O mundo se dividiu entre a estupefação e a euforia, unindo-se no reconhecimento da importância histórica do episódio, ao assistir, na madrugada do dia 8 para o dia 9 de novembro, à eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos da América. O polêmico magnata, empresário e ex-apresentador de televisão, um autêntico outsider, que jamais ocupou cargo público, se sentará, a partir de janeiro, na cadeira mais importante do planeta.
Deixando para trás já nas primárias opções mais fiéis ao conservadorismo clássico americano, ao conservadorismo propriamente liberal, tais como Ted Cruz, representante do Tea Party, e o cirurgião Ben Carson, os americanos, a nosso ver, já não tinham feito a melhor das escolhas. Porém, Trump não passou adiante apenas por sua retórica inflamada e boquirrota e seus apelos incensados; os ditos conservadores também erraram. Ted, por exemplo, apontou o dedo para Trump quando manifestos contra seus comícios saíram do controle, encampando a narrativa da esquerda. Do ponto de vista da performance, portanto, embora não nos parecesse o ideal, a sua nomeação à disputa final foi justa.
E então os americanos chegaram à sua grande decisão com duas opções impopulares. De um lado, a Democrata Hillary Clinton, defensora de estupradores, capaz de se gabar de clientes que mentiram no tribunal e de ironizar vítimas, como os áudios comprovam; envolvida em uma vasta soma de acusações de corrupção e tráfico de influência contra ela, seu marido e a Fundação Clinton; alvo de investigações do FBI e de um sem-número de revelações do Wikileaks. Mais do que isso, e talvez mais importante até: tendo o poder de fazer com que, por muito tempo, a Suprema Corte, a instância suprema da Justiça no país, estivesse dentro das rédeas do projeto dos Democratas, que, em uma inflexão indiscutível para a esquerda, atiçaram as minorias, instauraram os devaneios belicistas do politicamente correto, acabaram levando ao aumento da violência no país e pretendiam, tal como dissera o ainda presidente Barack Obama, “transformar fundamentalmente a América”, deformando de vez o maior bastião do Ocidente, e instigando um confronto aquecido com a Rússia de Putin. Do outro lado, estava Donald Trump. Felizmente, o povo fez a única escolha possível e, mesmo com todos os defeitos que possui, o candidato Republicano – que já teve ligações com os Democratas no passado – cumpriu a obrigação de vencer uma mulher de índole no mínimo duvidosa e sem carisma, que representava um projeto perigoso para a América e o mundo. O partido ainda conseguiu a maioria em todas as casas do Legislativo.
Vencendo dos males o menor, o que esperar agora, olhando para o futuro, de Donald Trump? É difícil cravar o que a vitória do “trumpismo” e seu mandato representarão para o mundo. Alguns analistas o comparam ao antigo presidente Andrew Jackson (1767-1845), um líder militar e herói de guerra que, durante o período conhecido como Democracia Jacksoniana, mobilizou parcelas do sentimento popular, olhando particularmente para o homem branco provinciano e declamando contra as “elites” corruptas. Não que nos deixemos iludir por esse discurso racista de que somente brancos votam em Donald Trump, mas de fato ele cresceu numa cruzada contra o que chamou de “establishment” globalista, uma faixa que engloba os esquerdistas Democratas e mesmo alguns Republicanos mais tradicionais na crença em que é preciso reforçar núcleos de poder supranacionais sobre as soberanias nacionais mundo afora, e de que os EUA têm que se incumbir decisivamente desse papel. Se por um lado Trump fala ao conservadorismo real, aquele com que pessoalmente nos identificamos – ataca o aborto, o politicamente correto, defende o ideário de nação e pátria, defende um juiz conservador para a Suprema Corte, defende o porte de armas, defende cortar impostos e regulações, chama o “terrorismo radical islâmico” pelo nome -, por outro, seu lado populista, com direito à proposta ridícula da construção do muro entre o México e os EUA financiado parcialmente pelos mexicanos, sugere um isolacionismo um pouco além da conta que, conquanto alveje com razão as pretensões ideológicas globalistas, sustentadas desavergonhadamente pelos burocratas de Bruxelas e por outros magnatas como George Soros, pode gerar tensões nas relações comerciais e incrementar as incertezas já naturais num cenário em que não se sabe o que significará o seu governo. Se a direita mundial ganha com Trump? Ganha, por um lado, pela derrota do projeto Democrata. Por outro: o triunfo de Trump instigará a emergência, em outros países, de uma direita liberal-conservadora autêntica, ao melhor estilo Reagan, Thatcher e Carlos Lacerda (com os quais Trump tem pouco a ver), ou animará movimentos nacionalistas e protecionistas que, em reação extremada ao status quo degenerado do Ocidente, cairão no colo do autoritarismo ao estilo russo-eurasiano? É o que nos resta aguardar para ver.
