Constato com grande infelicidade dois fatos que se tornaram patentes ontem; o primeiro, a quantidade estupefaciente de mentes fracas e impressionáveis em nossos círculos de relação e figurando entre as supostas “cabeças pensantes” da sociedade. O segundo, a covardia com que os movimentos de extrema esquerda expõem uma jovem de 16 anos ao sacrifício de encenar seu melodrama e esbanjar seu belicismo contra parlamentares em uma sessão a que ela foi CONVIDADA a comparecer.
Refiro-me, naturalmente, ao vídeo da estudante Ana Júlia, que esteve na Assembleia Legislativa do Paraná para falar sobre a vertente paranaense do movimento nacional de “ocupação” – leia-se INVASÃO – de escolas. Ela esteve lá, como informa o site Jornalivre, a convite do petista Tadeu Veneri, que foi derrotado na eleição para a prefeitura de Curitiba.
Não gostaria de expô-la mais do que ela já está exposta, mas tamanha foi a comoção em torno do seu discurso, devemos admitir, bem articulado, mas “vitimista” e choroso, disfarçando a injustiça e a falta de coerência através das lágrimas sensibilizadoras e das palavras de ordem, que julgamos necessário repercutir a sequência de inverdades que foram ditas e para as quais os afobados não estão tendo o juízo de atentar.
Ela começa com a saudação formal aos parlamentares – para depois, como se verá, acusa-los de assassinos -, e se apresenta como estudante secundarista, do mesmo colégio em que outro estudante, meu xará, Lucas Eduardo Mota, foi lamentavelmente assassinado dentro de uma das “ocupações”. Ela então se pergunta: “De quem é a escola? A quem a escola pertence?” Com base nesse argumento, ela “convida” os parlamentares e quem mais a ouvir a consultar o inciso VI do artigo 16 da Lei 8069, que versa sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e que diz que o direito à liberdade passa pelo direito a “participar da vida política, na forma da lei”. NA FORMA DA LEI. Respondendo às perguntas iniciais, uma escola privada, gostem ou não, é um negócio administrado por alguém, que necessariamente precisa de lucro, e uma escola pública é custeada em boa medida pelos recursos dos impostos, manifestação de um serviço público a ser prestado à sociedade, serviço esse que é o do ensino. Ela não pertence a mim ou a você; é um templo consagrado à educação. Não posso entrar lá na hora em que eu quiser e transformá-la em baderna, ficar levantando cartazes, cantando ou impedindo as forças da lei de ingressarem; as pessoas não estão pagando seus impostos para isso. Meu direito à participação na vida política, como o da Ana Júlia e de qualquer outro, está condicionado à lei e à ordem. Contudo, pessoas que, vinculadas a partidos e movimentos de extrema esquerda, como É o movimento das invasões, acreditam que vale tudo – chegando até, por vezes, a simpatizar com os black blocks -, simplesmente não conseguem assimilar a vigência de normas de civilidade, e se recusam a aceitar a disciplina no uso de espaços quaisquer. Enquanto isso, estudantes que não foram cooptados por essa onda permanecem privados do exercício do seu direito de estudar, às portas do ENEM.
Ana Júlia diz que professores e estudantes consideram um insulto ser chamados de “doutrinados”. Sua única bandeira, sempre ela, supostamente, é a “educação”. O movimento, novamente segundo ela, é “apartidário”. Os dirigentes estudantis ligados a partidos de extrema esquerda, como PCdoB e PSOL, que nitidamente coordenam essas ações, são apenas uma ilusão de ótica. Nós estamos vendo coisas! Todas as invasões que estão acontecendo país afora são uma reação “dos estudantes pelos estudantes”, preocupados com as “gerações futuras”, e não uma orquestração política evidente para confrontar as reformas necessárias do governo Michel Temer. Esse discurso, francamente, exige de nossa parte uma ingenuidade e uma cegueira muito enraizadas para ser comprado.
Traz à tona, de novo, a ideia da necessidade urgente do “senso crítico-político”, para que as pessoas não leiam e acreditem cegamente no que leem. O que ela mostra através de suas palavras, porém, é sua adesão integral à cartilha que os partidos e movimentos de esquerda vêm semeando no país, com direito a todas as suas mentiras e distorções. “O tal do pensamento crítico”, como já disse outras vezes, tal como eles o defendem, é sinônimo de curvar-se à sua barulheira. Nessa toada, Ana Júlia diz que as “ocupações” são contrárias à “Lei da Mordaça”, o “Escola Sem Partido”, pois uma escola sem partido é uma escola “sem senso crítico, é uma escola racista, é uma escola homofóbica”, implica “formar um exército de não-pensantes”, quando está claro no texto do projeto que ele defende a simples exibição de um cartaz relembrando ao professor que os estudantes têm direito – já estabelecido – a não sofrer a imposição de uma agenda ou de uma corrente de pensamento político-ideológica em sala de aula. Que eles têm direito, justamente, a possuir e manifestar suas próprias posições. Acaso esse direito torna a escola “homofóbica ou racista”? Ter garantido o direito à diversidade leva à tirania? É o tipo de lógica que envergonha qualquer um com, vá lá, senso crítico (!).
