Edgar Allan Poe[1], um dos maiores poetas e autores que o mundo já possuiu, teve uma vida difícil, cheia de tristeza, penúria e, ao final dela, loucura; mas em meio a uma vida conturbada, há um artista inominável em suas magnitudes. Poe não se enquadra em algum espectro político que se possa usar como baliza nos tempos atuais, pois suas obras transcendem questões partidárias e ideológicas. O trabalho de Poe é por si mesmo, isto é, foi feito para ser belo, para funcionar como poesia, conto, algo belo de se ler, de se recitar e profundo, para se pensar.
Bem como toda obra que se enquadre na descrição acima – A Ilíada, a Eneida, A Divina Comédia, Antígona e Os Lusíadas seriam exemplos de literaturas com a mesma “pureza” –, os escritos de Poe abluem o cosmos humano em suas estéticas, métricas e situações imersivas nos enredos de seus contos; também como toda a literatura que vise transcender a Beleza, a de Poe traz mensagens e situações que clamam por um olhar mais atento, uma sensibilidade mais profunda para serem devidamente captadas.
O terror é o gênero mais conhecido pelos amantes do trabalho de Poe que, mesmo não sendo um autor exclusivo do estilo[2], faz transbordarem em seus mais atenciosos leitores as sensações de insanidade, medo, ira e declínio na situação dos protagonistas e dos outros personagens que compõem as tramas – nesse sentido, Poe serve de inspiração perpétua para escritores que se aventuram no tema do terror, quando não do horror, até os dias atuais; mas clássicos já consagrados beberam de Edgar Alan Poe, como os gigantes Howard P. Lovecraft, com seus contos inomináveis e Robert W. Chambers, no seu magnífico compilado de histórias, o Rei de Amarelo.
Suas histórias policiais também são envolventes, intrigantes e extremamente bem montadas. Sua obra sobre os Assassinatos na Rua Morge (e suas continuações) não só fazem altura às mais elaboradas tramas de Sir Arthur Conan Doyle, como também as precederam, sendo (para alguns estudiosos do tema) os primeiros romances policiais já feitos[3]. O gênio, a criatividade e a maestria das suas obras são inquestionáveis. Poe é um marco, não na literatura estadunidense, tampouco na anglo-saxônica, mas na Universal[4], chegando a ápices extraordinários no percurso de todo seu trabalho – as influências de Poe nos Estados Unidos demoraram mais de meio século para serem sentidas, de modo geral. Na França o autor foi mais conhecido, mais influente e abrangente. Ninguém mais que o grande músico e compositor Claude Debussy (1862—1918) dedicou mais de uma de suas obras aos contos de Edgar Allan Poe.
No Brasil, o autor teve como admirador ninguém menos que Machado de Assis, este que, como um entusiasta e apreciador dos maiores nomes da literatura de sua época[5], ficava atento aos primores do estrangeiro. Uma das maiores contribuições de Machado de Assis para a divulgação do trabalho de Poe em terras brasileiras foi a impecável tradução do que é um dos maiores feitos de Edgar Allan Poe, o seu monumental poema narrativo The Raven, O Corvo. Outras traduções para o poema em questão já foram feitas, em variadas épocas, mas a versão machadiana, digamos, é inigualável. Ela preservou a musicalidade natural do texto em uma belíssima adaptação para o português, e é com tal tradução que tratarei a respeito da condição humana estampada, no mais pleno e inexorável terror, no drama do protagonista, que tem toda sua vida e amores ceifados pela lâmina de Cronos, pelo tempo intransponível que delimita vida e morte na existência humana.
A musicalidade do escrito[6], tão individual e autossuficiente, não demanda nenhum esforço sequer para ser visualizada, pois a “música” aparece por si só no simples ato de ler; as palavras, rimas e intensidades do texto mostram-se sem demora: os primeiros versos desnudam a estética do restante da composição:
“Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
No início do poema, o personagem principal, a quem os sofrimentos hão de se frontear, acaba por ser acordado pelo que acredita ser uma batida na porta de sua casa, mas logo sua mente cai em devaneios, em lembranças de um passado vívido e feliz, ao lado de um antigo e falecido amor: Lenora. Levantando-se e deixando seus pensamentos para trás, o homem concentra-se em identificar o visitante tardio, que bate em sua porta em plena madrugada; ao abrir sua porta, nada encontra (e as divagações da antiga paixão retornam), porém, eis que um farfalhar incomoda sua janela. No entanto, crendo que nada é, decide abri-la para averiguar a questão… Um corvo, negro, feio e de postura nobre – como a de um fidalgo – adentra em sua residência… Para pousar no busto de Palas Atena.
