“As objeções extraídas do que há de vago na fórmula democrática provêm do fato de se ter desconhecido o seu caráter essencialmente religioso” (Henri Bergson. As duas fontes da moral e da religião)
Nosso modelo atual de sociedade está em um estado de inerência com a matéria, quando já poderia estar para além dela. A vacuidade das fórmulas democráticas não significa ausência de força de seu conteúdo a não ser quando esse conteúdo se acha preenchido por outras coisas que não aquilo que o deveria preencher; desse modo, segue-se à estrutura trinitária da república não a liberdade, a igualdade e a fraternidade, mas a luxúria, a usura e o luxo. Com isso não se trata aqui de denunciar o modelo capitalista gerador de riquezas, senão a vagueza moral que o acompanha. A proposta política que atualmente nos parece mais compatível e condigna a um coração cristão é aquela que possibilita a construção social a partir da construção de si, ou seja, aquela que aprimora os sistemas políticos de modo que juridicamente os sujeitos estejam cada vez mais livres naquilo que lhes compete enquanto indivíduos e enquanto cidadãos e que, assim, possam, por exemplo, promover projetos de assistência mútua a partir de suas próprias propensões, se tais propensões houver, porque, sendo a questão fundamentalmente moral e não política, a política deverá refletir a trajetória que a constitui e, se ela assim o fizesse efetivamente ao invés de se perder em desvarios teóricos fora do eixo norteador central que nos mantém em equilíbrio, ela se pautaria pela institucionalização de regras e leis justas e pautaria o bem comum segundo normas já bastante conhecidas – embora distorcidas. Isso significa dizer que se houvesse uma política eficaz que tivesse sido estabelecida como o resultado natural da real trajetória existencial de um povo, essa política jamais se pautaria por princípios alheios àquilo que o cristianismo já propôs.
Disso podemos concluir que, entre um Estado laico, baseado em princípios cristãos, e um Estado autoproclamado cristão não há nenhuma diferença efetiva, já que a laicização do Estado foi inerente ao desenvolvimento social consubstanciado a partir da doutrina cristã, que defende uma história paradigmática que em nada tangencia a história secular, no sentido de que sabe ser impossível a salvação a partir da pura imanência e, por isso mesmo, impossível a efetuação no mundo de uma sociedade absolutamente justa, uma vez que a justiça só se realiza através da transcendência que invade a imanência no coração do homem. Isso já o provara Sócrates a partir de sua condenação pelo Estado e já testemunhara Jesus com a sua crucificação.
Se aceitarmos a imanência humana como definitiva, a perspectiva política tenderá para o lado da destruição e da dissolução, porque refletirá a própria desorganização moral do coração humano e se aceitarmos a transcendência como algo que nos norteia trataremos a imanência como um seu reflexo e, sendo assim, não haverá como possibilitar ao político uma ingerência maior sobre o indivíduo do que aquela que abre a ele a possibilidade de pôr-se a si mesmo na abertura plena da moral já efetuada pelo Cristianismo, dando àqueles que pretendam continuar no recrudescimento a chance de dele sair pelo desenvolvimento de sua própria consciência, respeitando a sua própria experiência, desde que essa não seja incompatível com a própria ideia de possibilitar aos outros a busca de seu próprio florescimento moral. Assim, entre os que aceitamos o Cristo e que albergamos esperanças de um bom ordenamento político, parece não haver espaço para os que pretendem impor regras arbitrárias de conduta e bons costumes, pois tais regras, em sendo impostas, ferem aquilo que todo cristão sabe ser inerente ao próprio valor de sua moralidade, a liberdade.
Em sua última obra, As duas fontes da moral e da religião, no último capítulo, intitulado mecânica e mística, o filósofo Henri Bergson aborda a questão da técnica e de sua relação com a sociedade democrática, aparentemente sugerindo que o capitalismo sem respaldo moral perde-se naturalmente em meio a ânsias de lucro e de poder, o que obviamente não significa uma crítica ao sistema enquanto tal, mas às pessoas que vivem sob ele e que, uma vez relacionando-se novamente com o dinamismo essencial de sua própria religião, acabarão por perceber que o progresso técnico não está voltado para o luxo egoísta de alguns, mas para a esperança de uma redenção material de uma humanidade cuja espiritualidade recém-desperta clama por uma possibilidade de maior desenvolvimento. O secularismo, portanto, jamais responderá por uma redenção completa e por uma justiça consumada e, por isso, há uma óbvia impossibilidade de reunir teórica e praticamente uma doutrina de índole materialista como o marxismo com a visão de mundo cristã, muito embora isso passe por possível entre aqueles que desconhecem ou desprezam a história real da humanidade em sua relação efetiva com a transcendência.
Dito isso, assumimos um posicionamento no espectro político mais à direita pelo simples fato de constatarmos que a esquerda, de viés revolucionário e/ou progressista encontra-se (se é que não esteve sempre) distanciada propositadamente ou inconscientemente dos valores reais que regem a humanidade, que são absolutos e eternos como eterno é Aquele ente humano e divino que veio ao mundo proclamá-los.