A seguir, claro, uma saraivada de flechadas na famigerada PEC 241, uma “afronta à Constituição cidadã de 88”, uma “afronta à saúde e à educação, uma afronta à assistência social”; para quem não tem partido e sustenta o combate ao analfabetismo funcional, uma lamentável repetição do destrambelho petista contra uma proposta que ecoa as exigências da responsabilidade fiscal, e uma repercussão da ideologia estúpida segundo a qual o mantra do “mais dinheiro” e “mais gasto” é a nossa maior esperança, e não a eficiência no uso e na gestão. As esquerdas acreditam que o dinheiro surge em capim, e que querer limitar o seu desperdício é uma “maldade”, um ataque aos serviços públicos; não entendem que existe uma lógica por trás da geração do dinheiro, e que sem equilibrar essa lógica, ele não vai aparecer, tampouco bastar! Não entenderam ainda que a PEC limita, por 20 anos, com direito a uma revisão ao longo do tempo, o teto geral de gastos públicos, calculado com base na inflação, mas a saúde e a educação permanecem com a prioridade, podendo receber recursos das outras áreas se necessário – apenas sem ultrapassar, no contingente geral, o teto. Ou melhor, não entenderam uma ova; eles sabem muito bem disso! Querem mais é que se gaste muito, querem mais é poder manipular o máximo de verbas possível que sai do bolso do “contribuinte”, a fim de saquearem à vontade e alimentarem os seus devaneios totalitários de poder. A última coisa com que se preocupam é, de fato, com a saúde e a educação, porque, caso se preocupassem, pensariam, antes, na Economia. Já dizia o irlandês Edmund Burke que nem todos aqueles que fazem barulho em favor do público – ou de uma causa – estão realmente se importando com esse público ou essa causa, sequer a maioria.
O restante do discurso é nada mais que o matraqueio em favor da “educação”, como princípio abstrato, e das “futuras gerações”. O grande destaque, talvez o maior de todos os absurdos ditos pela estudante, foi o momento em que ela foi justamente interrompida pelo presidente da Assembleia, Ademar Traiano, ao acusar os parlamentares de estarem “com as mãos sujas de sangue”, como se fossem eles os responsáveis pelo assassinato do estudante Lucas, porque, segundo o ECA, a responsabilidade pelos adolescentes e estudantes também cabe ao Estado. Para Ana Júlia e para a turba que a aplaudiu, parecem ter desaparecido do mundo real dois fatos incontestavelmente óbvios: o primeiro, o de que, segundo a Polícia Federal, o assassino confesso afirmou que ele e a vítima ingeriram uma droga sintética dentro do colégio, depois do que, em meio a uma briga, ele teria matado o colega a facadas. Ou seja, a morte se deu dentro da “ocupação”, por obra de alguém que participava dela. As mãos dos invasores então não estariam sujas de sangue, com muito mais razão, tendo sido um deles o assassino?
“Mas o Estado deveria garantir a segurança!” Deixando de lado o fato de que estão invadindo o espaço e comprometendo a continuidade das atividades do colégio, em um sistema educacional que já é combalido, assumamos isso. E desde quando as “ocupações” são simpáticas à vistoria e à vigilância policial? Desde quando os agentes do Estado e até os pais dos estudantes têm acesso livre para coibir quaisquer riscos? Desde quando? Caberia ao Estado, segundo Ana Júlia, fazer milagres? O que, objetivamente, ela quer que se faça: que se entre na “ocupação”, contra a vontade dos seus colegas, ou que, como manda o juízo, essa “ocupação” inútil seja encerrada logo de uma vez? O discurso de Ana Júlia, por analogia, remete à ideia fictícia de um criminoso que responsabilizasse os poderes da República e o Estado por não ter salvo a vítima que ele mesmo assaltou ou assassinou. É de um non-sense absoluto.
Que a Educação no Brasil precisa melhorar e muito, isso é óbvio. Prova disso é que as pessoas se emocionaram com esse lamentável festival de bobagens. Espero que Ana Júlia tenha um futuro melhor que o seu presente, e que as gerações futuras consigam apreender o conceito de “responsabilidade”. Deixar-se seduzir por demagogia melodramática para apoiar a insensatez é um péssimo sinal de que isso está bem longe de acontecer.


2 comentários
Foi a melhor coisa que ouvi ate hoje sobre essas ocupações! Ela disse que a ocupação é constitucional, porem esquece que essas ocupações esbarra no direito de ir e vir dos alunos que nao querem participar dessas coisas, e onde estah o direito do aluno que quer continuar a estudar, o direito da Ana Julia eh maior que o desse aluno que quer estudar? Entao isso faz com que ela seja superior ao aluno que quer estudar pois ela tem poder de impedir ou mandar no aluno fazendo com que ele seja forçado a aceitar o que ela estah impondo! Isso é tenso de mais viu!
Parabéns, Lucas! A lucidez das suas palavra é admirável.