Todos os vertiginosos legados escolásticos e todas as grandes conquistas da metafísica clássica beberam na fonte inesgotável do saber infinito e, desavisados, sem saber de onde, beberam em fontes sublimes. Cabeças sublimes se avolumam e se agigantam quando respaldadas pelas luzes celestiais. Cada um desses insignes filósofos soube entreter letras inspiradas e levar adiante projetivas ideias. Na averiguação dos efetivos lumes da nossa civilização entretemo-nos com verdadeiros inspirados aos quais devemos a nossa orquídea esplendorosa. Desses insignes pensadores adviria um elo comum através de séculos de distância, um pensamento absoluto que ultrapassaria a história e nela se inseriria: a ideia central de um Deus cujo nome é amor. O Deus único de Aristóteles, o Bem supremo de Platão e o Deus amor dos cristãos. Conquanto nos esforcemos para assegurar a elasticidade do conceito, perturba-nos a intensa coexistência dessas instâncias máximas: Deus único, Deus de amor, Deus de Jesus. Deus se fez ao alcance do homem e Deus se fez ao alcance de uma humana definição. Menos por ousadia que por desespero de luz, o homem soube se ver como filho e, certo, olvidou a senda que lhe direcionava o espírito, mas, lúgubre e falho, conservou ainda essa dignidade máxima em seu coração. Jesus foi o espetáculo grandioso da consumação de uma verdade predita e Jesus foi a boca de Deus. Todos os estudos que se consumiram até então desprezavam esse aspecto fundamental, a saber, a máxima presunção humana de estabelecer o homem como filho de Deus. Presunção que Jesus asseverou e da qual continuamente fez-se portador. A trajetória ascensional do pensamento pagão se sustentou entre os desmantelos de seu território e continuou a influenciar cabeças ilustres e a fomentar estudos e aprofundamentos. Convencionou-se altercar as contradições históricas com a expansão religiosa, mas a real história é tão somente a permanência do espírito unificador da doutrina que se haveria de imprimir.
Enquanto a turba deleitava-se em prazeres, o coração nobre de um outro povo se refugiava na fé e na esperança da verdade e da luz. A contiguidade entre os povos erradicava a necessidade de preterir o velho em direção ao novo e as conclamações bélicas de Alexandre convenientemente estabeleceram esses limites. Dá-se, então, a manutenção das excelentes formas de pensamento grego, formando-se posteriormente a hierarquia romana. Contudo, o deslinde se deu. Roma estava em chamas e as menores cercas estavam desfeitas. Césares destruídos e conturbadas hordas disseminadas. Todos se intimidaram perante a permanência obsoleta de um império e construíram as próprias leis em tentativas de prevenção. Os espíritos abismaram-se em seus recônditos esconderijos e assim se configurou a Idade Média.
Continuava, porém, entre as tantas disputas territoriais a comunhão evangélica dos pobres que a ousada querela mistificadora de fé quis estabelecer como burocracia elitista da mais proveitosa forma. Convencionou-se a Igreja e enalteceu-se o espírito sob o poder papal e então a boa nova se transformou em demonização consignada aos territórios desmantelados. Desordenadas cruzadas se desarvoram intrépidas em nome de Cristo sem saber que a majestade divina escusava tais pretensões.
O homem se levantou em plêiade e abstraído das próprias deliberações entusiasmou-se pelo mar. Entreteve comércios, entregou-se ao risco e insurgiu-se contra a semente nefasta da negra deterioração da mente. Comunidades e cidades se constituíram, Igrejas se refizeram e contendas se alastraram produzindo um entusiasmado ressurgimento do ímpeto de ação e ousadia intemperante. Concederam-se burgos, construíram-se escolas, ergueram-se eficazes centros e desterraram-se os tesouros excelsos da antiga e brilhante civilização. Conduzidos pelas demandas de poder eclesiástico surgiram portentosos depósitos de desterritorializações e o tesouro absorvido pela Igreja se converteu em papel moeda. Construíram-se benevolentes estabelecimentos de ensino em que a mais elementar matéria de ciência se transformava em debates fervorosos e absolutamente brilhantes e o resgate da Grécia se fez princípio norteador dos estudos universitários. Quantos estudos conclamados a essas esferas enobrecidas, quantas ideias gigantes e devastadoras e quantos pensamentos meditados à exaustão!
Concentremo-nos no real valor da filosofia escolástica. A Igreja se estabeleceu doutrinariamente a partir de uma reflexão exaustiva em torno das questões centrais da metafísica grega. Conceder valor ao resgate de tão inestimável patrimônio é o nosso dever e valorizar seus efetivos desenvolvimentos é questão de honra. São Tomás de Aquino acercou-se do pensamento grego – mais especificamente de Aristóteles – e fez ver ao mundo que a lógica conduzia à plena aceitação do que o cristianismo fervorosamente proclamava: a ideia de um único Deus. Convincentemente entreteceu controvérsias acerca da liberdade, estabelecendo teorias acerca do livre arbítrio e da predestinação, além de estabelecer limitações ao conhecimento humano escudando-o pela fé.
