“A liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito de dizer às pessoas o que não querem ouvir.”
— George Orwell.
Estamos, inegavelmente, à beira de um imenso e negro abismo. A situação do Ocidente atual se assemelha muito à da Itália “pré-Mussolini”: correntes revolucionárias, autointituladas modernas, visando um bem futuro, um valor maior que o tradicional. Os fascistas italianos consideravam a monarquia italiana ultrapassada, retrógrada, opressora e injusta; antes de instaurarem uma ditadura, bradavam – ao lado dos socialistas – as injustiças e perversões causadas pelo Grande Capital, pelo liberalismo de Smith[1].
Há alguns anos um homem decidiu enfrentar uma massa de feministas em uma manifestação no Brasil[2], e o que quase fizeram com o sujeito? O homem quase morreu por tentar peitar centenas de feministas em uma passeata. Para a lógica do indivíduo que as encarou, se o tal do “direito de se manifestar” dava às feministas permissão de cometer atentados ao pudor e, com isso, ofender milhares de passantes, ele também tinha o direito de mostrar seu órgão sexual para uma marcha de feministas, em forma de protesto. Resultado? Ele quase perdeu a vida para centenas de aspirantes ao assassinato – ou assassinas de fato, se alguma daquelas já matou o filho no ventre. Não espanta, de forma alguma, defensoras e praticantes do aborto terem o ímpeto de matar uma pessoa.
Já em um aspecto mais geral, vemos a tentativa de disciplinar (pela força, claro) a sociedade para que se afaste de suas noções tradicionais. Não é possível, considerando a agenda da igualdade e do respeito total ao ser humano, identificar certas pessoas a partir de suas características óbvias (“narigudo”, “gordo”, “negro”), ou até mesmo o direito de criticar atos ou de simplesmente não gostar de algum atributo de outrem. Neel Kolhatkar, um produtor de curtas para o Youtube, fez um vídeo que traduz perfeitamente toda a agenda politicamente correta[3], onde um estudante é minado de todas as oportunidades de fazer um trabalho decente por conta do histórico de opressões que os seus colegas de classe “sofreram” – mesmo que esse tal “histórico” não tenha sido presenciado pelos sujeitos presentes. O direito do garoto branco, estudioso e com pais relativamente estáveis financeiramente, fica ofuscado pelos direitos dos pobres e coitados. Só eles podem dizer o que é e o que não é preconceito, pois só eles sofreram; a averiguação ou a crítica desse sofrimento não pode ser feita por ninguém além do grupo deles, ou autorizado por esses grupos. São intocáveis por serem coitados, têm a melhor política de proteção ideológica existente na História do Homem (ou escrever “Homem”, no sentido de Homus, também estaria censurado nessa fantasia “Orwelliana” levada a sério? Seria um machismo enrustido, fruto de uma sociedade patriarcal e opressora?).
A semelhança desses dois exemplos citados com a Itália pré-fascista é bem notória: são grupos de caráter político e cultural que querem, a todo custo, uma hegemonia em seu meio. Não importa se os costumes locais são contrários ou até delicados perante os pontos defendidos, pois o diálogo com o tradicional não é sequer cogitado. Os paladinos do progresso, dos “direitos humanos”, têm tanta certeza de que estão no topo do certo, justo e correto que se você, homem, mostrar seu órgão sexual na frente de uma passeata feminista – onde muitas estão nuas, seminuas ou até mesmo tendo atos sexuais em público –, você não será igual a elas, não tem os direitos que as detentoras do vitimismo têm: você será a escória, merecerá o espancamento seguido de morte.
Em defesa dos que se consideram as verdadeiras – e únicas – vítimas, há um argumento curioso: a história do racismo. O segregacionismo racial foi combatido assiduamente no século passado, e tal combate serve de lanterna para as políticas e visões de grupos progressistas atuais; com suas bases na História recente, onde uma real progressão realmente ocorreu, que fez a sociedade se livrar do racismo nas leis e torná-lo ilegal, os progressistas se entendem como descendentes diretos dos grupos e movimentos que lutavam contra o racismo no século XX. O argumento é convincente, mas muito superficial, de modo que uma crítica mais profunda acaba por desmantelá-lo.