Descrito o cenário de dúvidas, há, porém, ao menos mais um motivo, esse realmente retumbante e indiscutível, para comemorar esse resultado: a derrota da imprensa e da “elite iluminada”, dos tiranos do bom mocismo, daqueles que, no Jornalismo, na classe artística ou na intelectualidade, se consideram a inteligência superior e saneadora dos males da humanidade. Estou falando, naturalmente, da Globo News, da imprensa brasileira, de comentaristas como Guga Chacra e Eliane Cantanhêde, que publicou, em seu Twitter, que, diante da derrota do acordo de paz com as FARC na votação popular colombiana, do Brexit e da vitória de Trump, se questiona “que democracia é essa” – ou seja, só é democracia quando ganha quem ela prefere. Estou falando de Caio Blinder e do pessoal do Manhattan Connection – e até do Antagonista. Também de boa parte da própria imprensa americana, particularmente a emissora CNN. Dessa gente que tinha absoluta certeza de que o resultado seria outro, que menosprezou o fenômeno Trump desde o começo e fez mais torcida que apuração – em espaços em que se espera ler reportagem e não, como neste blog, análises opinativas. Refiro-me também aos artistas chorões de Hollywood que falaram em se mudar para o Canadá se os americanos “deploráveis”, tal como Hillary os chamava, elegessem o Republicano.
Não somos apenas nós; dessa ou daquela forma, virando nessa ou naquela direção, o mundo não está mais tolerando discursos engomadinhos de quem afronta todos os valores ocidentais e as referências mais basilares sob o pretexto de estar “defendendo o povo e os mais pobres” – mas não consegue o voto destes últimos. A reação pode ser, nalguns lugares, extremada, desagradavelmente à altura do desastre contra o qual ela se volta; mas que não se esqueça de quem é a culpa. You’re fired.


1 comentário
Acordei e, logo cedo, ainda deitado, arranquei meu celular do criado-mudo. Procurava por resposta a uma dúvida que me recém tinha surgido: quem venceu as eleições americanas?
Na noite anterior, acompanhei parte do Jornal Nacional, li uma matéria ou outra nos sites de notícias mais famosos (Veja, Globo.com, Folha), ouvi comentários de especialistas aqui e acolá, e, para todos, a mulher Clinton seria a vencedora, com o falastrão Trump sendo humilhado.
A grande mídia se pensa a senhora da razão.
Assim correram os últimos meses, em todas as noites anteriores ao dia de hoje. Meu cérebro foi bombardeado e meus testículos martelados por coisas do tipo “Trump tem posições radicais, é racista, xenófobo, machista, etc.” Só faltou ouvir que era inimigo da classe operária, a favor do impeachment, contra o ensino público, a favor da PEC 241, amigo do Bolsonaro, que queria prender o Lula, que era discípulo do Olavo de Carvalho e por aí vai.
Sobre Hillary, propagandeavam-se os mais gostosos adjetivos, até mesmo quando os repórteres com cara de nádegas e os mais polutos analistas sabichões explicavam, em tom professoral, que ela “pudesse talvez estar” em maus lençóis por causa da história dos e-mails (se você não sabe que história é essa, você é muito burro para estar lendo o que eu escrevo. Pare de ler e volte ao jardim de infância. Um sorvete de casquinha na testa é seu chapéu favorito, suponho). Nenhuma palavra, contudo, foi dita sobre Benghazi, os métodos de arrecadação de fundos da fundação Clinton e tantas outras maracutaias ligadas à ex-primeira dama, mulher de um ex-presidente adúltero.
E as pesquisas eleitorais? Todas sentenciavam Clinton como a medalhista de ouro. Donald Trump se tratava de carta fora do baralho, um medalhista de plástico. As eleições seriam apenas o rito necessário a confirmar a glória do Partido Democrata e de sua sorridente, cambaleante, mentirosa e super simpática representante – uma mistura indigesta de Dilma Rousseff, Gleisi Hoffmann e Maria do Rosário.
Você que acompanhou a cobertura das eleições americanas somente pelo que nossa magnífica imprensa produziu, deve ter ficado boquiaberto com o resultado final (se ficou, você é muito burro para estar lendo o que eu escrevo. Pare de ler e volte ao jardim de infância…).
Até entendo seu espanto. Os jornalistas-comentaristas-analistas das organizações Globo et caterva, incluídos os especialistas de facebook, pareciam torcedores de futebol de um mesmo time, discutindo em um bar, numa disputa de elogios à equipe objeto de sua paixão.
Mas…
Vitória republicana. Trump’s victory.
No noticiário da manhã, as manchetes deram o tom do que seria transmitido por toda a imprensa e replicado pelos papagaios de redes sociais ao longo do dia. Clichês seguidos ou antecedidos pelas palavras “surpresa”, “surpreendente”, ou pela expressão “contrariando as expectativas”.
