS PARTIDOS COMUNISTAS e de todos os deputados que exaltam guerrilheiros e revolucionários como heróis. Eles sim, enaltecidos e amparados em uma base social sólida, eivada de artistas e “movimentos sociais”, representam uma constante ameaça prática à democracia, tolerada pela natureza própria do seu sistema. Você vai ficar apenas contra uns ou ficará contra todos?


2 comentários
O que está pretendendo a jornalista Míriam Leitão ? Patrulhar o Deputado Jair Bolsonaro ? Por que não teceu nenhum comentário sobre os parlamentares que exaltaram os nomes de Carlos Marighella, um dos mais cruéis terroristas que atuou no Brasil ? Exaltaram também Carlos Lamarca, desertor do Exército brasileiro e um dos mentores da luta armada e assassino cruel. E quando festejaram Chê Guevara, um dos maiores assassinos das Américas, quando o comunismo tomou Cuba ? Não encontrei nenhum texto da senhora Míriam Leitão sobre essas exaltações ao crime e ao criminoso. Observa-se que não aprendeu nada.
Texto muito bem redigido, diferentemente dos textos da “senhora” em questão!