“Muitas são as maravilhas do mundo,
Mas não há coisa mais admirável que o homem”.
Sófocles, Antígona.
Bem longe de ter a pretensão de desqualificar outras sociedades, ao menos em um nível ontológico. Toda a humanidade é dotada de igual inteligência para resolver seus respectivos problemas e querelas, mas tais dotes não são um absoluto para igualar completamente os povos. Os homens neste mundo são diferentes uns dos outros, com qualificações e desqualificações em diversas áreas.
A China foi o berço da náutica avançada, do papel, da pólvora e da cerâmica, mas nenhum dos avanços obtidos pela cultura chinesa coloca os chineses acima, em termos de humanidade, de índios da Amazônia – ou a falta desses desenvolvimentos técnicos dê alguma qualidade a mais aos indígenas amazonenses. Toda sociedade humana é demasiadamente complexa, singular e intrigante. Eis uma das belezas da humanidade.
O homem é um ser belo e solene, com inúmeros defeitos e vários atributos positivos. A natureza humana é “paradoxal”, transitando entre características biológicas e além-físicas.
Portanto, existe a certeza de que é uma falta de lucidez o fato de considerar, de algum modo, inferiores os homens, em sua própria humanidade, por possuírem qualquer tipo de cultura. Diminuir o próprio ente é impossível e desqualificar, ou qualificar, outrem em um nível ontológico é tão impossível quanto. Mas homens não são culturas. As pessoas estão acima de qualquer cultura, logo, suas criações podem ser qualificadas e desqualificadas.
Como disse Olavo de Carvalho “Uma das coisas mais lindas na mente esquerdista é que o sujeito ao mesmo tempo fala em nome do progresso e considera um crime julgar que algumas culturas são superiores às outras” [1]. Mas existe um receio de que tal fato tenha se extraviado para além da esquerda. Atualmente não se pode dizer algo óbvio: o domínio das concepções ocidentais e sua superioridade (em muitos pontos) sobre as demais culturas, sem ser acusado de racismo ou de ter um discurso etnocêntrico, eurocêntrico, etc. Por mais que a esquerda irradie tais pensamentos, eles foram para além do esquerdismo, incorporados por outras mentalidades.
A fim de elucidar melhor essa questão, existe um exemplo:
Pense em uma ilha remota no Pacífico, onde mulheres tecem suas roupas, homens pescam e crianças aprendem com os mais velhos. Tal sociedade pode estar vivendo naquele mesmo pedaço de terra por quinhentos anos ou mais, vinda de locais distantes da Ásia ou Oceania.
Como em toda sociedade, existem regras, protocolos sociais indiretos e diretos, hierarquia, divisão de afazeres, etc. Culturas tribais, nômades ou não, são uma herança do passado de toda a humanidade. No neolítico – aplicado como exemplo aqui, pois se trata de um povo sedentário em uma ilha –, muitos povos viviam dessa forma arcaica, com algumas pequenas variações.
É um cenário idílico, com uma população que não vê outros humanos há muito tempo, e, claro: já consolidada culturalmente – seja na religião, nas tarefas domésticas, ritos de passagem ou até mesmo na sexualidade; mas o panorama não vai durar. Nenhuma cena cultural prolonga-se para sempre e, no caso, a mudança será anunciada por velas brancas no horizonte. O Reino da Espanha chegou.
Trata-se da Era Moderna[2], e ela veio para ficar. Os espanhóis modernos chegam com seus navios colossais, armas inimagináveis e utensílios jamais concebidos pelos nativos na ilha. No primeiro contato, o medo e a curiosidade se instauram na ínsula. Alguns dignitários da tribo entram em contato com o capitão europeu, causando uma fraca e débil comunicação primordial e, com os dias, câmbios são efeituados, ajudas são prestadas e presentes são trocados.
A cultura da ilha alterou em alguns dias o que não mudou em séculos de existência. Agora os membros têm espelhos, algumas moedas, facas, machados, metais e possivelmente alguma(s) arma(s) ou animais novos.
Anos depois, outra frota chega à ilha. Os novos espanhóis já não são como os de antes. Sacerdotes estrangeiros se instauram no lugar e um templo de madeira, a maior construção em terra que já viram, é erguido. A comunicação melhora e mais trocas são feitas. Alguns homens das naus pedem ao chefe da aldeia para explorarem a ilha, e lá encontram um bom lugar para plantar, sendo este local de plantio algo totalmente desconhecido para os nativos. No entanto, descobrem uma coisa a mais; um metal muito mais precioso para os viajantes brancos estranhamente trajados: ouro. Veios de ouro se desnudam em pedras, e podem ser observados em plena luz do dia perto de uma cachoeira. De resto, a colonização do povo insular pode ser agressiva ou pacífica. A agressiva trará mortes, além de um denso choque cultural obrigatório para o povo da ínsula, porém, a pacífica – apesar da “polêmica” sobre a colonização ultramarina, não foram poucas as instaurações pacíficas de colonos europeus – fará uma espécie de acordo com o líder da aldeia. Ao se tornar um servo do Rei, aceitar a fé e disponibilizar o de que os colonos precisam, não será pouco que o chefe ganhará. Contudo, mesmo com uma dominação sem o intermédio da força bruta, os europeus ludibriam, ferem e atacam moralmente os nativos, usando de trapaças e manobras ardilosas para terem, com o tempo, o controle político total da pequena e remota ilha.
Trocas agressivas como essa são, em suma, baixas, pois mesmo as pacíficas (ao menos como as do caso acima) são sinônimas de uma dominação áspera e invasiva. Caso não se aceite a instauração de uma base espanhola no local, a violência seria “justificada”, na visão de muitas autoridades do Reino da Espanha. Não que toda dominação seja ruim em seu todo[3], mas qualquer ato pautado e justificado na violência transforma-se em uma brutalidade mórbida. Não é apenas a injustiça embasada no uso de força letal e física que é danosa, mas também a injustiça intelectual, isto é, a desonestidade intelectiva usada para o domínio.
Qualquer ato humano com base na injustiça e desonestidade é perverso. A cultura que circunda os membros de alguma sociedade pode não entender sua própria perversidade, mas os atos dessa sociedade, mesmo que sem intenção, são maus.
Dito isso, cabe a toda pessoa de bem revisar suas crenças, atitudes e o que acredita serem seus defeitos e virtudes. Por mais que o homem seja ignorante em diversas áreas, as concepções sempre devem ser lapidadas por uma crítica constante. Claro que não se deve passar cada momento da vida em um ceticismo cego, mas sempre que necessário, ou quando parece que a certeza é constante, o ato da autocrítica é sempre bem-vindo e valioso.
A cultura que conseguiu, por meio de uma sofisticada filosofia e – mais tarde – pela teologia, chegar até essas conclusões apresentadas acima[4], foi a cultura ocidental. Por mais que densos e terríveis erros tenham se passado nessa cultura – pensadores como Marx ou aqueles que cimentaram o fascismo vieram de alguma cultura diferente? Não. –, suas conquistas são inabaláveis.
[1] https://www.facebook.com/olavo.decarvalho/posts/10152387882282192
[2] Isso se não considerarmos as ideias de Jacques Le Goff, que afirma a permanência do Ocidente no período medieval até a Segunda Revolução Industrial.
[3] Um pequeno e divertido exemplo, transformado em uma espécie de crítica pelo Monty Python: https://www.youtube.com/watch?v=gI5PirB7eE0.
[4] Incluindo a problemática e o mal de uma expansão agressiva, mesmo sem o uso da violência física.