Do alo da imagem da deusa da sabedoria, o corvo o observa, imperioso e severo. Nosso protagonista, entretanto, sempre domado por suas lembranças de um tempo morto, não se acanha em indagar o nome da ave visitante, e eis que o corvo diz “Nunca mais”.
O interessante é que o personagem principal, em sua solitude, não perde tempo em devanear para mais lembranças de um passado distante:
“No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei:
‘Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.’
E o corvo disse: ‘Nunca mais!’”.
“Estremeço.
A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
‘Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: ‘Nunca mais’”.
O pássaro é a mensagem da morte, do fim. O tempo, inexorável e impiedoso, veio prestar suas contas. Não importam os louros e gozos de antes, do amor, da amizade, empatia, gosto e afeição: tudo está com os dias contados desde o momento em que veio a existir. Uma afinidade com alguém em especial, um romance honesto… tudo tem um fim iminente, pois as bonanças irão passar como a água passa em um rio.
A finitude da vida, do prazer e das alegrias é o verdadeiro terror do poema. Isso é Universal, pois o temporal desfaz o mundo. A mutabilidade da História desfigura e mata tudo o que se construiu da vida. Eis o destino de todas as boas relações familiares e sociais, não só do nosso protagonista, mas de todos nós: nunca mais!
Para o sujeito que fala com o corvo, que medita para entender o que o pássaro quer realmente dizer, a realidade cai sobre ele como um raio, e o trovão que ele causa não pode ser impedido; nunca mais haverá a Lenora, nunca mais viverá como os tempos de outrora, e o corvo, mensageiro do tempo, do fim, é impassível.
Empoleirado no busto de Palas, símbolo-mor de como lidar e se chegar à realidade, a ave impiedosa e verdadeira traz consigo a mensagem de Cronos e sua foice. O homem começa a sentir o cheiro de incenso, a presença de seres angelicais se atesta em suas percepções. Ele está morrendo, indo com toda sua construção de vida, com o terror do Final, ou, já está morto, sendo um espírito que reluta a deixar seu mundo já passado.
O desespero, a ira e a negação se abatem no homem. Não aceitará os repetidos “nunca mais” que escuta. Cada resposta do corvo o dilacera, confirma seus medos, sua realidade nua e crua.
“‘Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.’
E o corvo disse: ‘Nunca mais’”.
A resposta final da ave continua sendo implacável, inabalável. O corvo é a confirmação da Sabedoria, da Verdade. A Verdade, por muitas vezes, é terrível e não dá vez àqueles que a ignoram ou a afrontam. O protagonista do conto vivia de algo já há muito apodrecido. Fixava-se nos prazeres da vida, mas não de forma hedonista. Poe usa da melancolia da existência humana para verter lágrimas, mas ainda assim visando a Beleza; porém, o terror de tal caso é total e transcende características particulares dos indivíduos. Todos os homens sofrem com a morte do mundo que conheciam, no passar dos anos[7].
Mas como trata-se de uma literatura Universal, para além de caprichos particulares de seu período histórico, O Corvo possui a mesma característica da Odisseia: pode-se aprender com ela, com a beleza da trama em qualquer período ou cultura, desde que haja o devido entendimento da obra.
A foice de Cronos – como Gustav Doré ilustrou impecavelmente em suas artes que representam o poema em questão – e a cabeça de Atenas são inseparáveis e imperam sobre todos nós, mas seus efeitos melancólicos se abatem de maneiras diferentes em cada indivíduo.
Um hedonista, aquele que tem como norte seu próprio ego e não possui parâmetros de vida além de sua própria satisfação, alegria e felicidade, não possui “armas” para se defender da inexorável passagem do tempo assassino. A baliza de certo e errado, dever e direito, se concentra na vontade que alimenta o “eu” do hedonista, mas quando algo dá errado, por conta da vontade de “ser feliz” do sujeito, a falta de norteamentos faz com que o hedonista fique sem base e entre em um outro turbilhão de voluntarismo; nunca focando em si mesmo como autor de suas mazelas, jamais avaliando se seus desejos mais queridos são bons ou maus, pois o centro do indivíduo hedonista é sua própria vontade de estar bem.