Os movimentos antirracistas tinham uma característica peculiar, se comparados aos de agora (sejam, autointitulados, contra o racismo, homofobia, xenofobia, etc.) seriam conservadores, e isso não se deve ao mero passar do tempo[4]. A exemplo de Martin Luther King, um sujeito que nunca apoiou políticas raciais positivas para negros – King apoiava uma espécie de assistencialismo geral, para brancos e negros pobres –, e lembremos que se tratava de um pastor protestante (sim: um que não gostava de sexo fora do casamento e acreditava que a pederastia é uma aberração). King não pregava uma diferença de negros para brancos, nem mesmo com a evidente diferença social da população negra para a branca, nos EUA, pois cria (e com base na teologia!) que todos os homens, independente da cor da pele, eram iguais em sua essência ontológica. O feminismo também não escapa do abismo gritante do antes e do atual.
Uma das formas de combater o racismo no século XIX, assim como no XX, era usar a Bíblia, ou argumentos teológicos, diretamente no meio judiciário e parlamentar, e o mesmo se aplicava ao direito das mulheres, ou de meios para suas proteções. Se as bebidas alcoólicas foram proibidas na primeira metade do século passado, nos Estados Unidos, foi por conta do alto índice de agressões que eram cometidas por maridos bêbados em suas esposas; a ideia era proibir as bebidas para proteger mais as mulheres. É algo feminista, mas de um feminismo “de raiz”, que foi apoiado por dezenas de grandes denominações protestantes. Estas últimas, no meio público e político, usavam de versículos bíblicos para enxertar suas argumentações – foi um movimento… puritano.
A diferença dos movimentos raciais e feministas antigos para os atuais é gritante, mas, talvez, o movimento político mais agressivo e pérfido não esteja embriagado de discursos misândricos e raciais, mas sim por algo mais aberrante e invasivo: o sexo como questão pública.
O sexo como questão pública é o ato político mais irracional da atualidade. O tipo de ato sexual feito, ou com quem se faz, se tornou pauta nos legislativos do Ocidente – e, em parte, no Oriente –; não obstante isso levar para a política uma questão de foro íntimo, há uma crescente investida em tentar normalizar, à todo custo, atos que são vistos como errados pela sociedade. Não importa se as pessoas considerem desrespeitoso, indecente, inapropriado ou ofensivo ter, por exemplo, um casal homossexual se beijando na rua. Elas devem passar pelo rolo compressor da justiça ou serem reeducadas conforme a vontade de certos grupelhos. O pior de tudo é que o Movimento LGBT nem sequer pode representar todos os homossexuais e afins, pois o único crivo racional que tem para padronizar suas lutas e seu coletivo é o sexo: algo tão subjetivo e íntimo que não é determinante em absolutamente nada no imaginário político do Homem – a quantidade crescente de homossexuais que apoiam Jair Bolsonaro serve para elucidar o fato.
Sem serem decisivas concretamente na mentalidade política, as pautas sexuais se perdem na própria incongruência em que estão imersas: não conseguem manter uma coesão exata, ou explicar qualquer ruptura com suas “ideologias” sem ser sinônimas de ódio, discriminação e crime. Tudo o que escapa das questões LGBT, que sai da tangente discursiva de suas lideranças, acaba por ser taxado de inferior, monstruoso; porém, ouse concordar com as agendas LGBT e de monstro passará a ser, não apenas um herói, mas um gênio. O controle do certo e do errado, do ofensivo e inofensivo não está mais nas mãos da sociedade e suas variadas instituições. O Movimento Gay tomou para si – ao menos em seus imaginários, quando não efetivamente no meio social e político – a Cruz e a Espada, o “Juiz”, “Jure”, e a acusação. São intocáveis, pois têm o passaporte de vítimas.
Em suas defesas, usam chavões, ou simplesmente gritos de ódio contra seus adversários. Acusar alguém, ou alguma ideia, de “homofóbico” se torna basilar para sanar aquela pessoa e seus discursos do meio público, pois, como desejam, a homofobia deve ser criminalizada. O fator interessante é que quase tudo o que enxergam em uma sociedade tradicional deveria ser taxado de homofobia; não gostar de ver dois homens se beijando é homofobia, não apreciar uma cena erótica de duas mulheres em um livro também é homofobia, uma vez que a palavra tem o sentido de “aversão aos homossexuais”.
