Desfile farroupilha em que se vê a bandeira do único país que surgiu da extinta América Portuguesa: o Brasil.
Em resposta à situação de crise que enfrentamos, é corriqueiro que se desejem soluções aparentemente fáceis, bruscas e radicais. Reconheço que vivemos tempos de confusão, em que o óbvio pode passar por abominável aos olhos do politicamente correto; às vezes, contudo, realmente passamos do ponto. É como eu vejo as reivindicações por separatismo no Brasil. Páginas no Facebook defendendo a separação do Rio Grande do Sul, do Sul do Brasil inteiro, de São Paulo ou até do Rio de Janeiro têm surgido, lançando palavras de ordem e números supostamente sensatos para nos convencer de que o desmembramento do país é a única saída.
Avalio primeiro a questão em termos de princípios gerais: quando o povo de uma região apresenta características culturais e político-históricas particulares e aspira em ampla maioria à independência em relação a uma comunidade política maior, sou totalmente favorável ao chamado “separatismo”. Afinal de contas, as próprias iniciativas de independência da América consistiram nisso. No entanto, essas “características” precisam realmente estar lá; não vejo sentido em aventuras – a separação de um estado ou região do Brasil teria de ser feita em afronta à Constituição Federal, diga-se – construídas com base em uma contemplação irrisória e imperfeita desses requisitos.
Certas tendências dentro do pensamento liberal e libertário se investem, por natureza, de posturas iconoclastas; elas sustentam que o sentimento de pertencimento cívico, as estruturas simbólicas e culturais que conferem coesão à “imaginação” de uma sociedade, são aspectos irrelevantes. Tudo que importa é técnico e matemático: estamos diante de um Estado central guloso e obeso, a União, que captura recursos e deixa estados e municípios em situação inferior. Então, em nome da descentralização, não vale a pena cogitar o municipalismo, a revisão do pacto federativo, o conserto desse esquema tortuoso – sem necessariamente inspirar-se no exato federalismo americano, mas adequando mudanças imperiosas à nossa cultura e história política. Não; mais vale dividir logo tudo e criar vários países menores.
Eu os respeito; no entanto não posso acompanhá-los nessa visão, que me parece por demais artificial e engenhosa. Um país não se faz apenas de uma caneta; ele envolve, sim, uma esfera de identidade que está além de números e tecnicismos. Quando essa distinção é verdadeira, quando essa identidade não existe, quando emerge um sentimento nacional que faz materializado o desejo de rompimento, os sinais são perceptíveis. A maioria expressiva da população se faz ouvir. Seria, aliás, totalmente a favor de referendos, onde quer que os representantes eleitos de uma população entendessem que essa consulta popular sobre a criação de um novo país fosse válida. Aposto o que quiserem que não se formará uma maioria absoluta em qualquer estado da Federação. Não creio sequer que em regiões onde houve movimentos históricos de cores separatistas, como o Rio Grande do Sul e Pernambuco, essa maioria se concretize.
O Brasil foi fundado por uma elite política proveniente de todos os cantos da América Portuguesa; essa elite enfrentou, ao longo do período monárquico, alguns anseios divisionistas, mas trabalhou pela manutenção da integridade territorial, o sonho de José Bonifácio – nosso pai fundador. Hoje, aqueles que pregam o separatismo, eventualmente responsabilizando outros estados e regiões pela tragédia geral e eximindo-se da culpa, fazem, a nosso ver, o jogo desejado pela esquerda, pronta a taxá-los de preconceituosos ou intolerantes. Dão a ela a vitória, quando tudo que ela deseja é fracionar artificialmente os brasileiros. No caso, por exemplo, dos gaúchos separatistas, com todo respeito e admiração ao fervor cívico do seu estado – que hoje tem um político como Marcel Van Hatten, cujo slogan é “não quero viver em outro país, quero viver em outro Brasil”, o que escancara seu patriotismo -, lembraria que de lá saíram figuras lamentáveis e definidoras da nossa História, como Vargas e Prestes, para mencionar apenas alguns exemplos.
Até aqui, tudo que há de verdadeiramente concreto quanto a um anseio de fracionamento permanece no terreno do deboche; não há nenhuma ânsia de divisão nacional que se compare ao menos virulento separatismo espanhol, por exemplo. A despeito da degradação cultural, a despeito das tentativas de negação, a despeito das inegáveis diferenças regionais, o Brasil tem a mesma língua, tem uma história comum de construção nacional e tem uma identidade coesa; acredito nele como uma entidade política, a ser mantida tal qual está em suas dimensões, assim como José Bonifácio sonhou. Assim como D. Pedro II e Carlos Lacerda o amaram. Não me furto de repetir como considero infrutífero da parte de uma certa direita manifestar o tempo inteiro uma atitude antipatriótica, quando deveria explorar o patriotismo saudavelmente, sem descambar às insanidades do nacionalismo; não existe conservadorismo político no mundo que viva de cuspir e de insultar a própria nação onde se forma. O separatismo, no fundo, é a crença em que essa nação e essa identidade não existem, e que fracionar o Brasil em republiquetas falidas seria a única solução para recuperá-las.
As manifestações de rua pelo impeachment de Dilma, do Oiapoque ao Chuí, se deram a partir do despertar de um povo, que trajou as cores da bandeira nacional e cantou o hino em absolutamente todos os estados, do Norte ao Sul. Não foram manifestações pedindo que o país se dividisse. Foram manifestações pelo Brasil. Elas constituem, a meu modesto ver, prova contundente de que o Brasil não é um fetiche ou um mito: ele existe. Ele deve ser defendido e melhorado, não destruído.
Vocês, que pedem a separação, são minoria. E esse, particularmente, não é o tipo de assunto em que a minoria possa ter razão; se uma instituição social e política baseada em identidade nacional subsiste desde 1822, pretender rompê-la não pode ser um capricho. Exige uma base social enraizada e sólida. Ela, pois, é justamente o que não existe. Em momento que demanda união e sensatez, abraçar essa quimera como resposta para nossas dificuldades é fugir da raiz da questão e dar armas às forças que nos querem espezinhar e aniquilar.


2 comentários
Como toda gaúcha bairrista, já fui separatista. Na década de 90, ainda adolescente, quando a gente tem a ilusão que pode mudar o mundo. Hoje, mais madura, sei que não é uma boa ideia. Não por questões culturais ou ideológicas, mas práticas mesmo. Hoje moro em SC há 7 anos e tenho parâmetros de comparação, (deixei de ser simpatizante da esquerda aqui em SC), o RS, depois da hegemonia petista por 30 anos está totalmente quebrado. Sem condições de arcar com os seus compromissos, sem conseguir investir, totalmente parado. O povo, foi doutrinado aí longo das décadas de esquerdismo. Não reage. Não faz nada para mudar. Apenas acusa o governador que assumiu a “herança maldita”. Um país nessas condições seria a próxima Venezuela em menos de 5 anos. Muito triste.
Separatismo hoje, discutível. Bons argumentos, parabéns pela argumentação. Mas no passado, antes de 1822, Pernambuco quis e conseguiu por 74 dias ser um país independente. Entre as insatisfações estavam o privilégio dado aos portugueses. Entre as aspirações estavam a liberdade religiosa. Já o aspecto cultural existia há muito tempo, a identidade cultural pernambucana aqui é muito forte. Não é incomum ouvir frases como a que João Cabral de Melo Neto disse: “Não me sinto brasileiro, e sim Pernambucano”. Tenho minhas dúvidas se mais vale o sonho de uma pessoa (José Bonifácio) ao desejo de toda uma nação (“nação” mesmo, não somente estado).
Cordialmente.