Nesta sexta-feira, 10 de junho, a jornalista Mariana Godoy recebeu a presidente afastada Dilma Rousseff em seu programa de entrevistas. Prometemos que não entraremos em detalhes; Dilma já deu o que tinha que dar. Não revisitaremos suas mentiras sórdidas e seus devaneios incompetentes. Como, porém, somos frequentemente assaltados por uma curiosidade masoquista, própria do ofício, assistimos a alguns trechos da conversa. O que realmente nos chamou a atenção não foi o torpedear de bravatas; foi a inusitada participação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Terminada a entrevista com Dilma, Mariana Godoy disse a ela que tinha um presentinho para entregar: uma edição autografada do livro de memórias do prestigiado tucano, com uma carinhosa mensagem dando conta de que ele compreendia as “agruras” que ela está passando. Com um sorrisinho de canto de boca, a mandatária petista agradeceu, e o programa se encerrou. A estupefação estampada nos rostos de quem assistia, ao contrário, demorou algum tempo a mais para se desfazer.
A personalidade gentleman de Fernando Henrique não seria, em si, um vício; demonstrar solidariedade a quem sofre, por sua vez, em outra circunstância, seria, em si, um gesto admirável. No entanto, é preciso identificar de que lado está verdadeiramente o sofrimento, de que lado está a aflição, com quem está a responsabilidade. Aparecendo em denúncias de corrupção nas contas de campanha; responsável direta pela devastação orçamentária no país; núcleo de uma gestão que descontrolou o desemprego; acusada por Cerveró de saber tudo sobre Pasadena; acusada por Odebrecht de ter cobrado propina pessoalmente; representante pública nos últimos mandatos presidenciais de um projeto de poder que separou os brasileiros com níveis de hostilidade até então, no mínimo, sem paralelo na memória popular: por toda essa vergonha e esse horror a que submeteu todo o nosso povo, Dilma enfrenta um processo absolutamente legal de impeachment.
Não obstante tudo isso, Fernando Henrique insistia, até há bem pouco tempo, em dizer que Dilma era uma pessoa “honrada”. Mesmo de Lula, seu “criador”, dizia que ele era um “símbolo” muito importante e era preciso “cautela” ao pensar em prendê-lo – cautela que, diga-se de passagem, parece estar havendo, porque não compreendemos o que o líder bufão ainda faz à solta, declamando suas mentiras pelo país afora. Não importava o quanto o xingassem, o quanto o estraçalhassem, o quanto o insultassem, o quanto o demonizassem; não importava, até, o quanto inventassem mentiras sobre sua vida pessoal e seu governo, que fizessem dossiê contra sua própria esposa. Não importava que o chamassem de golpista e acusassem – a ele e a seu partido social democrata – de tramar o “golpe” do impeachment, de atentar contra a democracia representativa brasileira. Nada disso importava; o gentleman FHC, se eventualmente conseguia dirigir algumas críticas mais ácidas, terminava por se retrair e afagar os algozes. De formação esquerdista, sua paixão platônica pelo imaginário que cerca seus adversários – para nós, inimigos, posto que desejariam que não existíssemos – sempre acabava falando mais alto.
O gesto de enviar o presentinho autografado para Dilma, no atual momento, porém, nos parece um passo a mais. Em pleno processo de impeachment, quando os ladrões do nosso futuro procuram tramar as mais sórdidas negociatas, quer para tentar uma difícil reversão dos votos no Senado e trazer Dilma de volta, para o caos do Brasil; quer para tentar emplacar a absurda e inconstitucional medida das novas eleições gerais; FHC reforçou publicamente a imagem da petista como uma vítima sofrida que merece nosso carinho e nossa solidariedade. Como ser humano, respeitamos uma dignidade ontológica intrínseca que mesmo em Dilma existe; mas não é momento para dispensar tratamentos “gentis” a quem ainda tenta erguer suas garras destrutivas sobre o país. FHC não age como gentleman; age como mulher de malandro. Irrita os milhões de eleitores que insistiram – como nós próprios, aliás, confessamos ter feito – em tentar usar seu partido de esquerda perfumada para deter os trogloditas bolivarianos, mas cada vez recebem mais mostras de que o perfume tira aos tucanos o menor vestígio de virilidade.
O gesto de Fernando Henrique é o cúmulo supremo de uma oposição que não existe. Não somos daqueles que condenam o sociólogo ex-presidente por completo; muitos erros, mas também grandes acertos (ao tempo em que presidia o país), já marcam sua trajetória, e parcimoniosamente reconhecemos tanto uns quanto outros. Porém, ele mesmo não faz questão de preservar o respeito que poderia merecer, acrescentando epílogos lamentáveis à sua história como figura pública.
Politicamente, podemos dizer hoje, FHC está morto.

