Por iniciativa de Teori Zavascki, ratificada por unanimidade pelo Pleno do STF, a solicitação de Rodrigo Janot foi aceita e Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi afastado da presidência da Câmara e de seu mandato como deputado. Como quer que se encarem os aspectos técnicos da decisão, o fato é que não somos hipócritas e não manipularemos nossa lente moral. Corruptos devem ser punidos; todos, sem exceção.
No entanto, como não nos afetam as indignações seletivas e as manifestações desproporcionais dos petistas, psolistas e “isentões” do politicamente correto, acreditamos que a passagem do parlamentar carioca pela história política nacional, inquestionavelmente relevante e testemunhada por cada um de nós, merece um exame que a avalie em toda a sua complexidade. A verdade sobre Eduardo Cunha, que os governistas se comprazem em esquecer quando o erigem “campeão da direita tucana e golpista”, é que ele era, como seu partido, aliado do Partido dos Trabalhadores; Eduardo Cunha apoiou Dilma Rousseff em sua busca pela reeleição, exatamente como o vice-presidente da República e virtual presidente, Michel Temer. O evangélico, que já ocupou posições relevantes em governos anteriores – presidiu as Telecomunicações do Rio aos tempos de Collor e comandou a Companhia Estadual de Habitação aos tempos de Anthony Garotinho -, nunca foi exatamente um tipo ideal para a visão de mundo petista. Basta lembrar que apoiou a caricatural ideia do Dia do Orgulho Hétero, em uma tosca provocação às igualmente toscas esquerdas. Também é contrário à descriminalização do aborto e das drogas, crítico do Marco Civil da Internet e da regulação da mídia.
As incongruências e inimizades, mesmo as que marcaram época, nunca impediram o PT, porém, de fazer alianças com os setores oligárquicos e fisiológicos do PMDB. Alianças eivadas de tensões, de discordâncias, de conflitos de interesses, mas que se consolidaram, como hoje a Operação Lava Jato revela, através da coesão de um esquema corrupto de poder que assaltou as estatais e, em conluio com grandes empreiteiras, alimentou os interesses mais ignóbeis. Eduardo Cunha, em princípio, não era mais do que uma das células desse esquema; um entre vários políticos que apoiaram o regime estabelecido e, conforme revelam evidências robustas, participou dele. Um membro da casta política que se apropria dos recursos das instituições para gozar de uma vida suntuosa, à revelia da população.
Quis o destino que essa figura se tornasse Presidente da Câmara. Como tal, destrancou várias pautas importantes e resistiu a outras; colocou em votação a redução da maioridade penal, o comprovante impresso do voto e outras medidas que são, sob muitos aspectos, positivas. Eduardo Cunha deu à Câmara – ancorado, é verdade, em seu séquito de deputados “parceiros” – uma posição de INDEPENDÊNCIA em relação ao Poder Executivo raríssima em comparação com tudo que havia antes. Ele fez o Brasil experimentar uma maior independência de poderes, o que é desesperadoramente necessário. Isso incomodou muito o PT, incomodou Dilma Rousseff, e incomodou as esquerdas, apaixonadas pelo politicamente correto e pelo autoritarismo.
Então vamos bater palmas para ele? É nosso herói? Não, é claro. A Lava Jato chegou a seus malfeitos, com bases materiais muito sólidas. Está bem caracterizado que recebeu propina. Esperando proteção dos “aliados” petistas na Comissão de Ética da Câmara, foi abandonado. Foi então que, dotado de seu extraordinário conhecimento do Regimento da casa, com sua frieza incomum e sua postura impassível, Cunha, de posse de inúmeros pedidos de impeachment contra Dilma com bases mais do que suficientes para fazer ecoar a vontade nacional, lançou mão de um deles e autorizou o recebimento da denúncia. Conduziu magistralmente a parte que lhe tocava no processo na Câmara, e hoje o impeachment está no Senado. Depois de ter feito, como dizem os petistas, por vingança, a parte mínima – e constitucional, portanto totalmente legítima – que lhe cabia como presidente efetivo, em exercício de suas atribuições, Cunha não tem agora nenhuma ligação com o processo de impeachment. Não pertence a ele, não foi pedido por ele, não foi organizado por ele. Cunha não é o impeachment e o impeachment não é Cunha. Como rejeitou vários outros, ele entendeu que deveria aceitar um; se seu afastamento hoje invalidasse todos os seus atos como presidente, como querem os golpistas de ocasião na esquerda, também os pedidos rejeitados deveriam ser inteiramente revistos.
Isso é Eduardo Cunha. Com muitas provas pesando contra si, sem qualquer motivação altruísta, sem ser modelo ou herói para ninguém, ele, porém, cumpriu um papel muito positivo para o país. Essa é a realidade, e não seremos hipócritas de negá-la. Cunha é um personagem trágico, o autêntico “anti-herói”: um personagem que se origina na vilania, cheio de defeitos, mas que, por interesse pessoal ou por arrependimento – no caso em questão, a primeira opção, é certo -, usa seus talentos e suas armas contra um mal ainda maior, e ajuda a derrubá-lo. No entanto, seus crimes o marcam, seus erros o denunciam; não há como apagá-los. Ao final, depois que torpedeia o vilão principal, ele também cai. Também perece.
Nos últimos meses, Eduardo Cunha foi comparado ao personagem de Kevin Spacey no seriado House of Cards, Frank Underwood. O personagem é visto como um político maquiavélico e sinistramente genial que, ao final de uma das temporadas, consegue, de maneira sub-reptícia, assumir a presidência da República. Podemos compreender o paralelo. Reconhecemos em Cunha a frieza e a inteligência que ele vem demonstrando, e isso pode soar semelhante ao perfil de Underwood. Mas, ao que tudo indica, embora Cunha vá recorrer da decisão do STF, seu desfecho não terá o momento supremo de glória.
Cunha deve terminar mais como o icônico vilão da trilogia original da franquia de fantasia no espaço Star Wars, de George Lucas: Darth Vader. Não em sua personalidade frágil, perturbada, seduzida arduamente pelo Lado Sombrio; mas em seu final. Darth Vader serviu ao Império Galáctico de Palpatine, um regime tirânico, com mão de ferro; ao final, porém, arrependido – o que deve diferir do caso de Cunha -, matou o Imperador e pôs, portanto, fim ao Império. Vader tinha seu charme peculiar, que conquista fãs de todas as gerações; mas era um assassino de crianças e um executor frio. Seus erros, ao final da história, não lhe permitiriam apenas ir para casa desfrutar de um final feliz. Então, ele morreu.
Cunha não é o herói do impeachment, mas sua autorização de abertura do processo pode ser comparada ao golpe fatal de Vader no Imperador. Agora, ele não tem muito mais o que fazer; provavelmente chegou a hora de sofrer a sua própria derrota. Resta, talvez, um último grande ato, potencialmente devastador: com o prosseguimento do processo, quem sabe, fazer uma delação premiada. Será que Cunha chegará a esse ponto?


2 comentários
Excremento travestido de artigo, item muito comum depois da abertura da gaiola das loucas! Equivocado no conteúdo desde da autoria da frase atribuída ao Lacerda! E somos obrigados a dar atenção as essas merdas por causa das mídias sociais pagas para virarem privadas!
Estou tocado pela adequação do seu julgamento ao valor do seu próprio comentário. Em primeiro lugar, não encontrei qualquer frase atribuída a Lacerda neste artigo. O mínimo que pode ter acontecido é que o amigo viajou na maionese e comentou o texto errado. E você não é obrigado a dar atenção a nada; procure outro blog e seja feliz.