O progresso! Ou melhor… o Progresso! O que pode haver de melhor na humanidade que não seja o progresso? Da agricultura, passando pelo desenvolvimento urbano, poesia, religião, mitologia, filosofia, ciências… tudo isso já passou por uma boa e gorda dose de progresso no decorrer da História humana. O que poderia existir de errado em algo que define a passagem de culturas extrativistas para culturas de plantadores, onde a comida pode ser bem controlada, havendo mais colheitas e garantias de alimento?
Toda a História do Homem é pontuada de inúmeros progressos, sejam eles pessoais, ou coletivos. Um aumento na sua remuneração é um progresso, principalmente se esse acréscimo for muito significativo em sua vida financeira; carros mais seguros se tornam um progresso grupal, pois funcionariam em uma economia de livre mercado, alterando a segurança de quem consome e utiliza veículos para trabalhar, ou nos seus momentos de lazer.
Na filosofia o progresso é retumbante. Antes de Platão, e sua proposta da Segunda Navegação, não se separava a força da constituição do universo da própria constituição do cosmo; em resumo, as causas não seriam absolutamente físicas, mas inteligíveis em formas (“Ideia”, “ιδέα”, em grego clássico, não significa “ideia”, como no português, mas “forma”) suprassensíveis, isto é, Platão praticamente “criou” o que nós chamaríamos de conceitos[1].
Nas ciências empíricas o progresso não é senão algo deslumbrante, pois se ontem era capaz de investigar o comportamento de células diversas na corrente sanguínea, hoje ela é capacitada para investigar o genoma humano – quando não de animais já extintos!
Então qual é o problema do progressismo? O problema nasce séculos atrás, quando, ao tentar buscar as razões científicas (no corpo humano) para a Civilização Europeia ter abarcado o mundo à sua volta, ideólogos e cientistas pensaram em estar de frente para uma Verdade empírica e incontentável: a superioridade física do Homem Branco. O “físico” não envolvia apenas a musculatura, mas também a imunidade a males mentais, doenças e maior capacidade cerebral.
No século XIX e até a primeira metade do XX, era desaconselhada, ou até mesmo proibida por lei, a miscigenação do que chamavam de “raça branca” com as demais raças do mundo, pois assim os filhos mestiços poderiam ser um empecilho pessoal e nacional para todos, já que poderia haver uma população mestiça em grande escala, impossibilitando a ascensão econômica e social de um país. O “progresso”, claro, não poderia ser impedido por raças inferiores, para essas mentes do passado.
A noção de que “o futuro trará algo melhor” ou que a Ciência traria conquistas capazes de transcender a natureza do homem, e todos os seus problemas, não só era moda na intelectualidade ocidental, como uma normal geral. Kant acreditava em uma paz total no futuro; Marx além de crer em um futuro perfeito e comunista, acreditava que tudo funcionava em nome de preceitos que lhe pareciam “científicos” para determinar o motor da História humana; já Comte fazia uma apologia a um andamento positivo que levaria a humanidade a abandonar a religião e se guiar única e exclusivamente pela ciência, chegando a uma paz perpétua – isso para não falar do filósofo mais famoso do ocaso do século retrasado, Spencer, que tomou ideias do evolucionismo para encaixar em todo o conjunto social humano, como se a biologia conseguisse explicar toda a problemática do Homem[2].
Em diferença com o progresso unicamente empírico, que recorta um pedaço da realidade do mundo para explicá-lo, e apenas este pedaço, e com Platão, o progressismo toma unicamente a sua realidade, o que se entende como progresso, para servir de medida para toda a humanidade e toda a existência. Cria-se um mito do “saber”, do “progredir”, e com ele se avalia toda e qualquer área, não importando qual seja.
Tal abarcamento absolutista se dá pelo modo por que um progressista se coloca na história: como uma espécie de medida-mor ou, pior, como o cume de uma cadeia histórica. No primeiro caso, as pautas do século em que o progressista vive servirão de modelos para o restante das culturas, indivíduos e para todo o restante dos períodos históricos; o futuro caminharia apenas para um progresso contínuo, logo, o retrógrado seria sempre algo ruim, algo para incapacitar as ciências e o progresso social.
Foi assim, tendo como gravidade única e exclusivamente sua própria e inovadora época, que os maiores genocídios e os maiores sistemas de discriminação foram criados no século XX. Nenhum antigo seria capaz de sequer conceber algo como a engenharia social, o racismo científico, um campo de concentração; nenhum medieval teria a capacidade de imaginar um mal tão grande quanto armas nucleares, fósforo branco, eutanásia em massa, aborto desregrado para controlar a natalidade. Só o século XX, em proporção, foi o mais sangrento da História Humana – ‘ não é por acaso que ele é o filho do século XIX, berço do cientificismo, berço do progressismo.
O progresso por si mesmo, ironia das ironias, da segunda metade do século passado até a atualidade, prega uma desvinculação das ciências. Não é mais considerado atual usar de parâmetros físicos para determinar certas coisas, mas sim abolir toda e qualquer forma de criar rótulos, baseando-se na mutabilidade constante na humanidade, isto é, em como as pessoas se sentem.
O subjetivo tomou totalmente o lugar do objetivo. Mesmo publicações científicas se veem contaminadas por isso. Áreas como a Psicologia, por exemplo, cedem em relação aos parâmetros constantes da mente humana para determinar certos males e doenças mentais, preferindo colocar o peso no fator social e relativo para definir o que é o quê – e não se trata de uma mera margem, algo que ladeie os estudos e investigações da área. É algo central, que determinaria uma grandiosa soma de assuntos psicológicos.
Em outras áreas do saber, como a Sociologia, a ideia de que tudo não passa de uma construção social vem acompanhada de uma noção progressista de como se deve ver a sociedade. Causas progressistas, nas universidades, dominam os espaços com pichações, piquetes, manifestações, adesivos e cartazes. Por que fazem isso? Porque estão em busca de um mundo melhor, de um futuro.
O argumento teleológico só mudou de forma, mas parece o mesmo dos séculos XIX e XX. Ao invés de um futuro povoado apenas por brancos, ou um futuro de paz perpétua, ou comunista, ou um liderado por cientistas, a humanidade, para alguns, irá para o caminho da Noruega e Suécia, com o Estado de Bem Estar Social imperando, em que qualquer um que seja contra as cotas ganharia um espaço na cadeia, e onde, caso você se sinta, por exemplo, pertencente a um gênero novo, nunca antes mapeado pela “ciência”, numa manhã, você pode exigir direitos de amplitude global sobre esse novo gênero, na tarde seguinte; ter uma crise de identidade no crepúsculo e voltar ao gênero normal de madrugada.
Lindo futuro, não?
[1] O “conceito” de Homem não é algo físico. Não existe “humano”, e sim um indivíduo humano, pois o “humano” não é algo físico, mas formal. Aristóteles irá desenvolver a Segunda Navegação com sua Física e Metafísica, levando em conta a parte sensível e imanente dos seres.
[2] Assim disse Darwin: “Em algum período futuro, não muito distante se medido em séculos, as raças civilizadas do homem vão certamente exterminar e substituir as raças selvagens em todo o mundo. Ao mesmo tempo, os macacos antropomorfos… serão sem dúvida exterminados. A distância entre o homem e seus parceiros inferiores será maior, pois mediará entre o homem num estado ainda mais civilizado, esperamos, do que o caucasiano, e algum macaco tão baixo quanto o babuíno, em vez de, como agora, entre o negro ou o australiano e o gorila”.

