Leio com grande preocupação um comentário pífio publicado na coluna da jornalista Mônica Bergamo, atribuído a Emílio Odebrecht, presidente da poderosa empreiteira envolvida nos escândalos de corrupção na Petrobras e em sua rede de negócios, investigados pela Operação Lava Jato. Segundo Mônica, Odebrecht, cujo filho Marcelo está fazendo delação premiada em nome da empresa – delação que prometia atingir em cheio todo o universo político-partidário nacional – teria dito, “em conversa com amigos”, que “considerava importante que três pessoas saíssem poupadas da avalanche política: Lula, Temer e Fernando Henrique Cardoso, para que o país não ‘derreta’, segundo o relato do interlocutor do empreiteiro à coluna”.
Bergamo acrescentou ainda uma observação acerca da notícia de que executivos da Odebrecht teriam delatado dinheiro de caixa dois para o PMDB a pedido do presidente interino Michel Temer e para a campanha de José Serra (PSDB-SP) à presidência em 2010 – a notícia que ouriçou as hostes do petismo na semana que passa, por ajudar na sua narrativa estúpida de que o justíssimo, merecidíssimo e necessário impeachment não passaria de uma manobra dos fisiológicos peemedebistas e dos sociais democratas tucanos para livrar as próprias fuças. Segundo ela, embora prejudiciais, os relatos como estão livrariam Temer e Serra de serem enquadrados em acusações mais graves. Resume o Infomoney que eles poderiam ser acusados apenas de “crime eleitoral, de punição branda e mínima chance de prisão”.
Não entraremos aqui em especulações. Jamais dissemos que Temer ou Serra são santos e figuras imaculadas, e que PMDB e PSDB estariam acima da lei e da justiça – muito ao contrário! Quem o faz, em relação aos seus protegidos, são os petistas. Quanto a estes e a seu ícone maior, o infame Lula da Silva, a canalhice e o odor fétido do autoritarismo e da corrupção que os cercam são absolutamente notórios e evidenciados.
Concentremos nossas atenções em uma questão de valores e princípios. Não é a primeira vez em que alguém sai com esse tipo de argumento. Muitos supostamente temiam a realização do impeachment – que nada mais é que a aplicação da justiça contra a pior governante que o Brasil já teve em toda a sua história, aquela que destruiu o orçamento nacional, o que é até mais devastador que a própria corrupção em si – por conta do “trauma” que ele causaria à nação. O “trauma” que não causou quando Collor foi derrubado, sob o clamor dos mesmos petistas que ora defendem Dilma. Já o ex-presidente tucano Fernando Henrique – que, a despeito dos méritos de seu governo, junto a outros próceres de seu partido, acaba funcionando como pilar do “consenso social democrata” paralisante que pesa sobre o Brasil desde o berço da República de 88 – chegou a comentar que precisaríamos ter muita “cautela” para prender Lula, por ele ser um “símbolo” popular (sic).
Temos de reconhecer, para conosco mesmos, que projeto de nação queremos abraçar. O que é que vamos privilegiar. É o do “jeitinho brasileiro”, de que Rodrigo Constantino fala acidamente em seu livro Brasileiro é otário? Para prevenir o ônus das nossas más escolhas do passado e do presente, vamos “passar a borracha” e proteger figuras importantes para não deixar o “sistema” derreter?
O “sistema”, considerando-se por esse conceito o arranjo constitucional e institucional da Nova República, está podre por dentro. Abriga um amontoado de inconsistências e incongruências que se acumularam ao longo das décadas e precisam, sim, ser revistas e tacadas para fora. A única maneira de fazermos isso, A SÉRIO, é nos permitirmos as dores do parto e encararmos o peso da VERDADE. Só a verdade importa. Se ela é feia e suja com relação a todos os principais partidos do Brasil, se ela vai fazer cair a máscara de mais de um ícone ou liderança, se ela vai até mesmo prejudicar o governo em exercício e vai trazer mais um elemento de instabilidade à nossa economia combalida; se a curto prazo o encontro com essa verdade pode trazer mais tormento às nossas vidas – diante da intensidade com que a política e a economia, em função do tamanho do Estado, estão mescladas em nosso país -, NÃO É ABRAÇANDO CALOROSAMENTE A MENTIRA QUE VAMOS RESOLVER O PROBLEMA. Sejamos responsáveis e, em vez de colocarmos a cara debaixo do travesseiro e nos cegarmos aos malfeitos de uns e outros em busca de um conforto imediato, assumamos as consequências do edifício de podridão que temos alimentado há tantos anos.
NINGUÉM DEVE SER POUPADO, sr. Odebrecht. E senhores procuradores da Lava Jato, se qualquer um – QUALQUER UM, seja Lula, seja Temer, seja Serra, seja Aécio, seja Marina Silva, seja quem for – tiver as denúncias a seu respeito “maquiadas” pelos delatores, que estes últimos continuem a perder INTEGRALMENTE os benefícios da delação, como a Operação tem se mostrado disposta a fazer com quem só presta colaborações ilusórias. Tolerância zero!


2 comentários
Cara, ao acessar o site pelo celular aparece a propaganda da página no facebook e não temos opão de tirá-la. É algo extremamente irritante. Peço que tirem isso urgente.
Prezado, a opção para fechar está lá sim. Vou tentar verificar se há como pelo menos reduzir o quadrinho; talvez o X esteja escondido à direita da tela, mas nesse caso basta pressionar o quadrinho com o dedo e conduzi-lo para a esquerda da tela, que o X prontamente aparece. Obrigado pela observação!