O desgosto do cidadão, agora, deve ser tutelado e reformado contra, ou a favor, de sua vontade, pois esta já não é mais imperativa. Àqueles que se negam a se curvar a esse suposto progresso merecem nada mais nada menos que a cadeia. Ser gay atualmente se tornou algo público, e o sexual deve ser esbanjado na rua, não importando quem gosta ou não disso; uma ofensa a todos em nome da tolerância; pelo respeito, desrespeitam. A sociedade é um tubo de ensaio nas mentes pró-LGBT. Argumente contra, mesmo se a lei estiver ao seu favor, e receberá a crítica de que você não entende do amor, que é apenas um mal-amado, indesejado – ainda que possua uma grande e amável família, faça caridade, respeite os seus semelhantes… Felipe Neto, ao reclamar do fato de Silas Malafaia ter sido cotado como um dos maiores religiosos da História do Brasil, disse, sem medo de ser contrariado, que todos os trabalhos caridosos do pastor não valiam nada, pois Malafaia seria um “homofóbico”. Não importa se você ajuda os outros, luta para o bem para um desconhecido: se não está de acordo com a ideologia progressista, se não conhece o amor verdadeiro e é apenas um facínora que não merece respeito.
Quanto amor ideológico, não? Quanta compreensão do outro, do diferente. Os progressistas realmente sabem o conceito de “contradição”? É “provável” que não.
Os grupos coloridos, quando decidem se manifestar, levam um de seus símbolos: o arco-íris – tal imagem já foi infantil, usada por crianças para brincar ou utilizada para encantá-las, mas isso mudou. Foi pervertido. Atualmente, no Ocidente, tais grupos saem às ruas e cometem crimes hediondos contra a sociedade, não se importando se vão ofender ou não, pois são os portadores do passaporte da vítima, e eles, apenas eles, podem saber da realidade de se sentir ofendido. Não é apenas um fenômeno paralelo, desarraigado dos movimentos progressistas, mas sim algo intrínseco e comum a todos: o desejo pelo domínio, pela voz total. As próprias pautas progressistas delatam isso, minando o direito dos outros de discordarem, debaterem ou peitarem os detentores do selo “vítima”: se assim fizerem, não entendem o “amor”.
Em semelhança com a Itália pré-fascista, tais grupos são agarrados a convicções antiliberais, acreditando que o livre comércio também é uma causa de seus males, pois seria a causa de injustiças sociais. Não há respeito pelo tradicional, mas há uma propensão de se entenderem como o futuro, podendo conduzir e lapidar os comportamentos alheios pela ação do Estado, inchando-o; se os fascistas, antes de tomarem o poder, se entendiam pela juventude italiana, como a salvação da nação, os progressistas atuais se veem como a voz da juventude e os salvadores da humanidade, tudo para um futuro melhor, e passam por cima de qualquer um que os contradiga.
Mas será que o poço negro à nossas frente será apenas passageiro, como uma breve tempestade? O tempo dirá; contudo, caso não passe de maneira rápida, iremos aprender, tal como os italianos, que as consequências de ideias vão muito além de caprichos subjetivos na sociedade. Talvez a bandeira coloria ainda tinja muito vermelho nas ruas, muito cinza nas cadeiras e muito roxo nas peles daqueles que os contradizem.
[1] http://www.worldfuturefund.org/wffmaster/Reading/Germany/mussolini.htm Uma fonte primária para os interessados no estudo do fascismo. Na Doutrina do Fascismo, Mussolini é enfático em se distanciar do liberalismo, e também do comunismo – mas ainda assim prega uma economia nacionalista e intervencionista, uma economia fascista.
[2] https://www.facebook.com/stuffthatmakesyoucringe/videos/1643115419270270/
[3] <iframe width=”560″ height=”315″ src=”https://www.youtube.com/embed/iKcWu0tsiZM” frameborder=”0″ allowfullscreen></iframe>
[4] Para os irresponsáveis que acreditam que o conservadorismo é sinônimo de retrocesso, de algo datado e ultrapassado, basta avisar que Edmund Burke – o pai das ideias políticas conservadoras – foi um dos poucos que levantavam a voz para defender os homossexuais no Reino Unido do século XVIII.

