Não é necessário se aprofundar em um nível oceânico na obra de Karl Marx para poder perceber certos elementos básicos que envolvem a temática de seus pensamentos. As dicotomias entre opressor e oprimido, explorador e explorado, rico e pobre, etc. aparecem já na antiga e pouco popular obra chamada “Manuscritos Filosófico-econômicos”, escrita quando o jovem Marx tinha meros 26 anos de idade.
Desde seus primeiros manuscritos, nosso tão conhecido “filósofo” já tinha uma visão um tanto romântica (apesar de já se colocar afastado do romantismo anti-burguês da época) a respeito dos ricos empreendedores e donos de indústrias, negócios, terras e grandes produtoras e seus empregados. De fato, o mesmo discurso que fazia aos 26 se repetiria até sua morte (como os conceitos de Trabalho Estranho e Trabalho Natural), havendo mudanças, mas que não afetariam muito a essência dicotômica e as negações que Marx fazia em seus primeiros manuscritos.
Uma das coisas conservadas em seu percurso intelectual foi a impossibilidade de o empregador se igualar ao empregado. Empregados são os sofredores, os explorados e ludibriados pelo sistema, alienados pelo trabalho; os patrões, todavia, não entrariam na classe trabalhadora justamente por serem contrários ao grupo oprimido, ao criar a opressão e ao controlarem os meios de produção – Marx chega ao cúmulo de colocar essa argumentação como o motivo causal da existência da infelicidade em si.
E o que diferenciaria o trabalhador do patrão? O Trabalho.
Um burguês não é um trabalhador, pois não trabalha, não produz. Ele é o dono, aquele que, segundo o pensamento de Marx, encara seus empregados proletários como uma coisa, objeto, mercadoria. Se um burguês fosse trabalhador, então não faria sentido acusá-lo de criar um mal social, pois aí ele seria um operário sem alienação, que tira as riquezas do próprio trabalho, não um sujeito de terno e cartola atrás de uma mesa de mogno, administrando, coordenando e tocando para frente sua empresa.
Daí a crítica que a direita em geral faz a Marx e seus seguidores: eles não eram da classe proletária, não eram trabalhadores segundo suas próprias teses, não produziam porque não trabalhavam de acordo com seus mais altos postulados; Marx dizia que apenas o proletário poderia alcançar alguma verdade, alguma revolução, além de acreditar que uma infraestrutura econômica determinava sobre uma superestrutura cultural, isto é, os modos de produção embasados nos modos de dominação pelo trabalho causavam toda a composição filosófica, política, religiosa, literária, musical, etc. de uma sociedade.
Quando Thomas Giulliano, em seu site História Expressa[1], pretende alertar indivíduos para não afirmarem que nunca foi um trabalhador, se esquece de que esse argumento não é em referência ao modo, digamos, “direitista” de se pensar, seja liberal ou conservador (onde esses parâmetros socialistas não existem para determinar o que é o trabalho e como as “engrenagens” das sociedades humanas se formam), mas fazem referência ao próprio pensamento de Karl Marx, que dizia que o Trabalho simplesmente havia criado o Homem, que a Razão era subordinada à Ação, onde apenas aqueles que detinham a ação conseguiriam estar de acordo com a Natureza essencial do Homem – vale dizer que Marx também considerava a filosofia inteira como inválida, inútil e condenável, pois sempre guiava os homens à razão, nunca para a prática.
A crítica sobre o trabalho da pessoa de Karl Marx é esta: ele sempre se comportou como um burguês em seu escritório, jamais como um trabalhador consciente e com uma filosofia prática. Marx, segundo ele mesmo, seria um ser impossível.
[1] http://historiaexpressa.com.br/marx-trabalhou-sim-durmam-com-isso/