Na História, a articulação estrutural do pensamento hedonista surge de um discípulo de Sócrates, Aristipo de Cirene, o fundador da Escola Cirenaica, que tinha como doutrina de vida a concepção de que a Felicidade seria o bem supremo. Mesmo com Aristipo submetendo isso ao uso racional dos prazeres, para não existir uma decadência, a escola termina por cair em um pessimismo exacerbado, pois suas buscas, seus nortes, eram incompletos e ocos.
Não é por acaso que, mais de vinte séculos depois, tal sina ainda se abata por aqueles que consideram a Felicidade o paralelo-mor da vida. Entre Cronos e Atenas a realidade se forja, portanto, é onde todos estão, mas há uma grave diferença entre aquele que aceita o Corvo empoleirado no busto da Sabedoria e aquele que o nega, enfrenta e se perde, pois as maiores guias de sua vida, o prazer, a felicidade e a vontade dançam uma dança macabra na roda da fortuna.
Tudo passa, e é sábio não se prender ao bem-estar, pois ele não é a viga do edifício da vida humana, mesmo que seja uma importante pilastra; o Tempo inexorável irá ceifar, com mais consequências negativas que o normal, todo o bem-estar humano. Se nem para o mais espirituoso dos Homens haverá a misericórdia do tempo, o que se dirá do mais hedonista? Aristipo teve sua Escola filosófica desmanchada de dentro para fora: negaram tudo, até que só restou o cortejo pela morte, devido a negação da possibilidade do prazer em vida. Se o sentido da vida são o prazeres, então ela não vale de nada.
“E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando.
A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!”

[1] Poe viveu de 1809 até 1849.
[2] O melhor exemplo para a dinâmica temática nos trabalhos do autor pode ser o do poema “To Helen”, que possui uma beleza ímpar, valendo totalmente a “pena” em ser inteiramente citado:
Helen, thy beauty is to me
Like those Nicéan barks of yore,
That gently, o’er a perfumed sea,
The weary, way-worn wanderer bore
To his own native shore.
On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the glory that was Greece,
And the grandeur that was Rome.
Lo! in yon brilliant window-niche
How statue-like I see thee stand,
The agate lamp within thy hand!
Ah, Psyche, from the regions which
Are Holy-Land!
[3] A Poe também é creditada a criação da ficção científica.
[4] Universal em seu conteúdo, mas também em sua proposta. Em um ensaio chamado A Filosofia da Composição – feito a respeito do poema O Corvo –, Poe é categórico: “Seria levado longe demais de meu assunto imediato, se fosse demonstrar um ponto sobre o qual tenho repetidamente insistido e que, entre poetas, não tem a menor necessidade de demonstração; refiro-me ao ponto de que a Beleza é a única província legítima do poema. Poucas palavras, contudo, para elucidar meu verdadeiro pensamento, que alguns de meus amigos tiveram inclinação para interpretar mal. O prazer que seja ao mesmo tempo o mais intenso, o mais enlevante e o mais puro é, creio eu, encontrado na contemplação do belo”. Há raízes de Platão aqui, e também do pensamento aristotélico; o belo transcendente, contemplativo e que basta por si próprio.
[5] Como o francês Victor Hugo, que teve a tradução de seu grande livro Os Trabalhadores do Mar, publicada no jornal Diário do Rio de Janeiro, no mesmo ano da publicação francesa, original, da obra, em 1866. Machado se mantinha amplamente sintonizado com a alta literatura estrangeira.
[6] A versão original possui uma musicalidade diferente, voltada para um sentimento de depressão, dado o ritmo que as rimas produzem (na opinião de quem vos escreve):
“Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
‘’Tis some visitor,’ I muttered, ‘tapping at my chamber door—
Only this and nothing more’”.
[7] No ensaio já citado, Poe, ao descrever como estruturou as situações do poema, assim afirma: “É meu desígnio tornar manifesto que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso, ou à intuição, que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a precisão e a seqüência rígida de um problema matemático”. A precisão em questão era necessária para transmitir o tema e os sentimentos mórbidos que banham a composição e que iriam até a alma do leitor.


1 comentário
Excelente texto.