Contingências escusas se sobrepuseram à excelência moral desse insigne pensador, mas a trajetória se refez e entrecortou-se através das labutas expansionistas dos colonizadores cujo cunho emancipatório celebrou também a liberdade de ideias, surgindo então a ciência como aliado maior na busca pela verdade. Movimentando-se mais na terra do que no céu, o pensamento humano cunhou o espetáculo grandioso das tecnologias e invenções e despertou para a própria capacidade inventiva e suprema autarquia intelectual. Desvinculou-se de alguns dogmas e entreteve experiências realmente decisivas para o despertar de sua própria consciência. Conduzido pelo fogo luminoso do progresso, perseguiu as leis ocultas travestidas na natureza e desmembrou os vórtices pelos quais se entreviam as celestes estrelas. Questões menos nobres e mais prementes advieram e a era da técnica se consolidou entre tantos arranjos sólidos e pelos tantos manejamentos promovidos pelo homem em torno da natureza. Consolidou-se o terreno da excelência tecnológica e a impetuosidade intelectual focou-se na própria senda evolutiva e enaltecedora através da qual o homem se tornara senhor de todas as espécies. Galgaram-se terrenos férteis em torno da fabricação material e o domínio paulatino da natureza fez o homem exultar por seu poder. Tentativas explícitas de redirecionamento do homem a Deus eram rechaçadas e por ora depreciadas enquanto seus afazeres se dinamizavam e jorravam como ondas sinistras de poder desavisado.
Conduzido pelo juízo e pela razão desarvorou-se em tantos experimentos que se agigantou demasiado e quase sucumbiu ao peso mortificador da própria glória. Quantos estudos se realizaram em meados do século XVII sobre contingências próprias do conhecimento finito!? Quantos tratados se recrutaram entre limitações e desterros da própria razão? Qualquer meia verdade se desfaz frente a própria subjetividade proscrita por si mesma a seus estreitos limites. Qualquer joia da gloriosa civilização se encontra sob suspeita quando o critério se estabelece a partir da própria subjetividade humana. Kant se entretém nesse aspecto e conjura o homem aos auspícios da própria moralidade, visto que a subjetividade racional se vê fortemente fustigada. Através da consciência moral o homem perscruta o infinito e através dela se conduz à liberdade máxima da sua maioridade intelectiva. Conduzidos fomos ao outro lado da excelência humana e estabelecido foi que a excelência da hegemonia humana sobre a terra ligava-se sobretudo à sua soberania moral. Contudo, quis o homem questionar esse outro lado e a própria moralidade foi desterrada de sua honrada posição. Conduziu-se o homem por estradas perdidas de questionamentos viris e, desterrado de si mesmo, promulgou-se artífice de sua própria lei. O sopro nietzscheano entrecortou os anseios nobres de corações saudáveis e desmembrou o homem, aniquilado ao opróbrio de sua própria ruína. Conduzido pela mais destemida força telúrica consumida pelo homem, questionou a Lei maior e o cristianismo, desarvorando horríveis instintos de libertação doentia e entretecendo linhagens desavisadas e demasiado imponentes, sem, entretanto, lograrem triunfo total. Conduzido o homem ao ateísmo, intensifica-se a radicalização do costumeiro desdém para com as realidades cósmicas, entrecruzando-se desalinhos mentais e morais na própria escola acadêmica que hoje se encontra desalmada e sem vigor ante a própria dissolução da Filosofia no que tem de grandioso e espiritual. Convém, pois, resgatar correntes e encaminhar o pensamento para a rota perdida.
Hoje o homem se refaz e se refrigera através das lentas maturações do espírito. Quase todos os povos se encontram em estado de equilíbrio no que diz respeito a estranhas práticas de condutas menos nobres, ou seja, possuem uma certa qualidade moral que os eleva e distingue da animalidade. Continuamente se enlaçam feitos entre a cultura e a espiritualidade e continuamente na história do homem se entrecruzam estradas terrenas e celestiais. Produzir a máxima elaboração conceitual depende da permanência de conceitos já elaborados que se dissolveram entre nós. Sem isso não se haverá de entrelaçar o fulcro principal do pensamento, qual seja, a permanência na história do pensamento cósmico. Deus se fez presente e se deu a conhecer na história. Seu triunfo deveu-se ao ente maior que o representou e por isso coroar de êxitos a figura de Jesus equivale a possuir o máximo conceito da produção humana. É preciso reestabelecer novamente essa relação e assim despertar em nossos corações a questão esquecida.
Somos um ente no qual a maior proposta se lança e, entretanto, somos caminhantes de uma longa jornada. Negamos as fisionomias firmes dos deuses olímpicos, negamos a permanência entre nós de deuses em vias de menosprezar nossos padrões morais e enaltecemos através do povo judeu um único e só Deus a cuja glória nos dedicamos. Somos depositários de sentenças morais e somos portadores de promessas. Somos afeitos ao consórcio com os céus e produzimos uma civilização democrática centrada na promessa de fraternidade entre povos e nações. Contudo, o atual estado de recrudescimento deve-se a desvios de rota promovidos pelo próprio homem, cuja liberdade o dota de uma infinita possibilidade de erros. No entanto, o homem que refaz a rota se compraz em estabelecer meios de restaurar o pensamento. Temos, pois, uma missão frente a uma cultura carente de elo. Sabemos todos os rumos necessários à libertação radical do pensamento e já nos posicionamos nos fronts propícios ao enfrentamento.

