Há alguns dias, um título curiosamente vem alternando sua presença em colunas e artigos de jornais falando sobre o Rio de Janeiro, com pequenas modificações: “a vida é muito curta”. O primeiro “a vida é muito curta” da série parece ter sido a coluna de Mariliz Pereira Jorge, na Folha de São Paulo, intitulada exatamente A vida é muito curta para morar no Rio. A autora fala de seu desejo inicial de viver no Rio, e de sua desilusão; descreve uma série de misérias que o carioca conhece muito bem, levando à conclusão que dá nome ao seu texto. Mostra a “maquiagem” espúria da miséria das favelas; mostra que muita gente apenas “sobrevive”; denuncia os horrores do tráfico e da milícia. Depois, mais para o final, conclui que “criminalidade, pobreza, corrupção e falta de toda a sorte de serviços bárbaros são problemas em maior ou menor grau em todas as capitais brasileiras, mas nenhuma se vende como Cidade Maravilhosa”.
Já no O Globo, Mônica Montone, paulista que realizou o sonho de morar aqui, procurou rebater o texto da primeira com o título A vida é muito curta para falar mal do Rio. O curioso é que sua visão do Rio de Janeiro é, reparem, quase a mesma de Mariliz: Mônica descreve o que considera charmoso na vida da cidade, interessante, prazeroso, mas também reconhece as misérias e a insegurança crescente. No entanto, a conclusão dela é a oposta. Ela acredita que Mariliz foi cega ao que o Rio tem de bom, e afirma que viver na cidade não deixou de ser seu sonho realizado, apesar de ela estar em sua PIOR FASE.
Depois de ler os textos das duas, ainda encontrei um terceiro na Internet, chamado A vida é muito curta para falar de cidades, de Gregory Kaskus, também formado, aliás, na ECO-UFRJ. O autor apela para movimentos e ONGs de esquerda para pintar um Rio habitado por pessoas engajadas e que fazem a cidade valer a pena, mas deixando isso de lado, seu principal argumento é que São Paulo também exibe casos de violência e governantes com atitudes bizarras (como o gesto de Haddad em recolher cobertores de moradores de rua) – particularmente este é, a meu ver, um argumento muito correto, diga-se de passagem -, e que estamos agora mesmo assistindo a atentados terroristas e golpes militares em outras cidades e países do mundo. Olhar para fora, por essa ótica, seria o caminho para atenuar o problema que existe aqui dentro.
E a minha modesta opinião nesse imbróglio? Por um lado, Mariliz tem razão, e Gregory e Mônica uma boa dose de equívoco – e quem o diz é um sambista (inclusive a minha escola do coração é a mesma destacada por Mônica em seu artigo), carioca – para sermos justos, morador de um universo quase fechado em si mesmo chamado Ilha do Governador, e que tem profundas dificuldades em se imaginar vivendo em qualquer outro lugar.
Não é possível assistir ao terrível vídeo da menina de sete anos desesperada após presenciar o esfaqueamento da mãe, as mortes em meio aos tiroteios nas “zonas de guerra” com os bandidos do tráfico, o receio de colocar os pés fora de casa e de ir a certos lugares dos quais talvez não se volte, o descaso com o bem público e com a natureza, a cena cultural e da imprensa tomada por retóricas que exaltam por vezes o grotesco e o coitadismo – e, diante de tudo isso, acreditar que “a vida é muito curta para falar mal do Rio”. Para a mãe da menina e as vítimas dos tiroteios, a vida FOI muito curta mesmo morando aqui – e isso daria uma razão extra ao título de Mariliz. “Falar mal” é um caminho fundamental para se desejar chegar à solução dos problemas.
Não, porém, “falar mal” com intenção destrutiva e contraproducente; não atacar por atacar. A crítica nos faz crescer. Aqui eu já tendo a compreender um pouco a situação de Mônica e Greg – não só em relação ao Rio, como em relação ao Brasil como um todo. Tendo a rejeitar posturas iconoclastas em política, que sustentam ser a construção de imagens e símbolos, de referências no ideal – sem que se tornem a “ditadura do abstrato”, que desemboca na “doutrina armada” de que falava Edmund Burke -, uma ingenuidade ou um erro. Essas imagens e símbolos despertam paixões, e a paixão, se for dosada pelo homem como se doma um corcel, o estimula a lutar pelo que acredita.
Não devemos ter vergonha de ser cariocas ou de ser brasileiros; se queremos sustentar a crença na Cidade Maravilhosa, é preciso tirar a bunda da cadeira e lutar para que ela seja mais do que um slogan. Se queremos um PAÍS melhor, não o conseguiremos, a meu ver, desprezando-o e chutando-o como a um cachorro morto. Não é o melhor, não está nem entre os mais avançados, mas o Brasil é o meu país, e o Rio, a minha cidade; eu faço parte dessa gente, tenho o sotaque deles, vivo no clima deles, tenho maneirismos e trejeitos deles, em alguma medida. Não adianta viver a delirar com uma cultura rigorosamente anglo-saxã se não é isso que somos.
Mas podemos ser mais. E para sermos mais, precisamos FALAR MAL, SIM! Falar mal do que está errado. Denunciar o enfeite, a falsidade, o engano. Denunciar a maquiagem e a fantasia que depositarão sobre as nossas mazelas e sobre o nosso desastre financeiro por ocasião das Olimpíadas para exibir um lindo espetáculo para o mundo, estabelecendo faixas especiais de trânsito para delegações e grupos envolvidos nos jogos, enquanto nós, quando as luzes se apagarem, permaneceremos no escuro, como cidadãos de segunda classe. Cidadãos que, mais do que nunca, temem respirar ar fresco e não retornar para casa.
Acredito no amor, mas ele não pode ser cego. Ao menos, não tão cego. Se for, ele nos matará.