Líderes europeus, ONU, professores universitários tão independentes quanto uma porta, mal disfarçavam o desconforto pela vitória de Trump, afinal de contas, terão de aguentá-lo, pelos próximos anos, fazendo picadinho daquele ar de superioridade que todos eles costumam exalar.
Inconformados, então, nossos especialistas queriam entender como Trump venceu. E saíram a procurar culpados. Seria a onda conservadora que vem dominando a galáxia? Talvez a culpa seja dos americanos brancos burros, dos latinos burros, dos negros burros, dos asiáticos burros, dos pobres burros, dos ricos burros, dos judeus burros, dos católicos burros, dos evangélicos burros, enfim, de todos os iletrados que votaram em Trump, lustrosamente apelidados de maioria silenciosa.
Ora, se inteligências superiores, aquilatadas, como Lady Gaga, Bruce Springsteen, Jon Bon Jovi, Jay-Z, Beyoncé, Jennifer Lopez, Madonna e tutti quanti manifestaram, abertamente, seu desprezo por Hitler, digo Trump, por que um americano branco burro, um latino, um negro, um careca ou um japonês fariam diferente?
Aliás, como é que os latinos da Flórida, que serão lançados em imensos vagões, para serem transportados até Guantánamo, onde sofrerão sessões de afogamento nos vasos sanitários mais sujos que alguém ouse imaginar (ao melhor estilo banheiro de rodoviária), puderam votar no próprio demônio?
Ouça, amigo que trabalha na grande mídia. Ouça, intelectual de facebook. Ouça, estudante que mal tirou as fraldas e quer dar pitaco em tudo. Ouça, senhor e senhor bunda-mole: Trump venceu. A vitória dele é para vocês. Este texto que escrevo é para vocês. Trump tem um topete feio e engraçado. Ele pinta o cabelo. Ele não dá a mínima para os seus “ais” e “uis”. Ele chuta a sua bundamolice. Ele fala palavrão. Ele conta piadas (bem sujas!). Ele gosta de mulher. Ele faz “comentários machistas sobre as mulheres” (Oin, que nojinho! Santo Deus!). Ele disse que vai construir um muro na fronteira com o México (como se lá já não tivesse um). Ele não gosta de terroristas, incluídos os muçulmanos, mesmo que esses terroristas digam que não são terroristas. Ele é CONTRA O ABORTO. Ele fala sem o compromisso de agradar quem o ouve. Ele agradou a milhões. Ele triunfou.
Aceite, caro jornalista-analista-especialista-matraca-de-facebook, que você não sabe nada.
Depois que você disse que a aprovação do Brexit afundaria o Reino Unido, a Europa, o planeta terra e os sistema solar num caos econômico, e isso não aconteceu, nem está perto de acontecer, nem acontecerá, você deveria ter aprendido a parar de fazer torcida e a começar a respeitar os fatos. Mas não. Você é teimoso.
Escute aqui, seu especialistazinho em porra nenhuma (grave o que vou dizer):
– por causa de Trump o mundo não vai acabar;
– A economia dos EUA não vai degringolar;
– As criancinhas não vão passar fome;
– A América Latina não vai perde importância; nem ganhar, pois os americanos simplesmente não dão a mínima para nós;
– as pessoas de bem não serão ameaçadas;
– Os americanos não são burros;
– todas as pesquisas, tudo que vocês disseram sobre Hillary, todas as suas opiniões sobre ela e as eleições americanas eram furadas;
– Hillary Clinton é MILIONÁRIA, dissimulada, mentirosa, desonesta e corrupta;
– ser milionário ou bilionário não é algo ruim;
– Ter dinheiro não é ruim.
– Ser casado com uma ex-modelo eslovena (!) não é defeito;
– O aquecimento global é uma grande babaquice.
Para concluir: não entendo porra nenhuma de política americana ou internacional e não faço ideia se Trump será bom ou ruim para os americanos e para o mundo. Do alto da minha sabedoria acho que a vitória dele trará mais benefícios do que malefícios.
Pois bem, dito isso, como lição, o que vejo é o seguinte: as nossas posições políticas, no momento em nos fazem afastar da fria análise dos fatos, transformam tudo o que dizemos em mera torcida, por mais enfeite que coloquemos. No fim das contas, quando aparecem os Trumps para jogar na nossa cara que sempre estivemos errados, as seguintes opções se apresentam: a) por o rabinho entre as pernas, fechar o bico e reconhecer nossa burrice e nossa desonestidade ou b) ficar com cara de babaca triste, de mimimi, tentando encontrar culpados pela nossa falta de cérebro, que nos fez acreditar que as coisas é que deveriam se amoldar à nossa mente, e não que a nossa mente é que deve aceitar as coisas como elas realmente são.
Um abraço e boa noite.
Chupa Hillary!