As sociedades humanas vivem em certas constantes gerais, sob universais abstratos. A corrupção, a guerra, a justiça, a paz, iniquidade, espiritualidade, amor, ódio, honestidade, igualdade, injustiça são universais abstratos existentes em todas elas, ainda que de maneira plural.
As diferenças qualitativas e quantitativas dos universais na prática humana existem temporal e culturalmente, mas obedecem a formas contínuas e perenes. A corrupção, numa aldeia indígena, é diferente daquela da Rússia de Putin, que é diferentíssima daquela da França de Luís XIV, esta que difere da corrupção existente na cultura política dos Zulus do século XIX; porém todas essas variantes consistem numa única e imutável coisa: corrupção. Ela transcende as sociedades em si mesmas e é um elemento do próprio Homem, abarcando o grupo e o indivíduo.
Assim, todas as civilizações e sociedades existentes e que já existiram têm seus méritos e problemas constantes. A injustiça no meio social é universal na humanidade, não existindo nenhuma sociedade plenamente justa para consigo mesma. Mesmo nas políticas contemporâneas mais progressistas possíveis, ao se quebrar um tabu, ergue-se outro – não é à toa que se casar virgem, no século XXI, se tornou um tabu.
Dada a impossibilidade de as culturas humanas saírem da problemática social, de se afastarem completamente dos universais, é comum e faz parte da existência humana, em um meio social, haver disparidades e males diversos. Mas há algo para além dessas mazelas comuns.
Não estou seguro o suficiente, em matéria histórica, para afirmar que o movimento revolucionário (intelectual, antes de tudo) foi o criador de fato da tensão social positiva, isto é, da exacerbação de problemas sociais existentes, de forma artificial, não natural; contudo, é nos movimentos e nas mentalidades revolucionárias (como os da Revolução Francesa) que se impulsionam a notoriedade e a importância das disparidades, contradições e disparates no mundo.
Que o “preconceito”, por exemplo, seja um mal em uma gama de situações é um fato inegável, assim como é inquestionável a existência de discriminações absurdas no nosso passado recente – mas também no mediano e no mais distante –, como o racismo e (sim) a homofobia, com agressões físicas, porém, sobretudo, com ataques verbais. Mas há também o “apontar de dedos” forçoso, a construção histórica criada para causar mais convulsão do que propriamente existe.
Já que todo grupo humano possui preconceitos e discriminações para outros grupos internos ou externos, mesmo uma comunidade em plena ordem, ou muito pacífica, terá tais mazelas, ou seja: a paz, o bem e a ordem social não dependem da inexistência desses males humanos. Qual preconceito desestabilizava nações há algumas décadas? Poderíamos citar o racismo, em alguns países, ou outros tipos de ódios, tais como o antissemitismo, porém, são exemplos extremos e raros.
Passado o século XX, a taxa de problemas devido a antigos preconceitos cai, embora outros se ergam, de forma diferente, normal e até mesmo desejada pelas pessoas. A religiosidade tem se mostrado um tabu acadêmico, por exemplo, além de ser execrada cada vez mais no espaço político e intelectual (pode-se dizer, com segurança, que a única coisa que salva a representatividade religiosa em certos países do Ocidente, hoje, é o próprio sistema democrático), acusando de teocrata qualquer sacerdote, ou qualquer interesse religioso na política e nas leis. É uma nova discriminação, um novo dano (e dessa vez de uma minoria contra uma maioria), mas que é alçado ao patamar humanista.
Para além das possíveis formas de preconceito, e de sua permanência terna no Homem, é preciso distinguir um mal social naturalmente criado pela passagem dos tempos de um artificialmente implantado na sociedade. Tal diferenciação pode ser difícil de ser criada, porém alguns fatores podem contribuir para essa distinção.
Já que a taxa de racismo, por exemplo, decai consideravelmente dos anos de 1920 para os anos de 1980, em terras brasileiras, por que tratar do racismo, mesmo pós-década de 80, como um mal que ablui tudo e todos da nação, quando ele despencou em menos de um século já há quarenta anos?
Pode ser que fosse muito bem justa uma política de reparação histórica no início do século passado, quando a escravidão mal tinha acabado e conjunturas sociais inteiras se voltavam contra os negros. Há mais de cem anos, uma boa parcela da população negra fora escrava, décadas antes, e mais: não tiveram direitos que abarcassem todos os anos de exploração que sofreram. Não houve terras, dinheiro ou qualquer tipo de indenização. Cotas ou bens materiais poderiam sanar um vácuo econômico e de desenvolvimento da população negra do Brasil, mas há cem anos. Hoje o Brasil é outro.
O que se tem quando, revivendo um preconceito já decadente, se clama por uma dívida histórica em forma de leis raciais na atualidade? Atualmente, qualquer ato negativo voltado a um negro já é relacionado ao racismo, à cor da pele. Negros não passam em universidades? Culpa da sociedade racista! Negros morrem mais em confrontos com a polícia? Racismo! Culpem a sociedade toda; negros são aqueles que mais matam e mais roubam? Vítimas de uma sociedade racista, claro!
Aqueles que apontam preconceitos, como uma matrona puritana aponta pecados, não apenas denunciam injustiças na sociedade, mas pervertem o próprio preconceito, modificando-o, manuseando-o de acordo com seus interesses, suas perspectivas. Daí é que, como quem tira um coelho da cartola, os movimentos da negritude hoje simplesmente militam contra a possibilidade de existência de um racismo contra brancos. O privilégio de serem os agredidos é apenas de negros. Mas… Privilégio de serem agredidos?
Ao perverter um mal social e manipulá-lo, movimentos progressistas conseguem uma espécie de status. Vítimas, normalmente, devem ser socorridas e amparadas por serem vítimas. Se um furacão atinge uma área, as vítimas dessa catástrofe devem ser ajudadas pelo Estado, isto é, devem ter privilégios que não fazem sentido para os que não foram vitimados; assim também é com os que sofrem de roubo, sequestro, agressão física, etc. A lógica também funciona fora da lei e da política: se você sofre de um pequeno corte em casa, nada mais natural do que os outros te ajudarem com o ferimento. Ser uma vítima é ter um status, e isso te dá direitos e retira certas obrigações. Isso é o que a esquerda mais busca para seus queridinhos.
Os queridinhos da esquerda, estes que sofriam ou sofrem de um real preconceito, não ganharam suporte para seus problemas sociais nela, mas sim uma perversão do que já sofrem. O que ocorre quando uma mulher, um negro e um travesti levantam bandeiras contra o progressismo? Eles são execrados… por serem mulheres, negros e travestis! Basta ver a reação do PSOL quando Freixo (seu novo herói) perdeu no Rio de Janeiro, ou quando Fernando Holiday (que veio de família pobre, é negro e gay) se tornou vereador em São Paulo – não sabem o que ocorreu? Nada além de ataques racistas e classicistas. Fure a greve e não importará se é trabalhador ou não, você pode ter sua garganta cortada pelo sindicato… Seja negro e de direita… e te chamarão de capitão do mato.
No fundo, as minorias e todos os grupos que a esquerda defende são massas de manobra. Não há interesse maior do que a Revolução (ou se esqueceram das fotos de Antônio Gramsci decorando todo recanto esquerdista?). Se amanhã negros, gays, mulheres, pobres ou o que for se mostrarem um impedimento para a Revolução… Serão obliterados com todo o machismo, racismo e homofobia que podem existir.

